Crítica | John Constantine, Hellblazer – Vol. 1: Pecados Originais

estrelas 4

Breves palavras sobre o volume criticado: Tomei a decisão de criticar os volumes de Hellblazer conforme os encadernados americanos e não os brasileiros lançados pela Panini. A razão para isso é que a Panini elegeu organizar seus encadernados por roteirista e não por ordem cronológica como no caso americano. Sempre prefiro a ordem cronológica. Para mais detalhes sobre a equivalência do volume criticado com o que foi publicado pela Panini, por favor leia a ficha técnica completa logo ao final da crítica.

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John Constantine é um personagem criado por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben como coadjuvante na publicação A Saga do Monstro do Pântano #25, de junho de 1984, aparecendo por completo, mas ainda como personagem secundário no #37, de junho de 1985, da mesma publicação da DC Comics. Sua gênese se deu a partir do desejo de Bissette e Totleben de criar um personagem parecido com Sting, o vocalista da lendária banda The Police. Moore gostou da ideia e inseriu Constantine, uma espécie de “especialista em eventos místicos” na narrativa da revolução que ele próprio estava causando na vida do Monstro do Pântano.

Tamanho foi o sucesso do personagem que a DC, em 1988, abriu espaço para um título próprio com ele, que seria chamado Hellraiser, até que a franquia de filmes com o mesmo nome de Clive Barker fez sucesso e forçou a troca para Hellblazer. O primeiro roteirista do título solo de Constantine foi Jamie Delano, com arte de John Ridgway. A chamada “fase Delano” durou até o 40º número.

Muitos ligam o personagem com o selo Vertigo, mais adulto, mas reparem que venho, propositalmente, mencionando DC nos parágrafos anteriores. É que o selo mais maduro da DC só seria criado em 1993, o que torna Constantine, na verdade, uma criação pura da DC que migrou para a Vertigo (assim como o Monstro do Pântano) para permitir que o tom da narrativa continuasse. O personagem é mais uma daquelas criações oitentistas de editoras mainstream que, hoje em dia, jamais se repetiria.

Afinal de contas, logo no primeiro mini-arco, composto dos dois primeiros números da publicação, a personalidade cínica, arrogante e, sim, extremamente esquisita de John Constantine, que vislumbramos no trabalho de Moore, ganha maiores dimensões. Seu hábito de fumar um cigarro atrás do outro e o uso do paletó surrado, gravada e, muitas vezes, um sobretudo, terminam de literalmente vestir o personagem que é difícil de se gostar de verdade. Afinal de contas, apesar de trabalhar para um “bem maior”, Constantine está preparado para sacrificar amigos e amantes, sem nem mesmo piscar. Ler Hellblazer pela primeira vez exige uma certa força de vontade tamanho é seu distanciamento dos personagens de quadrinhos que vemos por aí, mesmo comparando-o com outros personagens da própria Vertigo não relacionado com o mundo dos “super-heróis”.

E Delano trabalho seu texto de forma a esconder os “poderes” de Constantine. Ele pode conjurar demônios, conversar com eles e abrir portais para outras dimensões, mas sempre como um mago mundano, daqueles que usam de pentagramas, sacrifícios animais e muita simbologia do ocultismo. Não esperem, assim, pelo menos nesse primeiro volume, qualquer uso mais “comum” de poderes mágicos. E essa é apenas uma das características que tornam Constantine o que ele é.

Assim, voltando rapidamente para o primeiro mini-arco composto pelas primeiras duas publicações de Hellblazer, Constantine recruta a ajuda de Papa Midnite, um enorme mago do vodu que vive no submundo de Nova York para resolver um problema demoníaco que afeta seu amigo Gary Lester. O tom estabelecido por Delano é de decadência total. Desde a forma como Londres é retratada, passando por Lester, Midnite e, claro, o próprio Constantine. Não é à toa que o demônio que eles enfrentam é caracterizado como um enxame de moscas, algo que obviamente acrescenta à atmosfera pesada e nojenta, que ganha contornos “sujos” e entristecidos no traço de John Ridgway.

Também não posso deixar de mencionar que o peso na consciência de Constantine é retratado de maneira brilhante com um artifício simples: ele vê e interage com os fantasmas de seus amigos mortos (ou que ele deixou morrer, na verdade), fantasmas esses que, no início, nos são apresentados nas cores normais, mas que, depois, ganham um branco “escurecido” que não deixa dúvidas sobre o que exatamente eles são. Esse artifício não permite que esqueçamos quem Constantine é.

A história seguinte, que apresenta e arma o futuro embate de Constantine com o Exército da Danação, é encapsulada em apenas uma publicação (cada uma tinha 40 páginas mais ou menos). Dessa vez, Constantine tem que lidar com um grupo de demônios yuppies que investem literalmente na bolsa de valores do inferno, comercializando almas no lugar de ações. Nesse ponto é que vemos muito claramente o famoso texto político de Delano sendo inserido na narrativa a todo momento. Ele já estava presente no mini-arco anterior, mas, agora, ganha contornos mais claros. Delano não só lida com os aspectos políticos da Inglaterra da época, com a iminente reeleição de Margaret Thatcher e a crise econômica por que passava o país.

Na história seguinte, Constantine conhece Zed, mulher que tem ligações místicas como ele e que seria importante para o fechamento da narrativa do Exército da Danação. Os dois partem para investigar o desaparecimento de Gemma Masters, sobrinha de Constantine. Seus pais são devotos dos Cruzados da Ressurreição e a garota, miserável por essa circunstância, some junto com outras três meninas. A narrativa é tensa e Delano nos faz esperar pelo pior. É o momento de maior interferência de Constantine em uma história até o momento, pois, antes, ele sempre atua como o “facilitador” ou “observador”. Aqui, ele realmente parte para lidar não só com os pais beatos de Gemma, como, também, contra o horror que a sequestrou. É uma história de tirar o fôlego.

