Crítica | Jogos Mortais 6

estrelas 3

Com base nos dois últimos antecessores, Jogos Mortais 6 tinha tudo para ser ainda pior. Apesar de ficar devendo muito aos três filmes iniciais, esta sequência consegue ser mais interessante, principalmente por tentar esboçar uma crítica social acerca de um tema bastante polêmico no contexto contemporâneo: o sistema de saúde da população estadunidense.

Em time que está ganhando (financeiramente) não se mexe. Essa máxima ganhou espaço na equipe de produção de Jogos Mortais. A direção ficou por conta do montador Kevin Greutert, já sintonizado com o clima da série. O roteiro, assinado pela dupla Patrick Melton e Marcus Dunstan (responsáveis por Jogos Mortais 4 e 5), investe em mais escavações na história central de um homem com câncer que decide mostrar as pessoas o real valor de uma vida plena. Desta vez, o jogo manipula o vice-presidente da Umbrella Health, William Easton (Peter Auterbridge), um empresário corrupto de planos de saúde que deixa os seus pacientes morrerem para a empresa lucrar mais.

Ao começar exatamente onde o quinto filme parou, a produção nos apresenta Hoffman (Costas Mandylor) como o sucessor de Jigsaw (Tobin Bell, em flashback). Vencedor no jogo que determinou o fim da vida do agente Stranh (Scott Patterson), Hoffman consegue desviar, momentaneamente, a atenção da polícia, e assim, ministra o doentio passatempo mortal com o empresário da Umbrella Health, numa contagem de corpos sem precedentes na série.

O jogo envolvendo William Easton envolve um quadro com quatro testes e durante 60 minutos ele precisará pagar por ter sido o representante da agência que negou o seguro de saúde ao mentor do suplício conhecido como Jigsaw. Entre os envolvidos, temos os seus subordinados, considerados cúmplices das suas falcatruas, em jogos que forçam o empresário a determinar quem deve morrer ou viver: o funcionário imigrante jovem ou a mãe de família que precisa continuar a criar os seus filhos? “Viver ou morrer, a escolha é sua”. O lema, entretanto, não envolve a vida de William, mas das pessoas que estão sendo punidas diante do chefe, tendo as suas vidas balizadas antes da decisão final que sempre define a salvação de um, em detrimento do outro.

Ao longo dos seus 90 minutos de duração, Jogos Mortais 6 segue um padrão mais tradicional do uso de câmeras, com os pontuais flashbacks, mas sem os excessos da Estética Playstation das sequências anteriores. Trilha sonora, montagem e direção de arte não mostram nenhuma inovação, apenas o mais do mesmo. A ideia de um personagem superando fases para o desfecho continua mais evidente, reforçando o caráter “jogo” da narrativa.

O tom policialesco se mantém, mas há um revestimento do gênero horror, o que deixa a narrativa híbrida. A hipocrisia é outro aspecto absurdo e fio condutor do enredo, não muito diferente dos filmes anteriores. Um homem que fumou muito, ou seja, não deu valor à plenitude de uma vida saudável, precisa pagar por isso e é colocado num jogo que envolve a capacidade de respiração, juntamente com William, um homem aparentemente mais resistente. Aos envolvidos, o meu voto de indignação: por favor, contem outra piada hipócrita!

Na seara da crítica contextual, Jogos Mortais 6 utiliza o sistema de saúde estadunidense como ponto nevrálgico da história. Apesar de funcionar na base do esboço, repleto de uma pretensiosa ancoragem política que talvez legitimasse o filme como crítica contundente ao contexto contemporâneo, a produção falha pelo didatismo da crítica, mas consegue ser mais interessante que os seus dois últimos antecessores, principalmente no que tange aos aspectos do desenvolvimento dos personagens. Na mesma época, Arraste-me para o Inferno, de Sam Raimi, discutiu um ponto semelhante, porém de maneira mais divertida e inovadora.

Ainda no âmbito contextual, não há como não citar Sicko – SOS Saúde, documentário orquestrado pelo mago da crítica social Michael Moore. No filme, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2008, o cineasta nos apresenta um panorama de reportagens e entrevistas que condenam as seguradoras de saúde e as companhias farmacêuticas, pois denuncia um possível acordo entre estes segmentos para manipular o “capital” que envolve uma indústria por detrás da saúde da população. Há milhões de pessoas nos Estados Unidos que não tem plano de saúde, e assim, quando ficam muito doentes, precisam vender o carro ou hipotecar a casa para conseguir pagar as contas do hospital.

Os gastos com saúde anuais giram em torno dos 17,9% da economia do país, ou seja, praticamente um quinto do PIB, de acordo com dados do governo. Em suma, algo grandioso para um país muito preocupado com investimentos na indústria bélica. Em 23 de março de 2010, a lei “Affordable Care Act” foi promulgada, com o objetivo de expandir a assistência do governo à população estadunidense, mas não tivemos (graças a todas as entidades divinas) as sequências Jogos Mortais 9 ou 10 para uma possível discussão.

Os planos de saúde estabelecem um limite específico de despesas anuais, por isso, sentem-se no direito de recusar a estabelecer um seguro de saúde para pacientes com histórico de doença crônica ou pré-existente. É o que ocorre com John Kramer, o nome social de Jigsaw, ao procurar a Umbrella Health para colaboração em um investimento que envolve pesquisas, porém, com muitos gastos, para o desenvolvimento menos impactante ou a possível cura da sua doença.

No entanto, diferente do documentário de Michael Moore, Jogos Mortais 6 prefere deixar a crítica apenas como pano de fundo, tendo em mira o sadismo das armadilhas que estraçalham corpos e conduzem os seus “pecadores” aos mais dolorosos testes. Lançado em 23 de outubro de 2009 aqui no Brasil, a produção não agradou aos críticos do nosso campo de reflexão, pois as críticas nacionais ao filme beiraram ao negativismo absoluto, mas conseguiu a bilheteria suficiente para garantir outra continuação, desta vez, em 3D. Entretanto, isso é assunto para o nosso desfecho da franquia, a ser lançado em breve aqui no Plano Crítico.

Jogos Mortais 6 (Saw VI, Estados Unidos – 2009)
Direção: Kevin Greutert
Roteiro: Marcus Dunstan e Patrick Melton.
Elenco: Athena Karkanis, Betsy Russell, Costas Mandylor, Mark Rolston, Peter Auterbridge, Scott Patterson, Tobin Bell.
Duração: 90 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.