Crítica | Jogos Mortais 3

estrelas 3

Em uma trilogia, no capítulo final, tudo pode acontecer. Se fosse programado para ser uma trilogia, esse Jogos Mortais, assim como Pânico 3, seria o elo mais fraco: roteiro irregular, excesso de explicações e acontecimentos muito absurdos que conseguem complicar, ao invés de esclarecer e organizar o ambiente narrativo. Com o sucesso dos filmes anteriores, os envolvidos na produção estavam cientes do potencial da história em se tornar um espetáculo sanguinolento bastante rentável.

Em Jogos Mortais 3, Amanda (Shawnee Smith), a sobrevivente que considera Jigsaw o homem que teria “lhe mostrado o caminho”, agora é colaboradora do seu mentor (Tobin Bell, ator que já apresenta sinais de muito cansaço na interpretação do personagem). Ela sequestra a médica Lynn Denlon (a ótima Bahar Soomekh) para que ela cuide da saúde dele. O icônico personagem está numa estágio complicado do câncer e aparentemente morrerá muito em breve. Enquanto a médica trabalha pela sua sobrevivência, eles jogam com Jeff (Angus MacLadyen), no ápice da estética Playstation da franquia: a cada fase superada, Jeff precisa lidar com vítimas sendo testadas pelos jogos mortais.

No que diz respeito aos detalhes técnicos, a montagem frenética deixou a criatividade de lado para se apegar aos vícios: é uma narrativa bastante entrecortada. Há alguns bons momentos, como a armadilha “fria”, visualmente elegante e psicologicamente assustadora. Por falar em armadilhas, dessa vez, esses recursos que impõe o individuo “desviado” ao suplício tomam mais partes do corpo, deixando de ser apenas localizada. Se antes tínhamos as mortais arapucas que partiam mandíbulas ou perfuravam algum local específico do corpo, desta vez, elas estão geograficamente mais globalizadas no mapa corporal, imprimindo mais dor às mensagens moralistas da trupe de Jigsaw.

Durante a atuação da Inquisição, a tortura era um recurso utilizado para extrair confissões de acusados de pequenos delitos até crimes mais graves. Esse tribunal foi criado para perseguir os ditos hereges, pessoas que contrariavam os dogmas da Igreja, além dos mentirosos e adúlteros. Em Jogos Mortais, as pessoas que não apreciam a vida precisam colocar a sua sobrevivência à prova. Para isso, somos apresentados aos tradicionais espetáculos de tortura, comuns nos filmes anteriores.

A produção mais uma vez recorre ao período medieval para a reconstituição de algumas armadilhas, em sua maioria, adaptadas para o contexto atual com maior grau de destruição, máquinas de ostentação do suplício, uma sábia gramática da dor corporal, modulados segundo a gravidade do crime cometido.

O roteiro é um desperdício narrativo. Ao seguir uma espécie de “complexo de Scoob-Doo”, a cada surpresa, a produção intercala um flashback com cenas que enchem o espectador de mais pistas que confundem e atrapalham ainda mais a argumentação. Ao cavar histórias do passado, o roteiro abre espaço para o surgimento de mais filmes, mas também deflagram a falta de qualidade que demarcaria a série mais adiante, haja a vista personagens do passado que surgem para engrossar o caldo narrativo, algo que à propósito, torna-se uma estratégia sem sucesso. Há, inclusive, uma cena inusitada envolvendo um cérebro, tão absurda e estranha quanto o epílogo de Hannibal, o segundo episódio da saga do sedutor Dr. Lecter (Anthony Hopkins).

Ao longo dos seus 107 minutos (extenso, não é?), Jogos Mortais 3 ainda consegue ser interessante, mas se apresenta como o prenúncio do caos estabelecido na saga até o agonizante sétimo episódio. O sexto filme até consegue ser curioso e aborda um argumento interessante, mas a direção e as performances não ajudam, porém, isso é assunto para as nossas próximas incursões críticas. Se Jigsaw está morto, o que será do seu império do suplício? É o que vamos saber na análise de Jogos Mortais 4, nosso próximo passeio pela saga.

Jogos Mortais 3 (Saw III, Estados Unidos – 2006)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: James Wan e Leigh Whannell
Elenco: Angus Mcfadye, Barry Flatman, Bahar Soomekh, Costas Mandylor, Dina Meyer, Donnie Wahlberg, Mpho Koaho, Tobin Bell
Duração: 107 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.