Crítica | JoJo’s Bizarre Adventure – Vols. 1 a 5: Phantom Blood

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estrelas 2

Phantom Blood foi o primeiro arco do mangá JoJo’s Bizarre Adventure, contado em 5 volumes, ou seja, entre os capítulos 1 a 44 da saga, originalmente publicados entre janeiro e outubro de 1987 e com lançamento em volumes no Japão entre agosto de 1987 e agosto de 1988. Escrito e desenhado por Hirohiko Araki, essas aventuras bizarras de JoJo possuem um cenário e um modelo não comumente encontrados nos mangás, ao menos não dentro desse tipo de proposta híbrida de gêneros e com diferentes formas de representação que o mangaká faz aqui.

A trama principal se passa na Inglaterra da década de 1880, contendo também um prólogo que nos introduz à Máscara de Pedra e alguns flashbacks extremamente didáticos em diferentes partes do mundo, a maioria deles, desnecessários. O enredo principal gira em torno de Jonathan Joestar (JoJo) e Dio Brando, dois rapazes ingleses de origens familiares diferentes e com metas de vida igualmente distintas. Seus caminhos se cruzam, os ataques pessoais começam a acontecer e o embate entre eles gerará um evento épico, chegando até a ameaçar o mundo vitoriano da forma como o conhecemos.

Através de desenhos mistos de personagens, com feições que juntam elementos ocidentais e a conhecida característica dos mangás, Araki nos leva por um mundo que não tem vergonha de exibir o seu contato com elementos místicos e também não deixa de elencar inúmeras lendas, sagas e histórias orientais (e quando uso esse termo, penso exatamente no Extremo Oriente) para combinar com a História da Inglaterra, brincando, inclusive, de revisionismo histórico, recontando, através de um interessante ponto de vista, a relação entre as rainhas inimigas Mary da Escócia e Elizabeth da Inglaterra.

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O conceito da Máscara de Pedra é introduzido.

A princípio, o que temos em JoJo’s é um novelão com forte tendência para Jane Austen, desenvolvido a partir do ponto de vista do “inimigo secreto”: Dio entra na vida dos Joestar como um ‘bom moço’ e, por dívida de honra do Lorde Joestar, é adotado e passa a maquinar planos para tornar a vida de JoJo um inferno. Basicamente, o primeiro volume (Dio the Invader) tem a função de mostrar o crescimento caótico e atormentado de JoJo com um “irmão” como Dio em sua cola. A personagem Erina Pendleton é apresentada aqui, mas rapidamente sai de cena, para voltar em momento estratégico, no futuro.

Considerando os grandes incômodos posteriores, fica até mais fácil aceitar a “narrativa de lágrimas” que se desenvolve no início, do que os absurdos que cercam o restante da trama. De forma proposital (o que não significa que é algo necessariamente bom) o autor usa de todos os clichês possíveis dos dramas familiares e romances britânicos para desenhar um plano de fundo trágico para JoJo e marcar a personalidade maligna e dissimulada de Dio. Até certo ponto da história, quando apenas algumas explicações simples são dadas sobre o passado, o encadeamento do texto é limpo, sem saltos temporais ou acontecimentos absurdos e inacreditáveis. Isso só começa a partir do segundo volume, onde temos uma ponte de sete anos, indicada no início do texto, mas acontecida em elipse, ou seja, uma péssima escolha do autor.

A partir desse tomo dois (The Thirst for Blood!), vemos Austen encontrar-se com Mary Shelley e O Tigre e o Dragão em um frequente crescimento do mal, do uso da Máscara de Pedra por Dio e o início de um embate que seguirá até o final do arco. Pesa sobre a história o acréscimo desmedido de “personagens de ocasião” cada um lutando com afinco para fazer valer o “bizarre” do título do mangá. Indivíduos como Zeppeli, que aparece no tomo três (The Dark Knights), por quem acabamos criando grande simpatia com o passar do tempo, é introduzido com maneirismos e “poderes” que exigem DEMASIADAMENTE da nossa suspensão da descrença. É preciso ter muito boa vontade para aceitar qualquer coisa que venha na história a partir desse ponto, com exceção de cenas como o embate entre JoJo, Dio e Zeppeli (vide página abaixo) e um ou outro ponto mais triste a seguir.

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A melhor sequência de luta em todo o arco.

A excentricidade dândi dos personagens é uma das coisas que os tornam atemporais, apesar de várias vezes o texto nos indicar precisamente a data em que a história ocorre. Por um lado, entre os figurinos espalhafatosos e métodos de luta insanos contra zumbis de todas as categorias imagináveis e vampiros, a aventura diverte, por sua estranheza. Tramas como a de Jack, o Estripador, por exemplo, dão um caráter diferente… com um ponto de “realismo fantástico” à história, mas nada que vá nos fazer amar esse universo por completo diante de todo o resto que precisa ser considerado. Por outro lado, o leitor deverá lidar com complicados quadros de perspectiva anatômica (raros são os desenhos de personagens que eu de fato gostei nesse arco. Em compensação, fiquei boquiaberto com os ótimos cenários, especialmente nas páginas duplas) e muita coisa jogada a esmo no enredo, com explicações do tipo “Eu era jovem. Eu descobri isso. Isso existe. Simplesmente aceite“.

Alguns dos momentos mais coerentes de todo o trajeto estão nos últimos capítulos do último volume (The Final Hamon!), que traz um desfecho mais sólido — ou até onde isso é possível dentro de uma aventura sobrenatural — para JoJo, Erina e Dio, encadeando muito bem os últimos acontecimentos e abrindo as portas certas para a continuação da saga. Quase completamente marcado pelo exagero, por muitos personagens e pouco contexto, os cinco primeiros volumes de  JoJo’s Bizarre Adventure só conseguem nos fazer entender que a saga possui uma boa ideia. Talvez o arco seguinte traga uma boa execução.
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NOTA: as imagens utilizadas aqui são da versão colorida do mangá, porque foram as de melhor qualidade que eu encontrei “pelas internetes”, mas eu li a edição original, em preto e branco.

JoJo’s Bizarre Adventure: Phantom Blood (Japão, originalmente publicado entre janeiro e outubro de 1987)
Contendo:
Volumes 1 a 5 da saga (ou, capítulos 1 a 44)
Roteiro: Hirohiko Araki
Arte: Hirohiko Araki
900 páginas (os 5 volumes)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.