Crítica | Jogos Mortais 5

estrelas 1

O cinema tem o poder de fazer sentido as suas audiências e atender a determinados anseios sociais, bem como as necessidades psicológicas da coletividade. Essa afirmação, presente no livro O cinema como fonte para a história, de Deminson Oliveira, coaduna com a proposta da série Jogos Mortais. A mídia cotidianamente banaliza a violência, sobretudo nos grandes centros urbanos, o que tornou a coisa rotineira.

A espetacularização da violência e a guerra dos programas televisivos pela audiência fez a ficção se misturar com a realidade. A questão da exploração deste segmento pela mídia surge como resposta ao público sedento por elementos trágicos cotidianos, e assim, servem para satisfazer a morbidez dos já acostumados aos mais hediondos espetáculos protagonizados pela humanidade. Logo, o cinema torna-se um caminho para o escoamento dessa necessidade secular de violência por parte dos homens em conflitos cada vez mais constantes.

A violência banalizada é a palavra-chave para definir Jogos Mortais 5. Neste quinto episódio, a direção ficou por conta de David Hackel, responsável pelo design de produção dos anteriores. Desta vez, Mark Hoffman (Costas Mandylor) é aparentemente o último seguidor do legado de Jigsaw (Tobin Bell, em flashback). As coisas tornam-se complicadas quando o seu segredo é ameaçado e ele precisa iniciar uma caçada para eliminar todos os possíveis envolvidos em sua trajetória sangrenta. Ao começar exatamente no término da quarta parte, o filme nos mostra o agente Strahm (Scott Patterson) na caçada para incriminar Hoffman.

Confuso, exagerado e com aspecto de telefilme ruim, Jogos Mortais 5 deixa o bom senso de lado para investir numa trama de perseguição policial com direito a uma trilha de corpos pelo caminho. No quesito linguagem, o filme se iguala ao anterior. Montagem, mixagem de som, direção de arte, dentre outros aspectos formais continuam no mesmo tom.

Jogos Mortais 5 possui o mesmo tom policialesco e consegue ser mais caricatural que o seu antecessor. O roteiro, assinado por Marcus Dunstan e Patrick Melton, apresenta furos, personagens cada vez mais rasos, aposta nos sustos fáceis e na banalização do sangue, além de continuar o processo de esvaziamento narrativo: a cada etapa da missão de um torturado, a trama recicla cenas de filmes anteriores e insere situações entre acontecimentos pontuais dos cinco filmes, alargando as possibilidades de mais continuações. Bom para a continuidade da franquia, mas ruim para o desenvolvimento narrativo: os filmes ficam ainda mais confusos e absurdos, sem a verossimilhança que faz o espectador tremer de medo só de pensar nas situações horripilantes dos primeiros jogos de Jigsaw, iniciados em 2004.

As armadilhas medievais da vez envolvem um pêndulo, uma caixa com água, o teste de recrutamento de Hoffman (algo parecido com Sexta-Feira 13 – Parte 5, ao apostar em um novo mentor de jogos mortíferos), os colares da morte, um curto circuito, a mesa do sacrifício e uma sufocante caixa de vidro. Há algumas mudanças nas armadilhas, mais inventivas, porém o clima de banalização da violência não deixa espaço para purgarmos pelas vítimas.

Aos leitores, pedirei licença, mais uma vez, para utilizar a franquia Pânico com o intuito de dar o arremate final desta quinta reflexão sobre os filmes da série Jogos Mortais. Em Pânico 4, duas personagens da abertura dialogam sobre os rumos de Facada (Stab), adaptação dos assassinatos “reais” ocorridos em Woodsboro. Durante a conversa, ambas discutem a natureza perversa desse processo de adaptação dos crimes que envolvem o psicológico de uma pessoa que tenta erguer a sua vida, além de tocarem em um importante ponto de ligação com a reflexão exposta neste texto: o quinto capítulo das sagas.

A discussão sobre a perda de certos valores e a postura “descarada” dos estúdios em investirem na trajetória sofrida de alguém não é nada menos que metalinguagem das boas, sendo o cinema um veículo para discussão da representação da violência na mídia, haja a vista os telejornais que espremem sangue diante dos internautas e telespectadores. Nesse mesmo diálogo, uma das garotas aponta o filme Facada 5 como o pior episódio da saga, o que nos remete ao filme Jogos Mortais 5: seria o quinto filme uma espécie de maldição para as franquias de terror?

Se pensarmos na série Sexta-Feira 13, sim. A saga do invencível Jason possui onze episódios, além da participação do personagem no duelo Freddy vs. Jason e no reboot homônimo (o filme condensa os quatro primeiros episódios da série) lançado em 2009. Sexta-Feira 13 Parte 5 – Um Novo Começo, exibido nos cinemas em 1985, foi o pior em bilheteria e crítica, pois tentou renovar a série e investir em um novo assassino, o que não emplacou.

O quinto episódio das sagas A Hora do Pesadelo e Halloween também são muito ruins, pois demonstram alguns dos piores momentos dos psicopatas Freddy e Michael Myers. Jogos Mortais 5 também faz parte desta regra: quinto episódio, pior momento da série. Foi preciso o sexto filme, também irregular, mas com uma aposta mais ousada que os seus dois últimos antecessores, para as artimanhas dos discípulos de Jigsaw se tornarem um pouco interessantes, entretanto, isso é abordagem do penúltimo capítulo da franquia, com texto a ser veiculado em breve.

Jogos Mortais 5 (Saw V, Estados Unidos – 2005)
Direção: David Hackl
Roteiro: Patrick Melton, Marcus Dunstan
Elenco: Allisson Kerry, Daniel Mathews, Danny Glover, Donnie Wahlberg, Jonas Singer, Laura Hunter, Shawnee Smith, Tobin Bell, Xavier Chavez.
Duração: 93 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.