Crítica | Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock

estrelas 3

Obs: Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

A ideia original de A Ira de Khan era mesmo matar o icônico Spock. O próprio Leonard Nimoy somente aceitou atuar no segundo filme da franquia cinematográfica da série clássica quando a produção prometeu-lhe um final épico para seu personagem. No entanto, o ator voltou atrás em sua hesitação de abraçar os novos filmes durante as filmagens, pedindo que o final fosse alterado de forma a tornar possível que Spock retornasse.

E essa volta não demorou nada, vindo logo no filme seguinte, não por coincidência dirigido por ninguém menos do que Nimoy, à frente de seu primeiro longa para o cinema (antes, ele havia apenas dirigido três episódios de séries de TV diferentes e um telefilme). Na verdade, com a mudança do desfecho de A Ira de Khan, a produção alçou voos e criou, na verdade, uma trilogia, já que o “arco de Spock” somente acabaria em Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa. Como “filme do meio”, À Procura de Spock até que se segura muito bem, ainda que o trabalho atrás das câmeras do ator seja apenas mediano.

O roteiro, escrito por Harve Bennett, que criou a história do anterior, é direto e não perde tempo com floreios ou mistérios: Spock está de alguma forma vivo e Kirk precisa recuperar seu corpo, deixado no planeta Gênesis, criado no filme anterior, e levá-lo até Vulcan para uma cerimônia mística ancestral que teria o condão de reviver – ou matar de vez – o personagem. Bennett sabe que esconder o que aconteceu com Spock seria bobagem, até porque o título do filme já praticamente deixa claro o que acontece (afinal, ninguém poderia imaginar encerrar a fita sem que Spock fosse encontrado, não é mesmo?) e ele faz o que pode para tornar o desenvolvimento interessante.

E, para isso, ele usa dois excelentes artifícios.

O primeiro deles é a transferência da mente de Spock, ao final de A Ira de Khan, para a mente de Magro, o que permite um excelente aproveitamento de um DeForest Kelley extremamente rabugento tendo que conviver com surtos “spockianos” quando ele menos espera. Finalmente o potencial do ator – que reputo como o melhor do elenco clássico – é utilizado a contento em um longa da série, demonstrando suas nuances e sua latitude não só ao imitar Spock, como convencendo-nos de seus sentimentos profundos de amizade, lealdade e sacrifício por baixo daquele divertido verniz de turrão e enfezado. Além disso, é particularmente interessante ver Mark Lenard novamente vivendo o embaixador Sarek, pai de Spock, que aparecera pela primeira vez em Journey to Babel, na segunda temporada da série de TV, como o catalisador da busca de Kirk por seu melhor amigo.

O segundo artifício é transformar uma significativa parte do filme em um heist movie ou “filme de assalto”, com Kirk (William Shatner) e equipe tendo que furtar a combalida Enterprise para salvar Spock, já que a Federação se recusa a ouvi-lo. Com isso, Nimoy tem a oportunidade de extrair bons momentos de toda a equipe, especialmente de Scotty (James Doohan), ainda que tudo aconteça às custas de Uhura (Nichelle Nichols), que infelizmente tem sua personagem jogada para escanteio. Mas não se pode ter tudo, não é mesmo? O fato é que o roteiro, aqui, brinca com a leveza, dando espaço para os personagens brilharem para além do canastrão do Shatner, mesmo considerando a gravidade do tema geral da película.

Infelizmente, porém, o roteiro peca em não apresentar um vilão minimamente interessante. O Comandante Kruge, um Klingon que deseja roubar os segredos de Gênesis para usá-los como arma (claro, para que mais um Klingon quereria alguma coisa não é mesmo?), só tem um aspecto interessante: ser vivido por Christopher Lloyd apenas um ano antes de seu Doc Brown em De Volta para o Futuro. Apesar da pesada maquiagem prostética, o ator é imediatamente reconhecível por sua voz e olhos esbugalhados, em um papel infelizmente muito mal desenvolvido e utilizado, quase completamente genérico. Sua ações são mecânicas e pouquíssimo originais, com um senso de ameaça inexistente, apesar da tragédia que acomete David (Merritt Butrick), o filho de Kirk, que, desconfio, se deu muito mais porque o personagem perdeu o sentido narrativo do que qualquer outra coisa, ainda que, particularmente, achasse interessante que ele fosse utilizado mais tarde, possivelmente como um antagonista, ganhando uma morte mais digna do que a que tem aqui.

Além disso, apesar do sucesso de crítica e público do filme anterior, a Paramount não abriu seus cofres e manteve o orçamento apertado demais (16 milhões de dólares, apenas cinco a mais do que o segundo filme e 30 a menos do que o primeiro). Como usar os cenários e props anteriores não era uma opção em razão de um roteiro que trazia uma gigantesca doca espacial da Federação, a nave Excelsior, uma versão mais moderna da Entreprise que viria a ser capitaneada por Sulu (George Takei), uma nave Ave de Rapina Klingon, além de um planeta inteiro criado do nada, a produção teve que se desdobrar em efeitos de sensível baixa qualidade, especialmente os práticos no novo planeta, que realmente dão a impressão que estamos vendo um dos episódios da série original de TV, com pedras de isopor e vegetação plástica. No entanto, nas sequências espaciais e também em Vulcan, ao final, a ILM novamente se destaca e, mesmo com o baixo orçamento, acaba apresentando um trabalho de boa qualidade, notadamente as pinturas matte de fundo para a doca espacial e a criação da Excelsior e da Ave de Rapina e sua tecnologia de invisibilidade.

Mas Nimoy mostra-se um diretor limitado. Apesar de seu desejo ter sido o de criar algo épico, o resultado é perigosamente próximo do sonolento com uma decupagem preguiçosa e burocrática, com alguns lampejos criativos apenas, como na sequência em que Kirk descobre Magro incorporando Spock pela primeira vez. Outro aspecto que merece nota é como Nimoy é inábil em amarrar o filme de maneira apropriada, tendo que se valer de vários pequenos finais para fechar as pontas da narrativa, o que acaba quebrando o ritmo e esvaziando um pouco a volta de Spock para o mundo dos vivos.

O capítulo do meio do que se poderia chamar de Trilogia de Spock na série cinematográfica de Jornada nas Estrelas até pode não retornar a franquia à qualidade vista em A Ira de Khan, mas é uma competente – ainda que irregular – aventura que nos oferece mais do que só pancadaria espacial, como é marca desta longeva e adorada criação de Gene Roddenberry.

Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock (Star Trek III: The Search for Spock, EUA – 1984)
Direção: Leonard Nimoy
Roteiro: Harve Bennett, baseado em criação de Gene Roddenberry
Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, Walter Koenig, George Takei, Nichelle Nichols, Robin Curtis, Merritt Butrick, Christopher Lloyd, John Larroquette, Mark Lenard
Duração: 105 min.


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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.