Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (Trilha Sonora Original)

estrelas 2,5

Trilhas sonoras de filmes teen costumam ser as grandes surpresas em relação a esse tipo de filme. Desde a década de 80 já se escutava uma boa trilha para esse estilo, como Don’t You Forget About Me no excelente Clube dos Cinco. De volta aos anos 2000, foram surgindo alguns High School Music e outras operações da Disney que, sinceramente, apesar de soarem imbecis para a maioria, algumas (poucas) possuem mais conteúdo musical que metade do mercado pop atual. Entretanto, os filmes teen do momento passaram a ser as adaptações de livros, como Harry Potter, Crepúsculo e, o mais recente, Jogos Vorazes.

A trilha sonora de Jogos Vorazes: A Esperança segue na mesma linha que as trilhas recentes dos filmes direcionados para o mesmo público. Se baseia no que grande parte dos jovens atuais consomem: música indie, eletrônica e electropop. O apelo adolescente é tanto que a trilha conta com a gerência de Lorde, a cantora indie mais falada do momento.

A trilha vai se revezendo entre faixas fracas, medianas e boas. Algumas sabem pegar o melhor do pop eletrônico, como o synthpop da excelente Dead Air dos escoceses do Chvrches (te desafio a pronunciar isso) com uma letra totalmente ligada ao tema do filme. A sequência Scream My Name de Tove Lo e Kingdom de Charli XCX também sabe se sair bem, ainda que tendenciosas, as interpretações e vozes dos respectivos artistas se destacam, principalmente a voz inesperada de Simon Le Bon na segunda.

O erro da trilha é tentar agradar demais o mercado. All My Love, parceria entre o projeto Major Lazer e a cantora Ariana Grande, não possui nada em comum com o ar do filme. O beat eletrônico irritante da canção é quase como um déjà vu de tão batida e usada. Pega o pop barato de cantoras como Rihanna e Beyoncé, ainda que Ariana precise comer bastante feijão pra chegar na potência vocal da segunda. Lorde aparece em diversas faixas, como na confusa abertura do álbum de Meltdown com participação de quase um time de futebol: a cantora, Stromae,  Pusha T, Q-TipHaim. Mesmo com um refrão satisfatório, não se consegue tirar muito proveito da canção já que a participação de cada um parece perdida (a excelente Haim, por exemplo, parece descartável na faixa). Lorde passa vergonha na monótona Yellow Flicker Beat com seu péssimo timbre sussurrante, enquanto Kanye West faz um milagre e salva a cantora com o bom trabalho na roupagem feita em Flicker.

A trilha possui seu momento de amadurecimento quando aparece This Is Not A Game dos heróis da música eletrônica, Chemical Brothers, com a participação do cantor Miguel Pimentel. Uma espécie de house que pega o velho estilo da dupla e novos estilos, lembrando o Skrillex quando sabia fazer música. Pega influências do electropop sabendo usá-las muito bem, com um tom eletrônico pesado e dando ênfase na mensagem do filme: “Isso não é um jogo“. Entretanto, a qualidade volta a cair quando Lorde aparece pra fechar o álbum com Ladder Song, que nada mais é do que uma evolução de seu hit Royals, visto que a canção é isenta de arranjo e só se sustenta pela ótima letra.

Por fim, a trilha de Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 tenta absorver o que o mercado indie vem trazendo, mas tropeça se inspirando em péssimos artistas. Se o time de artistas também não te agradou, culpe Lorde, que reuniu e administrou todos eles. No quesito “trilha sonora indie” uma outra franquia de livros e filmes chamada Crepúsculo parece saber lidar muito melhor e buscar artistas muito mais maduros, ainda que no quesito cinematográfico o resultado seja inverso.

The Hunger Games: Mockingjay, Pt 1 (Original Motion Picture Soundtrack)
Artistas: Lorde, Stromae, Pusha T, Q-Tip, Haim, Chvrches, Tove Lo, Charli XCX, Major Lazer, Raury, Tinashé, Bat For Lashes, Kanye West, Ariana Grande, Grace Jones, XOV, Miguel, The Chemical Brothers.
País: Estados Unidos
Lançamento: 17 de novembro de 2014
Gravadora: Republic
Estilo: Pop, Indie, Eletrônico

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.