Crítica | Jogos Mortais 4

estrelas 1

Através de uma observação sociológica, percebermos que no mundo contemporâneo, o terrorismo e o fatídico 11 de setembro não são acontecimentos banais. Essas tragédias relacionadas ao contato entre culturas distintas e disseminação de ideologias encontram no cinema o espaço ideal para o escoamento da realidade cada vez mais assustadora. Para a representação dos jogos sádicos, a busca pela Idade Média continuou nesse quarto filme da franquia de sucesso (nas bilheterias): os produtores investiram numa pesquisa histórica para falar de temas do presente.

As intenções podem até ser das melhores, mas o resultado não consegue sustentar a proposta inicial: Jogos Mortais 4 é arrastado, apelativo e pouco interessante. O filme começa com a autópsia de JigSaw (Tobin Bell, quase um zumbi). Durante o processo, o cirurgião encontra uma fita coberta de cera no estômago do mentor das armadilhas mortais. Ao tocar a fita, o Detetive Hoffman (Costas Mandylor) envolve-se na proposta de jogo que se estabelece, e o espectador torna-se ciente que um novo império de armadilhas mortais está por vir. Com Jigsaw morto, é a vez do roteiro investir na escavação de situações em flashback para garantir o avanço da franquia.

Em termos estéticos, Jogos Mortais 4 segue (mal) a cartilha dos filmes anteriores. A montagem ainda continua por conta de Kevin Greutert, profissional responsável por tentar, sem sucesso, organizar a bagunça que é o roteiro desta sequência. Há muitas cenas reaproveitadas das produções anteriores, quase nenhuma novidade, sequer armadilhas mais ousadas: o carro chefe do filme é o apelo sanguinário que não funciona mais. A iluminação de Richard Berube e a direção de arte de David Hackl são interessantes, mas não conseguem salvar os estilhaços de uma história mal contada.

Há também mudança no estilo: o horror abre espaço para a narrativa policialesca barata, parecida com os telefilmes exibidos nas nostálgicas noites de sábado, através do clássico Supercine. Ainda na seara do estilo, a produção dialoga com o splatter, subgênero do terror que se concentra em representações gráficas de sangue e violência. O termo, cunhado por George Romero, diretor do obrigatório A Noite dos Mortos Vivos, tende a apresentar interesse na vulnerabilidade do corpo humano e a teatralizar a sua mutilação.

O maior problema de Jogos Mortais 4 nem é a sua estética viciada. O roteiro consegue ser mais vilão que o próprio Jigsaw. Tudo é explicado nos mínimos detalhes. Esse é um recurso presente desde o segundo filme, mas que ganha amplitude a partir do quarto episódio. O surgimento da máscara de porco é explicado, o que garante uma média de cinco minutos adicionais para a história que se arrasta e oferece vários corpos para tortura, amontoados à serviço da narratividade: vítimas intercaladas entre acontecimentos dos filmes anteriores, bem como objetos em cena surgem em perspectiva memorialística, como se estivessem sendo teorizados pormenorizadamente, e assim, garantem mais informações (pseudo) valiosas e tramas paralelas que fornecem a base para as futuras continuações.

Apesar do aspecto desleixado do quarto filme, a franquia conseguiu se consolidar na época e garantir um desempenho satisfatório nas bilheterias. Resultado? Filmes cada vez mais absurdos de tão ruins. Lançado no Brasil dia 26 de outubro de 2007, Jogos Mortais 4 tornou-se, desde o segundo filme, um acontecimento anual, assim como a cerimônia do Oscar, o Globo de Ouro, o Carnaval e o Halloween. Um crítico até brincou na época da estreia, ao dizer que cada acontecimento da sua vida parecia estar ligado aos lançamentos da série.

Numa ótica paródica de previsão, ele até tinha razão: “entrei na faculdade no ano de Jogos Mortais 3, me formei em Jogos Mortais 7, casei em Jogos Mortais 11 e passei no doutorado em Jogos Mortais 16”. A brincadeira não foi exatamente assim, nem a série sobreviveu tanto, sendo apropriada em meu texto para ilustrar, ao lado da análise, o caráter receptivo dos agonizantes filmes da saga de Jigsaw: produções que perderam o rumo no meio do caminho, mas que continuaram guerreiras até o sétimo e último (?) suspiro.

Jogos Mortais 4 (Saw IV) –  Estados Unidos, 2007
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Patrick Melton, Marcus Dunstan e Thomas H. Fenton.
Elenco: Athenas Karkani, Betsy Russell, Costas Mandylor, Dina Meyer, Emmanuelle Vaugier, Kim Roberts, Marty Adams, Scott Patterson, Simon Reynolds, Tobin Bell.
Duração: 96 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.