Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança – O Final

estrelas 4

Francis Lawrence conseguiu. Apesar de ter sido basicamente forçado a dividir o terceiro livro da saga Jogos Vorazes de Suzanne Collins em dois longas, com a primeira parte sofrendo no processo, A Esperança – O Final (preciso mesmo dizer o quão idiota foi a escolha desse título em português?) finalmente faz o Tordo alçar voo e alcançar alturas inéditas até agora.

Começando exatamente do ponto onde o filme anterior parou, marca registrada da franquia e característica muito bem vinda para evitar perda de tempo com recapitulações que são todas elas bem inseridas em diálogos brevemente expositivos no roteiro de Peter Craig e Danny Strong, com base em adaptação feita pela própria Suzanne Collins, vemos Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) lidando com sua conclusão de que a lavagem cerebral feita em Peeta Melark (Josh Hutcherson) é irreversível. Com raiva e desesperançosa, Katniss, contra ordens expressas de Alma Coin (Julianne Moore), parte em missão suicida para assassinar o presidente Snow (Donald Sutherland), o que acaba sendo usado por Coin e também por Snow para seus respectivos propósitos.

O grande trunfo dessa parte final é trazer fortemente de volta a guerra psicológica, de propaganda, com cada lado do conflito manipulando e usando as informações ao seu bel-prazer. Claro que esse artifício tão presente na trilogia de livros de Collins já havia sido usado nos filmes anteriores, mas, aqui, os contornos são mais claros e mais contundentes. A guerra nas trincheiras é detalhe, como são todas as guerras e os dirigentes e seus interesses escusos comandam o “show” com a manipulação da informação de um lado a outro, diante de um público que acompanha tudo e se deixa levar pelas aparências. A crítica ferina à sociedade da informação sem rumo que lidamos dia após dia faz-se mais presente no último filme e funciona perfeitamente como elemento coesivo da trama.

Aliás, sobre a trama, é particularmente gratificante ver que Francis Lawrence, novamente, não se deixou levar pelo “quanto mais melhor”. No lugar de um festival de sequências de ação ininterruptas, uma maior do que a outra, o diretor nos apresenta a um longa cadenciado que sim, tem ação, mas não depende dela para a fluência da narrativa. Se pararmos para pensar, só há um momento frenético bem no estilo hollywoodiano em toda a obra, quando os bestantes atacam o  grupo nos esgotos da Capital, sequência essa dirigida com olhar clínico por Lawrence que, com o trabalho de montagem de Alan Edward Bell e Mark Yoshikawa, é tremida, rápida, violenta, excitante, mas sem perder de vista os personagens e a humanidade de suas ações. Michael Bay aprenderia muito assistindo a esse trabalho.

Além disso, o diretor não tenta deslumbrar com imagens limpas, bonitas e arrumadas. A fotografia soturna e a paleta de cores acinzentada sem filtros de Jo Willems (que trabalha na série desde Em Chamas) que ele introduziu mais fortemente no filme anterior continua e é acentuada na parte final, marcando o agravamento da guerra e das condições dos diversos Distritos. Com isso, o sentimento fatalista impregna toda a fita, deixando evidente a mensagem anti-belicista da narrativa de Collins.

Vale um comentário aqui sobre a composição da sequência da execução, pois o diretor parece trabalhar em parceria com Willems de maneira a emular Leni Riefensthal em O Triunfo da Vontade, com todo o significado pesado e perfeitamente dentro do conceito do filme que isso carrega. Há a monumentalidade da fotografia em plano aberto, as estruturas altas, sólidas e geométricas populando o redor, o perfeito enquadramento da ação, dividida em quadrantes milimetricamente simétricos e, claro, os uniformes de todos os oficiais presentes. Esse é, sem dúvida, um momento para ser contemplado.

Jennifer Lawrence continua precisa em seu complicado papel de heroína relutante, manobrada por tudo e por todos, mas ela encontra em Josh Hutcherson, finalmente mostrando a que veio, sua concorrência direta. O ator, vivendo o sofrido e perturbado Peeta Melark, rouba as cenas em que aparece, mesmo quando contracena com Lawrence, emprestando a gravidade necessária ao personagem que é chave no desenvolvimento do roteiro.

