Crítica | Jogos Vorazes

estrelas 3,5

A premissa de Jogos Vorazes é batida, mas só se você focar na superfície. É uma espécie de mistura entre O Sobrevivente e Batalha Real, já que coloca jovens se matando em uma arena para um emergir vitorioso. Acontece que Suzanne Collins, a autora do bestseller de 2008 de mesmo nome que foi adaptado ao cinema por ela própria junto com o co-roteirista e diretor Gary Ross, foi muito mais além do que uma competição sangrenta, imprimindo fortes mensagens anti-belicistas (na linha de O Senhor das Moscas, de William Golding) e, principalmente, sobre o poder da manipulação dos meios de comunicação (lembrando fortemente o clássico 1984, de George Orwell).

Como a própria autora foi envolvida na criação do roteiro e Gary Ross (do razoável Sea Biscuit – Alma de Herói e do bom A Vida em Preto e Branco) ela quis manter-se fiel à mensagem da obra fonte e, com isso, o que temos na tela é uma aventura dinâmica, muito bem adaptada ao cinema e que faz questão de tratar do assunto de maneira mais madura, fugindo da armadilha de “filmes de adolescente” (público-alvo do livro).

Em um futuro distópico, os Estados Unidos não mais existem mais e, em seu lugar, temos Panem, um país controlado com mão de ferro pela Capital, um rico centro cultural e tecnológico, que explora 12 Distritos mais empobrecidos. Há 74 anos, uma rebelião levou a Capital a esmagar o 13º Distrito e a criar os Jogos Vorazes como um lembrete de seu poder e da subjugação dos demais. O jogo consiste em colocar 24 jovens tributos (um casal de cada distrito, entre 12 e 18 anos, escolhido em sorteio) uns contra os outros em uma enorme arena cheia de armadilhas controlada por um Game Master. É um vale tudo até a morte e o último a sobreviver ganha o jogo. Tudo, claro, devidamente televisionado para toda Panem.

O filme é focado em Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), jovem do Distrito 12 que aprendeu a caçar com seu falecido pai, o que faz com seu amigo Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), ainda que essa atividade seja criminosa. Em um ato de coragem, Katniss acaba indo aos jogos junto com Peeta Mellark (Josh Hutcherson), o tributo masculino de seu distrito. O mentor dos dois é Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), um bêbado que já venceu um dos tais Jogos Vorazes. A partir daí, é a guerra pela sobrevivência.

Com uma direção muito segura, Gary Ross apresenta todos os elementos importantes da narrativa sem perder o ritmo, valendo-se, às vezes, de flashbacks sem diálogos, algo que acaba valorizando muito o filme, em vista do ar de seriedade que imprime, além de ser eficiente para ampliar a mitologia da série e a profundidade dos personagens. Com uma montagem esperta (menos nas cenas das lutas, como comentarei mais abaixo), Ross consegue, ao mesmo tempo, passar a impressão de passagem temporal e um ritmo frenético, que não dá ao espectador muito tempo para pensar.

Mas é o roteiro que consegue se sobressair. Primeiro, ele condensa a história do livro sem se esquecer dos aspectos mais importantes. Há várias modificações, mas só aqueles fãs chatos da obra original é que vão achá-las desrespeitosas. Personagens são inteiramente cortados da narrativa e outros têm seu destaque muito reduzido (como Gale, por exemplo), mas, se não fosse assim, o filme teria caído na armadilha de tentar reproduzir, não efetivamente adaptar uma história.

Outro aspecto interessante do roteiro é a presença mais constante de elementos de ficção científica, ainda que os efeitos especiais, em muitos momentos, mas especialmente na sequência final, sejam sofríveis. Vemos não só hovercrafts futuristas e uma Capital extremamente moderna, elementos constantes no livro, como, também, participamos do controle dos Jogos diretamente da sala de “guerra”, em que o Game Master Seneca Crane (Wes Bentley) e sua equipe determinam cada detalhe do que ocorre na arena. E esse personagem, que somente é mencionado no livro, é muito bem desenvolvido no filme, como um elemento para permitir a fluidez da narrativa. Todo esse desenvolvimento acaba contribuindo para um final mais orgânico ao filme, que não cria estranheza como no livro.

Também para ajudar na narrativa, temos os vários cortes para o apresentador Caesar Flickerman (Stanley Tucci), algo como o Pedro Bial desse universo, para literalmente explicar, sem parecer artificial, diversos acontecimentos nos jogos. Por exemplo, a explicação sobre as vespas geneticamente alteradas soaria forçada saindo da boca de qualquer personagem na arena mas, de Flickerman, a narrativa funciona muito bem. E o romance adolescente teve sua presença reduzida para a medida exata, tornando o personagem de Katniss ainda mais crível do que no livro.

No entanto, Gary Ross, certamente para evidenciar a questão da manipulação das imagens, mas também para dar um tom de documentário ao filme, escolheu usar a técnica de “câmera na mão”. Devo dizer que me incomodei muito com a tremedeira constante, algo que não precisava ser tão presente uma vez que a ideia reiterada pela câmera tremida já estava bem sedimentada na narrativa e na constante presença do Big Brother da Capital.

Além do mais, Ross optou por montar as lutas de forma a impossibilitar qualquer identificação do que está acontecendo, o que tira a tensão de diversas cenas. Não que fosse necessário escancarar a violência – não era – mas a montagem é confusa e rápida demais exatamente nos momentos mais tensos, em detrimento ao próprio filme e à compreensão dos eventos.

De toda forma, Jogos Vorazes é um ótimo filme de ação, com um roteiro enxuto que, poderia ter tido o efeito de reduzir sua enorme duração de 142 minutos. No entanto, mesmo com quase duas horas e meia, a fita flui sem maiores percalços, ainda que um corte de 20 minutos pudesse ter melhorado o compasso.

As atuações do casal principal são muito boas, passando a exata medida de indignação, perplexidade e inocência. O elenco mais experiente parece estar se divertindo muito, especialmente Stanley Tucci e Woody Harrelson. E eu não podia deixar de lembrar de Donald Sutherland, basicamente fazendo uma ponta como o maligno Presidente Snow:  ele consegue passar a exata medida da malignidade de seu personagem, criando expectativa para o próximo filme.

Jogos Vorazes diverte na medida certa e, por incrível que pareça, faz pensar, graças ao material base que consegue ir além de uma simples competição mortal e, também, ao talento da autora também na criação de um roteiro que não se esquece dos aspectos não voltados à ação, algo cada vez mais difícil de se encontrar em um arrasa-quarteirão hollywoodiano.

Jogos Vorazes (The Hunger Games, EUA, 2012)
Direção: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross, Suzanne Collins, Billy Ray
Elenco: Jennifer Lawrence, Donald Sutherland, Stanley Tucci, Woody Harrelson, Wes Bentley, Willow Shields, Liam Hemsworth, Elizabeth Banks, Sandra Ellis Lafferty, Paula Malcomson
Duração: 142 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.