Crítica | Jogos Vorazes: Em Chamas

estrelas 3,5

Fazer uma continuação de um filme surpreendentemente bem sucedido nas telonas não é uma tarefa fácil. E ela fica especialmente complicada quando é baseada em uma obra literária que, já antes do primeiro filme, era venerada e que, depois, passou a ser muito mais.

Mas a Lionsgate apostou todas as suas fichas em Jogos Vorazes: Em Chamas e o resultado final, se está longe de ser sensacional como obra audiovisual, certamente deixará os fãs extremamente satisfeitos e proporcionará aos que não são tão fãs assim um bom divertimento.

Com a troca da direção – sai Gary Ross e entra Francis Lawrence, de Constantine, Eu Sou a Lenda, Água para Elefantes e, antes do cinema, um monte de videoclips – e uma quase insalubre injeção de dinheiro (Em Chamas custou o dobro do primeiro), dois dos maiores problemas do original foram completamente resolvidos: a direção com câmera na mão e os efeitos especiais. Francis Lawrence trabalha ação sem tentar fazer invencionices e, dessa maneira, é muito eficiente ao identificar claramente os personagens e, quando necessário, criar o suspense que a fita requer. No lado dos efeitos, não vemos mais os péssimos “cachorros geneticamente alterados” do clímax do primeiro filme e, em seu lugar, somos apresentados a mandris (uma espécie de babuíno com focinho colorido e que existe de verdade) bastante convincentes, além de tomadas aéreas da Capital e da Arena que efetivamente funcionam.

Ajudado por um livro que certamente foi pensado por Suzanne Collins para ter uma estrutura cinematográfica, o roteiro de Simon Beaufoy (127 Horas) e Michael Arndt (Pequena Miss Sunshine e Toy Story 3) não arrisca em absolutamente nada. Tudo o que está no livro, está no filme. Ok, quase tudo, para os fãs inveterados não ficarem zangados comigo. Os diálogos estão lá intactos, as sequências na exata ordem do romance, as cenas de ação, os sacrifícios, os segredos, as reviravoltas: é como ver o livro em movimento. Normalmente, isso é um problema, pois a produção, empolgada com o sucesso do primeiro filme e com a legião de fãs, poderia ter posto os pés pelas mãos facilmente, mas, em Jogos Vorazes: Em Chamas, a maior consequência dessa fidelidade toda é um filme mais longo do que o necessário, praga, aliás, que se abateu no primeiro também. No entanto, esse problema não retira o vigor da narrativa quando ela efetivamente começa, ainda que esse começo demore demais para acontecer e uma montagem um pouco menos preocupada com a reação dos fãs poderia ter evitado.

Em termos de história, vemos Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, bem como sempre) e Peeta Melark (Josh Hutcherson) embarcando na Turnê da Vitória, em que eles têm que sorrir e acenar para cada um dos 12 Distritos que formam Panem, país totalitarista controlado pela rica Capital que surgiu das cinzas dos Estados Unidos em frangalhos. Há 75 anos, uma rebelião foi massacrada, com a destruição do 13º Distrito e os Jogos Vorazes é o resultado disso, em que cada distrito oferece dois tributos para lutarem até a morte em uma arena. São os jogos gladiatoriais romanos trazidos para um futuro distópico para que Suzanne Collins possa eficientemente falar de controle da imprensa, opressão e outros temas bastante pesados que ela magistralmente insere na costura de seu trabalho.

Mas, voltando ao filme, como Katniss saiu como um símbolo de esperança dos jogos (um pássaro híbrido ficítico chamado mockingjay e que misteriosamente foi traduzido para o português com o nome de um pássaro que existe de verdade, o tordo), catalisando diversas demonstrações de insatisfação nos distritos, alguma coisa precisava ser feita pela Capital. Para sufocar a rebelião antes que ela comece e o símbolo que Katniss passou a representar, o Presidente Snow, vivido por um magistralmente sinistro Donald Sutherland, ajudado pelo planejador do torneiro Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman claramente se divertindo muito no papel), iniciam o chamado Massacre Quartenário que, “coincidentemente”, em sua 3ª edição, reunirá, até a morte, os vencedores de jogos anteriores. Assim, nossos heróis voltam para a arena.

O que parece gratuito e “mais do mesmo” flui com bastante naturalidade graças ao livro e ao roteiro. O mesmo vale para a apresentação de diversos personagens novos como Finnick Odair (Sam Clafin) um jovem de 24 anos, Mags (Lynn Cohen), uma senhora mentora de Finnick, a tresloucada Johanna Mason (Jena Malone, ótima) e a dupla de gênios Beetee (Jeffrey Wright) e Wiress (Amanda Plummer, muito convincente). Há mais ainda, mas os demais são bucha de canhão. Os que realmente importam – sejam mocinhos, vilões ou algo entre uma coisa e outra, não vou relevar segredos aqui – são esses. Ao evitar apresentações separadas de cada um, Arndt e Beaufoy trataram de inserir suficientes situações particulares para que eles fossem apresentados sem interrupção da narrativa. E isso ajuda e muito na fluidez da fita.

Mas o personagem que realmente ganha mais desenvolvimento do que no próprio livro é Plutarch Heavensbee. As cenas de Hoffman dividindo a tela com Sutherland contribuem para a extensão da obra, mas, por outro lado, tornam ambos personagens mais integrais à trama, algo que será especialmente importante nos dois filmes que faltam (sim, infelizmente dividiram o terceiro livro – A Esperança – em dois, moda padrão na Hollywood sem imaginação de hoje).

Assim, em termos de continuação, Jogos Vorazes: Em Chamas é tão bom quanto o original em sua narrativa e melhor nos aspectos técnicos de direção e efeitos especiais. Certamente que os adolescentes desesperados para verem seus heróis em tela (compartilhei a sala de cinema com vários desses e me deu vontade de jogá-los todos nos Jogos Vorazes) idolatrarão o resultado final e aceitarão o filme por seu valor de face, esquecendo-se que Suzanne Collins enterrou outros tesouros em seu trabalho e que a Lionsgate misericordiosamente não esconde, tornando o que poderia ser mais uma diversãozinha cinematográfica em uma obra que, assim como o primeiro filme, faz pensar.

É evidente, porém, que, em sendo a parte do meio de uma trilogia (tetralogia, na verdade), Em Chamas não tem um fim propriamente dito e o clímax é extremamente rápido e não muito satisfatório em si mesmo, o que torna as continuações absolutamente essenciais. Mas isso já era esperado como parte dos jogos vorazes de Hollywood, não é mesmo?

Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, EUA, 2013)
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Simon Beaufoy, Michael Arndt, Suzanne Collins (romance)
Elenco: Jennifer Lawrence, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Josh Hutcherson, Paula Malcomson, Willow Shields, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Stanley Tucci, Philip Seymour Hoffman, Sam Claflin
Duração: 146 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.