Crítica | Jogos Mortais 7 – O Final

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O interesse em desenvolver uma sequência de análises sobre a franquia Jogos Mortais surgiu após a recente notícia sobre o interesse dos produtores em realizar um oitavo filme. “Será que há fôlego para mais uma continuação?”. A questão foi sanada uma semana depois, após a maratona que envolveu pipoca, paciência e muitos risos, tamanho o grau de comicidade que o percurso sanguinolento de Jigsaw (Tobin Bell) é traçado após o terceiro episódio, lançado em 2006.

O horror cinematográfico é um gênero que há tempos suscita interesse em diferentes perspectivas, dentre as quais, as representações sociopolíticas, além da questão de gênero, bem frequente em filmes sobre psicopatas. Em A filosofia do horror e os paradoxos do coração, o ensaísta Noel Carrol alegou que a narrativa de horror depende um elemento para funcionar: o monstro. Esse personagem monstruoso pode ser um vampiro, demônio ou o próprio homem, pois o que o define é a apresentação das seguintes características: ser desprezível e perigoso para a sociedade.

Jigsaw sempre se mostrou na linha tênue do maniqueísmo que o definiu ao longo de sete filmes: por um lado, dizimava as injustiças ao castigar pessoas “podres” do sistema de relações humanas da sociedade, mas agia como um “deus” punitivo moralista e afugentava aqueles que acreditam nos direitos humanos, abrindo, por sinal, uma discussão bastante atual sobre a polêmica questão da maioridade penal, da pena de morte, dentre tantos outros temas que gravitam em torno do sistema judiciário em todo o mundo.

A atração que os filmes de terror exercem no público provém de uma curiosidade natural do homem. A experimentação do medo através da segurança como espectador é o que move muitas pessoas em direção aos filmes adornados por perversidade, assassinos em série e mortes sangrentas. É como uma montanha-russa. Há o frio na barriga da aventura e a esperança (e a quase certeza) de que tudo vai ficar bem no final. Em Jogos Mortais, essa discussão começa bem, mas cede espaço para a violência gratuita e um festival de personagens rasos e motivos bobos.

Para o sétimo filme, o montador Kevin Greutert assumiu mais uma vez a direção, tendo em mira o roteiro da dupla Patrick Melton e Marcus Dunstan, ambos com o complexo de Fellini em 8 ½ : falta criatividade, personagens interessantes, um enredo que envolva o espectador e muito, mas muito bom senso. Se no clássico italiano as coisas se resolvem, não podemos dizer o mesmo do sétimo filme desta série: Jogos Mortais 7 é o pior episódio da “saga mortal”, bem como é, sem sombra de dúvidas, um dos piores filmes policiais/terror da história do cinema recente e de qualquer época que venha a ser comparado.

O roteiro investe mais uma vez nos flashbacks e no recurso “arqueológico” para conseguir extrair um esquema narrativo: desta vez, o filme começa exatamente onde terminou o primeiro. Após serrar parte da sua perna e escapar das correntes, o Dr. Gordon rasteja em busca de uma saída, mas antes, cauteriza o seu joelho em um cano flamejante, encontrado nos corredores do estranho local onde esteve em cárcere. Um corte seco nos traz para o tempo presente, com uma cena que busca inovar na série: o suplício em dose tripla.

Três personagens são testados dentro de uma cabine, com direito a um enorme público acompanhando de perto a chacina. Se antes nós, espectadores, éramos o público exclusivo das armadilhas, neste sétimo filme da série há outras pessoas observando com curiosidade a cena, numa espécie de crítica social (fajuta) à espetacularização da violência na mídia, pois os indivíduos parecem mais preocupados em filmar e fotografar a cena ao ajudar os “pecadores” testados em mais uma sanguinária armadilha.

A verossimilhança que fez muita gente se arrepiar com os primeiros filmes é deixada de lado, tudo em prol do esquema de exageros que envolvem os personagens há tempos. Temos mais um corte, desta vez, para Bobby, um escritor que lança o seu primeiro livro, explorando a sua experiência de ter escapado das armadilhas de Jigsaw. Ele reúne um grupo de sobreviventes para a gravação de um programa com depoimentos das experiências, mas vai precisar pagar pelo que está fazendo, haja vista que é um charlatão e nunca foi vítima das armadilhas mortais.

Como nas produções anteriores, vai passar pelas demais fases de jogo: o foco é salvar a sua esposa, na fase final, mas antes, vai precisar derramar muito sangue (principalmente alheio) para continuar vivo. Em paralelo, temos Hoffman (Costas Mandylor), o homem que acreditamos ser o único a seguir o legado de Jigsaw. Ele foi vítima de uma armadilha criada pela esposa de Jigsaw (Betsy Russell). Disperso, passa o filme todo em busca de vingança.

Diante de toda a confusão do roteiro, Hoffman consegue dar fim na viúva de Jigsaw, mas depois é atacado por Dr. Gordon, um homem que descobrimos, ao final do processo, ser outro seguidor do legado mortal, numa espécie de surpresa final que mais esfria do que surpreende. Se Jogos Mortais 7 estava ruim até esta revelação, consegue terminar ainda pior. Descobrimos que ao rastejar e cauterizar o seu joelho, Dr. Gordon foi encontrado por Jigsaw, homem que o convenceu a ajudá-lo na construção das armadilhas.

Se por um lado tudo soa absurdo, chega a ser conveniente compreender que Jigsaw recebeu ajuda de um profissional para no decorrer dos filmes, colocar chaves em partes internas do corpo humano, dentre outras coisas que um profissional da medicina pode fazer muito bem.

Ao longo dos sete filmes são utilizadas aproximadamente cinquenta armadilhas. Com 90 minutos de duração, Jogos Mortais 7 foi lançado no Brasil em 2010. Em termo de custos essa foi a continuação mais cara, pois utilizou o recurso de exibição em 3D, uma modinha que ressurgiu entre 2009 e 2010 e tornou-se uma febre na indústria cinematográfica. O sangue cor de rosa e os corpos emborrachados, entretanto, mostraram que o recurso atrapalhou mais que ajudou: uma piada ruim para um filme que revitalizou o gênero terror em 2005.

Ao escrever sobre A Centopeia Humana 2, o crítico de cinema estadunidense Roger Ebert disse que o filme era tão ruim que não poderia fazer parte de um panorama estrelado. Classificar uma produção com uma “estrela” significa julgar tal filme como muito ruim. Jogos Mortais 7, entretanto, nem é digno dessa alcunha: não há ausência de estrelas que o caracterize. Se pudéssemos definir este final de franquia com apenas uma palavra, esta seria sem dúvida “desperdício”: de tempo, de dinheiro e de um personagem que tinha tudo para ter a sua trajetória bem encerrada.

Jogos Mortais 7 (Saw VII, Estados Unidos – 2010)
Direção: Kevin Greutert
Roteiro: Marcus Dunstan e Patrick Melton.
Elenco: Betsy Russell, Costas Mandylor, Cary Elwes, Dean Amstrong, Gabby West, Naomi Snieckus, Sean Patrick Flanery, Rebecca Marshall, Tobin Bell.
Duração: 90 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.