Crítica | Jornada nas Estrelas: Generations

estrelas 2,5

Obs: Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

Depois do excelente A Terra Desconhecida, o filme que verdadeira e honradamente encerrou a participação da tripulação original da Enterprise na série e considerando o sucesso amealhado pela série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, todos esperavam que o filme seguinte focasse no Capitão Jean-Luc Picard (Patrick Stewart) e companhia. No entanto, o que acabou sendo exigido pela Paramount foi um filme que efetivamente “passasse o bastão” de uma equipe para a outra, o que acabou resultando no quase mítico encontro dos dois mais importantes capitães da série que, porém, ficou bem abaixo do que poderia ter sido.

Para começar, era para toda a tripulação original ter aparecido, mas Leonard Nimoy (que havia até sido chamado para dirigir o filme, mas acertadamente recusou em razão do roteiro) e DeForest Kelley declinaram a oferta, o que levou ao corte de George Takei e Nichelle Nichols também. Restaram, então, Kirk (William Shatner), Scotty (James Doohan) e Chekov (Walter Koenig), todos fazendo não muito mais do que pontas glorificadas no início da fita que mostra, em seu prelúdio, a viagem inaugural da Enterprise-B, comandada por John Harriman (Alan Ruck). Como sempre acontece, um perigo inesperado surge e Kirk, valente, enfrenta-o aparentemente sacrificando sua vida. Corta para 78 anos no futuro e o roteiro joga o espectador diretamente no Holodeck da Enterprise-D, com a promoção de Worf (Michael Dorn) a Tenente-Comandante em uma cerimônia passada no século XIX com direito a cosplay de época por parte de toda a equipe.

O primeiro problema vem justamente da brusquidão com que o texto coloca o Capitão Picard, o Comandante Riker (Jonathan Frakes), Worf, Geordi La Forge (LeVar Burton), Beverly Crusher (Gates McFadden), Deanna Troi (Marina Sirtis) e Data (Brent Spiner) na fita. Não há nenhuma tentativa de se amaciar o “impacto” desses novos rostos para quem porventura só acompanhe Jornada nas Estrelas pelos filmes. Sim, à época da produção, A Nova Geração estava a todo vapor – ainda que tenha sido cancelada ao final da 7ª temporada, poucos meses antes da estreia de Generations – o que tornava estes personagens mais presentes no dia-a-dia de todos, luxo esse que Jornada nas Estrelas: O Filme não teve.  Mesmo assim, apresentações orgânicas teriam feito bem à fluidez narrativa, algo que só acontece em relação a Data, devidamente revelado como um androide que luta para ser humano, recorrendo, finalmente, a um “chip de emoções” que La Forge relutantemente instala e que acaba transformando o personagem no alívio cômico da obra.

No entanto, a pouca cerimônia na apresentação da “nova” tripulação é até aceitável diante da natureza capitular do filme que acaba transformando-o em não muito mais do que um episódio duplo da série (diferente do primeiro filme, de 1979, que parece um episódio só estendido ao extremo). Há o já citado prelúdio, depois o surgimento de um vilão misterioso – o sempre ótimo, mas aqui caricato Malcolm McDowell, como o El-Aurian Soran -, alguns Klingons (sempre eles!) para servirem de bucha de canhão e, finalmente, o tão esperado encontro dos capitães. Não há história bem desenvolvida, apenas um arremedo que funciona mal e porcamente para forçar essa improvável reunião. Um resumo? Aqui vai: Soran faz qualquer coisa para voltar para Nexus, um aleatório cinturão extra-dimensional onde o tempo não tem significado e, no processo, acaba envolvendo a Enterprise em sua genocida estratégia de explodir estrelas para desviar o caminho do MacGuffin e colocá-lo em sua direção. Esse Nexus, é a ameaça misteriosa que é vista no prelúdio e onde Kirk está todas essas décadas, permitindo a reunião nos 20 minutos finais.

Mesmo considerando que estamos lidando com ficção científica, tudo parece muito aleatório e conveniente demais, com explicações soltas aqui e ali, além de uma enorme teimosia em fazer pesadas referências à Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, como quando Data finalmente entende uma piada contada por La Forge sete anos antes, no primeiro (!!!) episódio da série. E não falo de referências leves e rápidas, mas sim de sequências inteiras escritas com esse propósito. Além da momento de iluminação de Data, há diversas outras situações em que o mesmo acontece e isso sem falar na presença da misteriosa Guinan (vivida por Whoopi Goldberg, que não recebeu créditos por sua participação), personagem recorrente na série e cuja presença no filme é mal escrita e utilizada, mais parecendo uma legenda explicativa dos eventos que se desenrolam (ou se enrolam) na telona e um fan service pesado e desnecessário.