Mesmo com duração superior à Parte Um, o roteiro não consegue, porém, abrir espaço para os demais personagens, com cada um ganhando espaço não muito superior ao de pontas de luxo. Até mesmo Liam Hemsworth, vivendo Gale, o eterno vértice menos interessante do triângulo amoroso formado por ele, Peeta e Katniss e que ganhara destaque no filme anterior, perde espaço completamente aqui. Mas o elenco é significativo e o trabalho do diretor foi compreensivelmente complexo e ele preferiu focar nos pontos nevrálgicos: a relação Katniss-Peeta e o jogo de desinformação. Funcionou, mas deixa a sensação de algumas oportunidades desperdiçadas, como os personagnes de Julianne Moore e Donald Sutherland, dois grandes atores claramente divertindo-se em seus respectivos papeis, mas sem ter espaço suficiente para mastigar os cenários com sua senioridade. O saudoso Philip Seymour Hoffman, falecido durante as filmagens, está também presente, neste seu último papel, com algumas inserções digitais de sua efígie, mas que não atrapalham o desenrolar da história nem a imersão do público.

Ainda sobre o roteiro, há que deixar muito claro que o trabalho de Craig e Strong é exemplar ao não se esquivar de adaptar o material fonte com respeito, sem desviar-se de momentos particularmente desagradáveis apenas para atender à necessidades comerciais. Com isso, a lição da obra de Collins permanece intacta.

Outro elemento que ajuda no foco que esse filme tem é a trilha sonora de James Newton Howard que, apesar de não trazer nenhuma composição particularmente significativa, tem seu trabalho precisamente sincronizado na película, evitando a manobra dos sentimentos do espectador. Muito ao contrário, Francis Lawrence usa a música instrumental para amplificar a tensão nos momentos corretos, sem telegrafar demais o que vem pela frente.

Os efeitos especiais também evoluíram, algo natural para uma franquia cinematográfica que começou sem muita certeza de seu sucesso e que gradativamente ganhou orçamentos cada vez mais polpudos. Comparar as criaturas em computação gráfica nessa última parte com as que vemos ao final do filme original é mais do que o suficiente para evidenciar a evolução nesse quesito. Mas o mesmo vale para a construção digital da Capital, que perdeu o ar de Star Trek e  ganhou veracidade e a sensação de “espaço vivido” que tanto faltava em suas versões anteriores.

No entanto, assim como na Parte Um, ainda que em menor escala, é possível sentir o peso da divisão do terceiro livro em dois longas de mais de duas horas cada. Ainda que Katniss e sua equipe sejam jogadas no meio do fogo muito rapidamente e a ação se desenrole eficientemente até o clímax explosivo, fato é que os vários falsos finais, que estendem o dénouement exageradamente, quebram o ritmo da história contada. A necessidade de se agradar à legião de fieis leitores e a vontade de se fazer uma fita claramente mais épica, retirou um pouco da liberdade dos roteiristas, que transpuseram literalmente cada momento posterior ao efetivo encerramento da narrativa como se uma obra literária fosse.

Infelizmente, nem sempre o que funciona em um livro funciona em uma obra cinematográfica e as claudicantes e longas sequências pós-clímax são muito mais fan service do que algo realmente necessário dessa maneira. De certa forma, isto já era esperado e somente prova que era perfeitamente possível fazer um filme só. No entanto, justiça seja feita: a produção consegue ser eficiente o suficiente até mostrar fadiga que, por sua vez, com boa vontade, é perfeitamente possível glosar como um mal necessário e deixar por isso mesmo.

A tri(tetra)logia Jogos Vorazes acaba com chave de ouro e sobe o nível de exigência para franquias do gênero. Um feito raro em uma época em que bobagens proliferam em Hollywood.

Jogos Vorazes: A Esperança – O Final (The Hunger Games: Mockingjay – Part 2, EUA – 2015)
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Peter Craig, Danny Strong (baseado em romance e em adaptação para cinema de Suzanne Collins)
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Julianne Moore, Willow Shields, Sam Claflin, Elizabeth Banks, Mahershala Ali, Jena Malone, Jeffrey Wright, Paula Malcomson, Stanley Tucci, Elden Henson, Wes Chatham, Natalie Dormer, Patina Miller, Michelle Forbes
Duração: 137 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.