Crítica | John From

john-from-plano-critico-nicolau

estrelas 1

John From tem relações simbólicas tão boas, que poderia facilmente dar origem a um grande filme sobre os desejos — inocentes ou não — de uma garota de 15 anos curtindo o ócio de suas férias de verão, entediada com a vida e fazendo pequenos programas ou tarefas de adolescentes, às vezes chateando ainda mais a si mesma e a todos à sua volta, inclusive ao espectador.

O título do filme é a indicação de um culto e mito surgido por volta da década de 1930 em algumas ilhas da Melanésia (grande região da Oceania, englobando territórios que vão da Papua Nova Guiné a Fiji), principalmente de Vanuatu — e aqui trazendo uma colocação da personagem: não, esta ilha não pertence à França. A única ilha da Melanésia pertencente à França é Nova Caledônia –, onde os habitantes esperam um soldado norte-americano, da Segunda Guerra Mundial, que pulará de pára-quedas e trará prosperidade e coisas boas para o povo.

Representado como um indivíduo Preto ou Branco, dependendo de quem conta o mito, “John From (America)” é, neste filme, um guia-fetiche de Rita (Julia Palha, em boa interpretação), que após ver a exposição de um vizinho no Centro Cultural local, passa a nutrir por ele uma paixão que ainda não tem todos os seus elementos definidos, nem sabe, em um primeiro momento, onde quer chegar.

Colocando dessa forma, o enredo parece trazer tudo o que de fato deveria ter trazido: uma reflexão lírica, evoluindo para a poética, sobre o desabrochar de uma jovem, partindo de sua forma simples de ver o mundo, seus anseios, sua necessidade de silêncio, isolamento e suas confusões até o seu primeiro encontro com o que ela julga ser “A Felicidade”. E de uma forma distante o diretor João Nicolau nos traz tudo isso. Só que em uma jornada demasiadamente carregada, que não consegue dar conta de seu próprio hermetismo.

Entre belos planos centralizados (se tem uma coisa que o diretor faz muito bem aqui é enquadrar Rita na tela. Além de ter tido a excelente sacada de colocar um iPod como um “Oráculo”), repetição de cenas, muito silêncio — nem sempre necessário — e completa soltura no roteiro, o filme se ergue querendo ser profundo, mas afasta o espectador para o mais longe possível a cada minuto que passa.

Não é preciso muito para notar as intenções do diretor. Para rastrear o seu desejo de falar de desejo. De pureza e libido femininas, de sonhos e fantasias. Até algum ponto da fita, essa aglutinação das coisas em um parâmetro surrealista chega a fazer sentido. Mas o fato de ser igualmente embalada em razão e elementos oníricos, entre o consciente e o inconsciente, torna o filme um arrastado poema, com momentos de beleza e quase nada de palpável, sequer para validar os seus símbolos. Tentamos nos apegar aos diálogos, mas eles não obedecem a nenhum princípio coerente ao longo da obra. Tentamos entender a bizarra representação do pai e da mãe de Rita (as duas piores personagens e a pior exposição de todo o filme), mas não há retorno positivo. Nos sobra a ótima escolha da trilha sonora, mas esta, infelizmente, é boicotada por uma bizarra edição de som.

Deixar para o espectador o ônus do completo entendimento das fantasias do artista foi um erro de João Nicolau, que obviamente não inventou esse tipo de comportamento no cinema, mas o comete de modo tão intenso, que nos faz colocá-lo em uma lista especial de diretores que filmam a repetição e o nonsense esperando que o público encontre, sozinho, todos os motivos para montar o quebra-cabeça ou iniciar a discussão que deveria partir da obra. Não se trata de cobrar um filme mastigado ou didático. Mas de algo que não seja apenas um híbrido de abstração e cenas seculares regadas a beleza estética, muitos símbolos que se perdem e mais nada. Melhor seria o cineasta ter fito um curta surrealista. Cairia muito melhor ao seu intento.

John From (Potugal, França, 2015)
Direção: João Nicolau
Roteiro: João Nicolau, Mariana Ricardo
Elenco: Julia Palha, Clara Riedenstein, Filipe Vargas, Adriano Luz, Leonor Silveira, João Xavier, Daniel Cotrim, Vasco Pimentel, Pedro Coelho
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.