Crítica | Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan

estrelas 4

Obs: Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

Não seria completamente equivocado afirmar que A Ira de Khan é o verdadeiro começo da franquia cinematográfica de Jornada nas Estrelas. Claro, o filme de 1979 existe e não pode ser negado, mas ele não é muito mais do que um episódio estendido feito a toque de caixa por um estúdio que queria se aproveitar da onda de sucesso de obras de ficção científica no cinema, algo que acabou refletindo na recepção pouco calorosa e na bilheteria apenas razoável. O segundo filme, por outro lado, apesar de extremos cuidados com o orçamento e de fazer forte referência à Série Clássica, tem todo o jeito e espírito de um recomeço, algo que inclusive está inserido tematicamente na narrativa, com ótimos resultados.

Desrespeito ou não, para começo de conversa, Gene Roddenberry, criador da série, foi afastado da produção e relegado a um cargo de consultor, pois a percepção geral é que ele teria sido o responsável pelo marasmo e complicações orçamentárias do primeiro filme. Além disso, o Almirante Kirk (William Shatner) é mais uma vez reapresentado, de maneira muito semelhante ao que vemos no começo da obra anterior. A repetição é proposital, claro. Disfarçadamente, o objetivo é realmente partir da proverbial tábula rasa e começar de novo como se Jornada nas Estrelas: O Filme, não tivesse acontecido. Mas calma. Os fãs mais afoitos logo levantarão a voz aqui, mas não quero nem de longe dizer que A Ira de Khan apaga o longa anterior. Ele continua canônico, mas é, para todos os efeitos, ignorado, com Kirk entrando mais uma vez na Enterprise com aquele saudosismo de alguém há muito tempo afastado da ação e que deseja mais do que qualquer outra coisa sentar-se na cadeira de comando de seu “brinquedinho” espacial. Ele é o almirante que não deseja ficar longe do fronte de guerra, exatamente como o vimos anteriormente.

Tudo isso, porém, é estabelecido de forma dinâmica, com a introdução do famoso teste Kobayashi Maru, que se tornaria famoso entre os fãs como sinônimo de situação impossível, o no-win scenario. Quem está tentando lidar com a situação é Saavik, vivida pela estreante Kirstie Alley, uma vulcana como Spock (Leonard Nimoy), que, agora, é o capitão da Enterprise. Ao fracassar, vemos a entrada triunfal de Kirk, em contraluz, já denotando sua imponência e importância, mas também um pouco de inveja por não estar atuante no dia-a-dia. Não demora e a Enterprise sai em um teste simples, cheia de cadetes ainda em aprendizado, somente para acabar enfrentando uma inesperada ameaça vinda do passado de Kirk que é desencavada por Chekov (Walter Koenig) quando ele está procurando um planeta sem vida para testar a bomba terraformadora Gênesis, criada pela Dra. Carol Marcus (Bibi Besch), ex-amante de Kirk e que tem um filho com ele, David (Merritt Butrick).

Essa ameaça é Khan, um super-humano geneticamente alterado vindo do século XX que Kirk e companhia enfrentaram em Space Seed, 23º episódio da 1ª temporada da Série Clássica e que acabou exilado em um planeta junto com seu grupo de soldados. Ricardo Montalban, que vivera o Khan em 1967, volta a encarná-lo, desta feita sob os holofotes de sua fama por seu papel de Sr. Rourke em Ilha da Fantasia. O vilão que ele constrói é um homem corroído pela vingança, uma espécie de versão vilanesca do próprio Kirk.

Segue-se um embate de mentes que o roteiro de Jack B. Sowards os fazem travar sem que Montalban e Shatner dividam a tela por um segundo sequer. A escolha dá oportunidades aos diálogos expositivos se desenvolverem, dando importância ao passado de Khan, explicando o que ele é e como foi o primeiro encontro dele com Kirk, sem que a narrativa perca o ritmo e a fluidez. Além disso, tenho para mim que as canastrices dos dois atores ao mesmo tempo seria demais para ser capturado em celulose de forma sadia…

A grande questão é que o trabalho de Sowards, que se baseou em história de Harve Bennett, permite ótima imersão ao convencer o espectador tanto da ameaça que Khan representa quanto da fragilidade causada pela arrogância de Kirk, que, a olhos vistos, se desenvolve ao longo da projeção. Mesmo com as limitações da atuação de Shatner, vemos, aqui, algo que simplesmente inexistiu no primeiro filme: um arco de crescimento, de desenvolvimento.

