Crítica | Jogos Mortais 2

estrelas 3

A mídia me chamou de Jigsaw. Não eu.

As continuações são sempre inferiores aos filmes “originais”? Esse questionamento é um dos pontos metalinguísticos mais importantes para a compreensão de Pânico 2, de Wes Craven, lançado em 1997. Após o assassinato de um casal durante a estreia de Stab, produção baseada nos acontecimentos do primeiro filme, alguns estudantes de cinema discutem uma das questões mais polêmicas entre cinéfilos e amantes de saga: consegue uma sequência ser superior ao original? Alien – O Oitavo Passageiro, O Poderoso Chefão, O Exterminador do Futuro e até A Casa do Espanto são colocados no diálogo.

Se olharmos especificamente para o gênero terror, as continuações nem sempre são animadoras. O que dizer de produções como O Exorcista 2, Eu Ainda Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, A Profecia 2, Halloween 2, A Hora do Pesadelo 2, dentre tantos outros filmes? Todos os citados, sem exceção, continuações bastante inferiores aos filmes que lhe deram o ponto de partida. Jogos Mortais 2 não chega a ser uma continuação bastante inferior ao primeiro filme, mas já nos prepara para o futuro da saga: um emaranhado de cenas mais explícitas, armadilhas mirabolantes, furos no roteiro e personagens que mereciam um desenvolvimento melhor.

Ainda na seara dos filmes da tetralogia Pânico, há um interessante diálogo na abertura do último filme da saga, lançado em 2011: aparentemente satirizando Jogos Mortais, duas garotas conversam sobre filmes de terror e travam um debate ligeiro, mas não menos interessante, sobre a importância da evolução dos personagens neste gênero, haja a vista a necessidade da velha e intensa catarse aristotélica. Em suma, se você não se importa com o personagem, não ligará nem um pouco para a sua morte.

Em Jogos Mortais 2, oito pessoas estão aprisionadas em uma casa. No local, Jigsaw preparou a distribuição de um gás mortal que numa média de duas horas irá matar a todos. Eles precisam, assim como na dupla do primeiro filme, lutar contra o tempo para sobreviver. Há recipientes com o antídoto em várias partes da casa, misteriosamente (e mortalmente, importante ressaltar) localizados. Mais próximo de Cubo, de Vincenzo Natali, a trama pede a união dos personagens para a superação das armadilhas, mas é óbvio que as pessoas egoístas e apressadas vão atrapalhar tudo e protagonizar a (auto) carnificina típica da série. O que esses indivíduos não sabem é que há uma ligação entre todos eles, pois sete deles foram incriminados por Eric Mathews (Donnie Wahlberg), um policial corrupto. O pior? O seu filho é o “oitavo passageiro”, dentro do ninho que provavelmente incitará sentimentos de vingança e de desforra.

No bojo das ilações, é possível perceber a ação policial que quebra determinados protocolos, como nos apresenta a série 24 horas, além de uma referência (proposital ou não) a um dos clássicos do terror dirigido por um Wes Craven ainda incipiente (A Última Casa à Esquerda), além da proximidade do protagonista da vez com o “irado” personagem de Brad Pitt em Seven: Os Sete Crimes Capitais: por causa da sua postura, ele paga um “preço” muito caro, sendo que a verdade, como você, caro leitor, saberá ao assistir ao filme, estava bem próximo dele a todo tempo.

Os aspectos técnicos ainda são envolventes, mas a natureza explícita de alguns acontecimentos não evoca o poder da sugestão, recurso que torna narrativas tensas ainda mais horripilantes. A montagem continuou sob a tutela de Kevin Greutert, do primeiro filme, profissional que conseguiu ajustar a captura das cenas frenéticas, marca do diretor experiente na seara da publicidade e do videoclipe.

O roteiro, assinado em parceria, era originalmente um trabalho engavetado intitulado “The Desperate”. O material foi descoberto pelos produtores que decidiram adaptar para a realidade de Jogos Mortais 2, produção filmada em apenas 25 dias. Com pontas soltas, o problema textual da continuação não é o argumento: pessoas presas em uma casa e que tentam sobreviver a um jogo maldito é interessante. O calcanhar de Aquiles fica por conta da verossimilhança. Sabemos que não há muito que se exigir deste filme, mas há algumas ações que são, no mínimo, questionáveis e irritantes, além da dispersão em uma perseguição final que mais parece imitação de um dos epílogos da série Sexta-Feira 13.

No âmbito sociológico há diversas metáforas que pululam a todo instante. Para o produtor Mark Burg, um dos temas centrais desta continuação é a imoralidade alheia, além do fato da trama abordar uma espécie de espelho dos Estados Unidos, pois segundo afirmou em entrevista, “essas pessoas não aproveitam a vida, típico do povo estadunidense”. Os medos sociais também estão presentes, pois o veneno que se espalha pela casa tem o efeito semelhante ao “sarin”, material utilizado no tenebroso atentado realizado no metrô de Tóquio, no Japão, em 1995.

Ao observamos mais detidamente as diálogos, o perfil dos personagens e o momento histórico em questão, é possível inferir que há em Jogos Mortais 2 uma relação tênue com o imaginário construído acerca das atrocidades realizadas em Guantánamo. Outra questão pertinente é a onipresença do escândalo envolvendo fotos que documentavam as torturas no complexo penitenciário de Abu Ghaib. Foram acontecimentos que marcaram a época e encontraram não apenas no filme, mas na mídia, de forma geral, uma maneira para debates, indagações e representações, mesmo que alegóricas, como proponho nesse feixe metafórico.

Como afirma Rejane Batista Vasconcelos, da Universidade Federal do Ceará, “na mídia a ficção e a realidade valsam ao som de gemidos de dor, de gritos de desespero, revolta e indignação”. Em sua tese Os mistérios de uma mercadoria singular: desvendando o caráter mercantil da violência, a pesquisadora analisa a banalização da violência da mídia e chega a citar vagamente alguns filmes, dentre eles, Jogos Mortais, um clássico da sanguinolência gráfica e da representação do imaginário social violento através da ficção.

Se o primeiro Jogos Mortais chegou como um frescor para o gênero, o segundo filme mostrou que a série era rentável e um amplo esquema de alargamento narrativo surgiria pela frente. Ao ter uma parceira com a força física necessária para ajustar as suas engenhocas, bem como constantes flashbacks responsáveis por desenterrar personagens do passado, tramas paralelas entre os filmes, dentre outros acontecimentos no mínimo absurdos, Jogos Mortais 3 já estava garantido desde o processo de finalização desta continuação. Sofisticado em alguns aspectos e explícito demais em outros, o terceiro filme da saga é tema do nosso próximo texto. Enquanto isso, caro leitor, lembre-se de um dos lemas de Jigsaw: “viver ou morrer, a escolha é sua”.

Jogos Mortais 2 (Saw II, Estados Unidos – 2005)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Darren Lynn Bousman e Leigh Whannel
Elenco: Allisson Kerry, Daniel Mathews, Danny Glover, Donnie Wahlberg, Jonas Singer, Laura Hunter, Shawnee Smith, Tobin Bell, Xavier Chavez
Duração: 93 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.