Mas nada se compara com a seguinte, em que Constantine, na cidadezinha de Liberty, nos Estados Unidos, enfrenta o retorno, 20 anos depois, de um pelotão desparecido no Vietnã. Mas o horror dessa história – que, claro, carrega fortemente nas cores políticas de Delano – é o comportamento de nosso “herói”. Constantine é o narrador e a figura que está presente em todos os momentos, mas que nada faz. Ele fuma, ele observa, ele fala, mas ele nunca interfere e a narrativa vai em um crescendo destruidor que só nos faz ficar com raiva dele. Por que ele não interfere? Por que ele não se importa? Mas a inevitabilidade permeia a história e acabamos entendendo essa pesada escolha de Delano.

É também nessa história que vemos a arte de John Ridgway desabrochar. Seu trabalho, antes, já era extremamente eficiente para nos passar a decadência do mundo de Constantine, mas, agora, lidando com o passado e o presente, oscilando entre a divisão de quadros normais e quadros estilhaçados, raivosos, mas sempre fluidos, ele nos passa com clareza o horror da situação. No entanto, fica um aviso para aqueles menos acostumados a ler quadrinhos: não é fácil acompanhar o trabalho de Ridgway. Ele exige costume, pois constantemente o artista troca a direção da leitura, ora usando uma página, ora duas. Mas, uma vez entendendo como ele trabalha, as recompensas da leitura virão.

A partir da história seguinte, Prejuízo Extremo, passamos a acompanhar um arco maior, ainda que difuso, que tenta encerrar o conflito entre o Exército da Danação e os Cruzados da Ressurreição. Mas Delano não segue uma narrativa linear. Longe disso até. Ele reúne novamente Zed a Constantine, apresenta Ray Monde, um amigo homossexual portador do vírus da AIDS e que sofre o preconceito local (isso em 1988 – vejam como a narrativa de Delano era atual, moderna, provocativa!) e joga o personagem principal no fundo do poço. A resolução da história é de arrepiar os cabelos pela simplicidade e crueldade de Constantine, algo que incomodará qualquer leitor são. No entanto, essa simplicidade é genial, ousada e que me faz ter a certeza absoluta que, hoje, algo assim não seria escrito nem mesmo em selos mais pesados como Vertigo e Image.

O volume tem, como epílogo, um crossover de dois números com a publicação do Monstro do Pântano. É o finalzinho da resolução do arco anterior, mas o ponto-de-vista muda para, claro, Alec Holland, que usa Constantine como vetor para engravidar Abby. O problema, aqui, é o quão diferente soa a história tanto em ritmo quanto em mensagem. Vemos algo bem mais leve – ainda que a mera presença de Constantine já sirva de peso suficiente – e um tanto quanto “solta” em relação ao que veio antes. Além disso, o fechamento mesmo desse arco acontece no #10 de Hellblazer, não contido no volume que li, mas que a publicação americana, por seguir a cronologia e por abrir o arco seguinte, decidiu jogar para o Volume 2, algo que não aconteceu no Brasil. De toda maneira, é um encerramento que desaponta um pouco, por ser dissociado do universo particular de Constantine estabelecido por Delano.

Mas, independente de qualquer consideração negativa, Hellblazer, Vol. 1 é uma experiência única nos quadrinhos. Uma leitura muito satisfatória – ainda que difícil – e que nos faz pensar, além de nos cativar com um personagem que, na falta de outro adjetivo, é asqueroso, repugnante mesmo. Será que gostar de Constantine é pecado? Porque, se for, a coisa fica ainda mais interessante…

Que venha o volume 2!

John Constantine, Hellblazer – Vol. 1: Pecados Originais (John Constantine, Hellblazer – Vol. 1: Original Sins, EUA – 1988)
Conteúdo: John Constantine, Hellblazer # 1 a 9, publicados originalmente entre janeiro e setembro de 1988 e Monstro do Pântano # 76 e 77, publicados originalmente em setembro e outubro de 1988
Equivalência no Brasil: John Constantine, Hellblazer – Vol. 1: Pecados Originais e Vol. 2: Triângulos Infernais, com exceção de Hellblazer #10)
Roteiro: Jamie Delano (todas as histórias menos Monstro do Pântano #76) e Rick Veitch (somente Monstro do Pântano #76)
Arte: John Ridgway (Hellblazer #1 a 6 e lápis no #8 e 9), Rick Veitch (lápis em Monstro do Pântano #76) e Tom Mandrake (lápis em Monstro do Pântano #77)
Cores: Lovern Kindzierski (Hellblazer # 1 a 9), Tatiana Wood (Monstro do Pântano #76 e 77)
Tintas: Alfredo Alcala (Hellblazer # 8 e 9 e Monstro do Pântano #76 e 77)
Letras: Annie Halfacree (Hellblazer #1 a 4), Todd Klein (Hellblazer #5 a 7 e 9), John Constanza (Hellblazer #8 e Monstro do Pântano #76 e 77)
Capas originais: Dave McKean (Hellblazer #1 a 9 e Monstro do Pântano #77), John Totleben (Monstro do Pântano #76)
Editoras nos EUA: DC Comics (originalmente), Vertigo Comics (republicações e encadernados atuais)
Editora no Brasil: Panini
Páginas: 289

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.