E o arco chega a seu ponto máximo na relação de profunda amizade entre Kirk e Spock. Os dois são como dois lados da mesma moeda, com Spock representando a frieza calculista ou a razão e Kirk a explosão de momento ou o coração. Os dois homens se complementam e é fundamental para a narrativa que acreditemos nisso. Afinal, como parte do encerramento da história, Sowards nos brinda com uma belíssima sequência do sacrifício máximo de Spock, talvez uma das mais belas cenas dramáticas da ficção científica, com os dois, separados por um vidro, despedindo-se e completando a famosa frase “as necessidades de muitos sobrepõem-se às necessidades de alguns… ou de um só”, que já havia sido proferida no início da fita e que é a liga temática que continuaria inclusive até o próximo filme.

Nicholas Meyer teve que trabalhar com o controle rígido de um parco orçamento. A Paramount não queria arriscar muito e o dinheiro para a continuação foi menos de um quarto do primeiro filme ou pouco mais de 11 milhões de dólares. Assim, a ordem do dia foi reaproveitamento, com sequências inteiras sendo desavergonhadamente pinçadas de Jornada nas Estrelas: O Filme e transferidas para a continuação, como a da chegada de Kirk à Enterprise. Mas a economia não parou por aí, pois miniaturas, figurinos e sets da produção anterior e até de outros filmes foram utilizados em A Ira de Khan a ponto de 65% das filmagens terem acontecido em cenários preexistentes, apenas com alterações estéticas aqui e ali. Apesar de todas essas limitações, a impressão que se tem, no final das contas, é de algo maior ainda em escopo, já que Meyer trabalhou com variados cenários de estúdio, como o apartamento de Kirk, as pontes de comando da Enterprise e da Reliant, além da estação espacial científica Regula I. Muitas pinturas matte também fizeram parte da ilusão de espaços maiores, além da computação gráfica.

Sim, computação gráfica.

Por incrível que pareça, A Ira de Khan pode se gabar por ter a primeira sequência completamente gerada por computador: a simulação dos efeitos da bomba Gênesis na superfície de um planeta. A empresa que foi encarregada desse trabalho foi a Computer Graphics, então divisão da Lucasfilm, depois que animações tradicionais foram descartadas e uma alternativa mais realista foi pedida pela produção. A ideia da Computer Graphics era usar o trabalho como uma espécie de publicidade de seu potencial, algo que deu muito certo, já que esta divisão da empresa de George Lucas viria, não muio tempo depois, tornar-se nada menos do que a Pixar.

As restrições orçamentárias também afetaram a trilha sonora, já que Jerry Goldsmith, que compusera a do filme anterior com base no tema clássico composto por Alexander Courage para a série de TV, não se encaixava no que a produção podia pagar. A solução foi chamar um jovem protegido de Joe Sill, vice-presidente da divisão de música da Paramount. Seu nome? James Horner. O resultado de mais essa economia foi uma das melhores trilhas de Jornada nas Estrelas, com uma belíssima recriação do tema original e a composição de leit motifs fortes para Khan e também para a amizade entre Kirk e Spock. A precisa sincronização da música por Meyer, então, amplificaram os efeitos das sequências-chave, notadamente a já citada belíssima despedida dos dois grandes amigos.

Aliás, sobre a morte de Spock, é muito interessante notar que Leonard Nimoy não queria voltar para o segundo filme e só foi convencido quando lhe prometeram um inesquecível final para seu personagem. No entanto, depois de filmá-lo, o ator insistiu para que outra sequência fosse escrita (o “lembre-se” que ele diz a Magro tocando em sua testa depois de fazê-lo desmaiar fora da sala do reator) de maneira que tornasse possível a volta de Spock, o que, claro, acontece no filme seguinte, dirigido pelo próprio Nimoy e que acabou, por consequência, gerando uma trilogia temática que só viria a acabar de verdade com Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa.

A Ira de Khan tinha o DNA do fracasso. Um filme anterior não muito bem recebido, cortes bruscos de orçamento, um quase recomeço de história, um ator-chave hesitante em voltar e uso de personagem conhecido apenas pelos fãs da série cancelada muitos anos antes. O resultado, porém, foi a verdadeira ressuscitação da franquia, sequências memoráveis, um vilão inesquecível e um dos melhores filmes de toda a série. Uma prova definitiva de que menos é mais.

Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan (Star Trek II: The Wrath of Khan, EUA – 1982)
Direção: Nicholas Meyer
Roteiro: Jack B. Sowards (história e roteiro), Harve Bennett (história), baseado em criação de Gene Roddenberry
Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, Walter Koenig, George Takei, Nichelle Nichols, Bibi Besch, Merritt Butrick, Paul Winfield, Kirstie Alley, Ricardo Montalban
Duração: 113 min.


Você pode querer

Interessados em revisitar os filmes clássicos de Jornada nas Estrelas? Através deste link, ou clicando na imagem abaixo, você pode adquirir o DVD com todos os filmes.

128097753_1GG

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.