Crítica | John Carter: Entre Dois Mundos

estrelas 3

Com John Carter ainda em cartaz, a Disney declarou para seus acionistas que, devido ao fracasso de bilheteria de seu custoso filme, ela contabilizaria 200 milhões de dólares de prejuízo, o que levaria a um prejuízo operacional de até 120 milhões de dólares para a empresa como um todo, no segundo trimestre de 2012. Sim, John Carter, que ganhou o completamente desnecessário subtítulo “Entre Dois Mundos” no Brasil, foi uma gigantesca bomba na bilheteria, mas a pergunta que se deve fazer é: esse fracasso é merecido?

Na verdade, muito de um filme desse tipo (que custou 250 milhões de dólares só para ser feito, sem contar com gastos em marketing) está na construção da expectativa da audiência. Personagens sempre constantes no imaginário popular, como Batman e Harry Potter, teoricamente dependem menos de estratégias para “posicionar” a marca antes do lançamento de um filme (não que muitos milhões de dólares não sejam investidos nisso, claro). John Carter, apesar de ser um personagem centenário (foi criado por Edgar Rice Burroughs em 1912, sob o título Uma Princesa de Marte), carece de um reconhecimento tão amplo e, portanto, depende mais fortemente de uma campanha publicitária. Acontece que tudo o que foi feito, de posteres e outdoors até trailers, passando pelas mudanças de título (era John Carter of Mars, depois passou a ser apenas John Carter) deixou muito a desejar. O material foi de pouco apelo visual e deixava de lado os aspectos mais importantes da história, além de ignorar quase que completamente a questão do “romance interplanetário”, algo que poderia atrair um público maior, não só aqueles que gostam de ficção científica.

Assim, logo de início, John Carter sofreu com sua divulgação e isso refletiu fortemente nos resultados abissais até aqui. Obviamente, em nada ajuda a Disney divulgar perdas com base em um filme que nem mesmo havia saído dos cinemas, mas…

De toda forma, chega de reclamações, pois o que foi feito, foi feito.

O filme conta a história do personagem título vivido pelo inexpressivo Taylor Kitsch (o Gambit, de X-Men Origens: Wolverine). Ele é um herói da Guerra Civil americana que, misteriosamente, é transportado para Marte (ou Barsoom, na língua de lá). Chegando ao Planeta Vermelho, ele logo descobre que, devido à gravidade menor, ele ganhou poderes: é mais forte do que o normal e, além disso, consegue dar saltos extraordinários. Esses poderes, claro, dão a Carter uma vantagem enorme quando ele é encontrado e aprisionado por seres verdes altíssimos de quatro braços, liderados por Tars Tarkas (Willem Dafoe, dublando o personagem digital). Depois de uma batalha aérea, Carter descobre que há outros seres habitando o planeta e que eles são idênticos aos humanos. Não demora muito para ele se apaixonar pela princesa Dejah Thoris (a bela Lynn Collins) e para se envolver na Guerra Civil entre Helium (cidade de sua amada) e Zodanga, uma cidade ambulante que consome as fontes naturais do planeta, comandada por Sab Than (Dominic West que, aparentemente, só teve um papel bom na carreira: Jimmy McNulty em The Wire).

O filme é grandioso e épico. Apesar de baseado na obra Uma Princesa de Marte, de Burroughs, o diretor e co-roteirista Andrew Stanton, bebeu também dos livros posteriores da série, além de ter fortemente alterado vários elementos e arredondado a história. Aliás, Stanton tem um pedigree e tanto: dirigiu e escreveu os brilhantes Wall-E, Procurando Nemo e Vida de Inseto da Pixar, além de ter escrito os roteiros de Monstros S.A. e Toy Story 1, 2 e 3. John Carter foi o primeiro filme com atores reais com que o diretor se envolveu e o resultado polarizou a crítica exatamente no meio.

E não interessa sob que ângulo você examine a fita (um sonho antigo de Stanton), não há como não concluir que ele está muito aquém da capacidade que o diretor demonstrou em suas outras obras. Não que o filme seja ruim, longe disso, apenas não tem aquela qualidade que está onipresente especialmente em Wall-E.

Para começar, apesar do roteiro ter, digamos assim, arrumado a casa que era a “bagunça” da obra em que se baseou, ele continuou com enormes falhas. Os personagens quicam de um lugar para o outro que nem bolas de borracha, atrapalhando a fluidez da narrativa. Não há qualquer desenvolvimento de personagens que não sejam o trio principal: Carter, Thoris e Tarkas. O resto é personagem padrão de filmes de ficção: ou muito maus ou muito bons e sempre rasos como um pires. Aliás, mesmo a princesa é mal desenvolvida – ou desenvolvida demais, dependendo de como você a encarar – pois ela é, ao mesmo tempo, filha do rei, cientista, guerreira e amante. Outro ponto que incomodou foi a presença de diversos diálogos expositivos constrangedores, como a tentativa de se descobrir o porquê de Carter ter os poderes que tem ou como funciona a estranha construção no rio Iss. Tudo parece muito artificial, deslocado.

Mas o roteiro também tem grandes acertos. Para começar, Stanton, em uma jogada brilhante – presente de certa forma no livro mas que não esperava mesmo ver no filme – introduz Edgar Rice Burroughs como personagem (vivido por Daryl Sabara) em dois bem construídos momentos: no início, com Burroughs recebendo a herança de Carter e ao final quando a trama é bem fechada, de maneira, aliás, muito superior ao livro. Dejah Thoris, apesar de inconsistências em sua construção, não é a típica donzela em perigo e sim uma guerreira tão boa quanto Carter, o que empresta uma firme dinâmica ao filme, ainda que esse aspecto jamais alcance todo o potencial.

Os efeitos especiais também são de nota. Apesar de, em tempos de captura de movimento inacreditáveis, não ter ficado muito convencido com os marcianos verdes, todo o resto é deslumbrante, ainda que não extraordinário. Das naves aos gorilas brancos, Stanton soube trazer à vida aquilo que Burroughs descreveu em seu livro.

John Carter, assim, é um grande divertimento que não deve desapontar os fãs da obra de Burroughs e de ficção científica em geral. Certamente não merece o fracasso que amargou, mas, também, não é nada revolucionário.

Obs: O 3D (convertido) não acrescenta nada ao filme.

John Carter: Entre Dois Mundos (John Carter, EUA – 2012)
Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Mark Andrews, Michael Chabon
Elenco: Taylor Kitsch, Lynn Collins, Samantha Morton, Willem Dafoe, Thomas Haden Church, Mark Strong, Ciarán Hinds, Dominic West, James Purefoy, Bryan Cranston, Polly Walker, Daryl Sabara
Duração: 132 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.