Até o tão aguardado momento em que os capitães se encontram é frustrante. Shatner parece estar no automático, sem muito o que fazer (ele até foi indicado ao Framboesa de Ouro por sua atuação aqui) e Stewart, com sua fleuma usual, é frio e distante, o que resulta em química zero que não ajuda em nada no departamento da emoção em vê-los em juntos. Parece um momento burocrático, um carimbo de uma repartição pública, um tique na lista de tarefas de Ronald D. Moore e Brannon Braga, que escreveram o filme e que, à época, eram os responsáveis pela série de TV. Poderia ter sido inesquecível, mas não consegue ser nem somente divertido.

Por outro lado, Generations apresenta, talvez, o melhor uso de efeitos visuais em toda a série cinematográfica até então. Claro, há o natural desenvolvimento tecnológico, mas muitos filmes bem mais antigos que os anteriores de Jornada nas Estrelas se sustentam bem mais firmemente que eles se sustentaram ao longo dos anos. E o sétimo episódio parece ser o “momento de virada” na série, com uso muito eficiente da computação gráfica, além de efeitos práticos (com miniaturas) realmente de tirar o fôlego e, diria, além de sua época. O trabalho foi dividido entre a ILM e diversas outras effects houses e o resultado foi coeso e muito bem inserido dentro do trabalho maior que fez a produção – em razão do eterno corte de custos impingido à Jornada nas Estrelas – retirasse da aposentadoria miniaturas da Enterprise D conforme usadas na série, que sofreram extensos trabalhos de retoques e redesenhos para as tomadas exteriores.

Falando em tomadas, o trabalho de fotografia ficou ao encargos de John A. Alonzo, célebre por seu trabalho em Scarface e Chinatown, e, quando ele tem liberdade e oportunidade, mostra a que veio. Seus planos abertos tanto no planeta Veridian III (filmado em locação no parque estadual Valley of Fire, em Nevada, EUA) quando no espaço e na ponte da Enteprise são muito bem estruturados. No entanto, seu trabalho não chega a ganhar relevo em razão da direção de David Carson (que trabalhara nas séries A Nova Geração e Deep Space Nine), que peca na escolha de pontos de vista e trabalha como se realmente estivesse filmando um episódio, com constantes establishing shots típicos de séries de TV e da montagem de Peter E. Berger (Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa), confusa e com elipses impensadas.

Mais uma vez, como é padrão nos longas da série, a trilha sonora merece destaque. O trabalho ficou ao encargo de Dennis McCarthy, prolífico compositor de trilhas para séries de TV que trabalhar também em A Nova Geração e na composição da música tema de Deep Space Nine. Ele escreve de forma variada, tentando aglutinar musicalmente os estilos da Série Original e de A Nova Geração, com o belo uso de coral na excelente abertura da garrafa de Dom Perignon (safra do ano 2.265) flutuando para inaugurar a Enterprise (em um dos mais geniais product placements que já vi) e com leit motifs tanto para Picard quanto para Kirk em um resultado harmônico que homenageia ambas as séries.

Jornada nas Estrelas: Generations é, em última análise, um filme medíocre que simplesmente não podia sê-lo considerando o encontro dos dois icônicos capitães. O bastão já havia sido passado simbolicamente no filme anterior e não era necessária a reiteração aqui. Mas, já que era algo inevitável, que pelo menos fosse épico. Não foi. Foi, apenas, “mais um filme da série”.

Jornada nas Estrelas: Generations (Star Trek: Generations, EUA – 1994)
Direção: David Carson
Roteiro: Ronald D. Moore, Brannon Braga, com base em história de Rick Berman, Ronald D. Moore e Brannon Braga e na criação de Gene Roddenberry
Elenco: Patrick Stewart, Jonathan Frakes, Brent Spiner, LeVar Burton, Michael Dorn, Gates McFadden, Marina Sirtis, Malcolm McDowell, William Shatner, James Doohan, Walter Koenig,  Alan Ruck, Jacqueline Kim, Jenette Goldstein, Whoopi Goldberg
Duração: 118 min.


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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.