Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

estrelas 3

Obs: Crítica originalmente publicada em 19 de novembro de 2014.

A primeira parte do terceiro capítulo da saga de Katniss Everdeen tinha enorme potencial. Afinal, o livro que deu base a ele é inclemente ao tratar da guerra e de suas consequências, com um fechamento digno para a garota em chamas.

E o trabalho de Francis Lawrence, que retorna para a direção depois de Em Chamas, consegue transpor muito bem a sobriedade da obra como imaginada por Suzanne Collins, que ajudou na capacidade de consultora na elaboração do roteiro. Seria de se esperar que a segunda continuação de um filme que fez muito mais sucesso do que o esperado fosse cheio do que Hollywood mais gosta de fazer, ou seja, exageros pirotécnicos para justificar o orçamento mais alto e para pacificar os anseios de quem acha que mais é sempre melhor. Mas não é isso que vemos no filme. Lawrence não deixa nada polido, nada bonito, nada arrumado.

Sua  paleta de cores é triste, com muito cinza, azul e marrom, além de alguns toques de preto, com breves momentos com planos mais abertos da natureza verdejante que apenas dão um vislumbre do título em português simbolizado pelo Tordo ou, mais precisamente, Katniss. Com a ação fundamentalmente se passando no quartel general subterrâneo da rebelião, no devastado Distrito 13, o que temos é escuridão e mesmo a beleza de Jennifer Lawrence como Katniss é escondida, tornada muda pelas exigências de um história pesada como deveria ser.

Essa completa mudança de tom em relação a Jogos Vorazes e a Em Chamas  mostra a coragem da produção em fazer algo diferente, que não necessariamente agradará a todos (ainda que seja o que o livro exige). Por isso mesmo, há que no mínimo se respeitar o que a LionsGate conseguiu colocar nas telas.

Julianne Moore foi escalada como a presidente Alma Coin, comandante da rebelião e, usando lentes de contato e um cabelo escorrido, além de roupas mudas e um tom de voz monocórdio, ela mais parece uma vampira, fazendo jus à sua condição de líder espartana de seres humanos que vivem como toupeiras debaixo da terra, mas acrescentando uma camada sinistra muito discreta. Ela recruta Katniss, sobrevivente de duas edições dos Jogos Vorazes, para encarnar o Tordo (o mockingjay do título em inglês), o símbolo da rebelião e a menina precisa fazer o máximo para incitar coragem no coração dos diversos distritos que formam Panem, dominado pela Capital comandada pelo maligno presidente Snow (Donald Sutherland, divertindo-se como nunca).

É também um grande prazer ver o brilhante e saudoso Philip Seymour Hoffman em sua penúltima aparição nas telonas (a última vez será ano que vem, na Parte 2), revivendo seu ótimo Plutarch Heavensbee. Há um ar de melancolia na atuação dele nessa fita, mas não sei se foram os olhos desse crítico que só conseguiam ver o grande ator que a Sétima Arte perdeu há tão pouco tempo.

Além disso, Jennifer Lawrence tem atuação comedida sempre e explosiva quando precisa ser, sem se sobressair exageradamente, em outra demonstração de que a produção soube se guiar pelo espírito do trabalho de Suzanne Collins. Afinal, Katniss é uma menina (o momento em que Boggs – Mahershala Ali, de House of Cards – sugere que tirem a maquiagem dela é símbolo disso) e age como tal, sem totalmente saber o movimento de poder que ocorre literalmente por sobre sua cabeça. Ela está perdida naquele mundo de adultos, desesperadamente tentando entender o que ela quer e quem ela é. Seus sentimentos em relação a Gale (Liam Hemsworth, que finalmente ganha destaque na franquia) e Peeta (Josh Hutcherson, que quase só aparece pela TV) são conflitantes, imprecisos e ela precisa viver com isso. Sua única certeza é mesmo seu amor pela irmã Prim (Willow Shields).

Dito isso – e tem sempre um porém, não é mesmo? – se A Esperança fugiu da armadilha da continuação necessariamente mais explosiva, ela não conseguiu escapar de uma outra, que, na verdade, é quase que uma doença em Hollywood: a divisão de filmes em diversas partes. Harry PotterO Hobbit sofreram com isso e A Esperança é a mais recente vítima. Não havia material suficiente para quatro horas de projeção (cada um dos dois capítulos finais terá ligeiramente mais que duas horas) e isso fica evidente com a repetição temática, com a volta de Katniss para seu antigo distrito duas vezes, com as mesmas imagens, o que mata qualquer impacto e a demora excruciante na compreensão da dolorosamente óbvia situação de Peeta.

Com isso, A Esperança perde o ritmo por diversas vezes, literalmente parecendo um longo e inexplicavelmente estendido prelúdio para a ação. Ação essa que nunca vem, diga-se de passagem. Há, apenas, uma sequência movimentada na projeção – a do hospital no Distrito 8, que cumpre bem sua função de mostrar quem é o Tordo e ela é surpreendentemente curta e econômica, com a produção focando muito mais nos eternos discursos de Coin e nas entrevistas televisivas de Caesar Flickerman (Stanley Tucci, subaproveitado) com Peeta.

O problema causado pela falta de cadência no roteiro esticado acaba apagando personagens que poderiam ter sido mais bem aproveitados, como Finnick (Sam Claflin) e Haymitch (Woody Harrelson), além de exigir demais da paciência do espectador com planos lentos, contemplativos e sem algum tipo de recompensa. A Esperança literalmente parece o que é: o começo de um filme inacabado. E isso é ruim. Se a divisão era mesmo necessária (e nunca é), então que o roteiro ao menos emprestasse um semblante de estrutura à obra, para que ela não ficasse parecendo um capítulo de série de televisão. Todo o cuidado da produção que mencionei acima quase vai por água abaixo pela necessidade patológica de fazer o público pagar duas vezes para ter um produto só.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 é surpreendentemente fiel ao material fonte, além de ter a coragem de ser um filme diferente se comparado aos dois que vieram antes. No entanto, sua claudicância narrativa, causada por um roteiro lento e sem ritmo, impede que o Tordo alce voos mais altos.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, EUA – 2014)
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Peter Craig, Danny Strong (baseado em romance de Suzanne Collins)
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Julianne Moore, Willow Shields, Sam Claflin, Elizabeth Banks, Mahershala Ali, Jena Malone, Jeffrey Wright, Paula Malcomson, Stanley Tucci, Natalie Dormer, Evan Ross, Elden Henson, Wes Chatham
Duração: 123 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.