Crítica | Jornada nas Estrelas: Insurreição

estrelas 3,5

Obs: Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

Depois de alcançar talvez seu nível mais alto com Primeiro Contato, era de se esperar que a franquia cinematográfica apresentasse um capítulo de menor eficiência, mesmo considerando a volta de Jonathan Frakes à direção. Mas Insurreição, o nono e penúltimo filme da série no “universo clássico” é melhor do que a maldição dos filmes “ímpares” determina, apesar de realmente estar bem abaixo de seu praticamente perfeito antecessor.

Apesar de Ronald D. Moore e Brannon Braga ainda estarem ligados às séries televisivas então em andamento (Deep Space Nine e Voyager) e de terem roteirizado os dois filmes anteriores, a Paramount passou a função de roteirista para Michael Piller, que o escreveu com base em história dele e de Rick Berman, ambos produtores executivos das séries. O resultado é uma guinada forte na pegada sombria e existencial de Primeiro Contato para uma direção mais leve, talvez mais parecida com a forma de um episódio estendido de A Nova Geração, ainda que, apesar de muitos críticos assim considerarem Insurreição, particularmente acho uma qualificação exagerada.

A grande verdade é que sim, estamos diante de uma narrativa bastante simplificada que poderia realmente ser condensada em um episódio de 45 minutos. No entanto, diferente do que se viu em Jornada nas Estrelas: O Filme e Generations, Insurreição apresenta material suficiente para garantir a fluidez dos eventos sem que sua duração de 113 minutos realmente pareça forçada. Ajuda muito a repetição da escolha narrativa do filme anterior, com a divisão da ação em dois ambientes distintos: a superfície do planeta lar dos pacíficos Ba’ku e o espaço, na Enterprise-E e na nave dos beligerantes e deformados Son’a (que lembram demais Lady Cassandra, de The End of the World, o segundo episódio da 1ª Temporada da Nova Série de Doctor Who). Com isso, garante-se uma boa dinâmica que não chega a cansar o espectador, apesar de algumas repetições de situações.

Mas Insurreição já começa acelerado, com um breve momento mostrando a dinâmica idílica do paradisíaco vilarejo dos Ba’ku que está sendo observado secretamente por invisíveis Son’a e membros da Federação dos Planetas Unidos em algum tipo de experiência que só aos poucos vai sendo explicada. De repente, do nada, Data (Brent Spiner), que parecia estar ajudando a Federação, aparece completamente surtado, atirando contra seus aliados e protegendo os habitantes locais. Logo percebemos que há algo mais nessa aliança entre a Federação e os Son’a e o Capitão Picard (Patrick Stewart), então, entra na história e começa a investigar o ocorrido por conta própria, levando-o à “insurreição” do título.

O roteiro é hábil o suficiente para manter a história coesa e interessante ao revelar vagarosamente o que está por trás da aparentemente inocente espionagem (eu sei, uma contradição em termos…) dos Ba’ku pelos Son’a, estes liderados por um quase irreconhecível F. Murray Abraham debaixo de pesada (e certamente muito incômoda) maquiagem. A pegada mais aventuresca do texto de Piller diverte e garante uma boa circularidade narrativa que sabe usar muito bem todos os personagens “menores”, especialmente Will Riker (o diretor Frakes) e Deanna Troi (Marina Sirtis), que mostram intensa e divertida química graças às características especiais do planeta que visitam. No entanto, o texto não tenta ir além e o resultado é linear e simplista, o que não é particularmente ruim, apenas desapontador após o instigante Primeiro Contato.

Patrick Stewart, depois de encarnar uma versão espacial do Capitão Ahab no filme anterior, muda completamente e veste novamente seu verniz shakespeareano, com uma atuação nobre e comedida que ganha até mesmo um interesse romântico na figura de Anij (a bela Donna Murphy), uma Ba’ku. Os momentos de tranquilidade representados pelo romance platônico entre os dois são usados de maneira orgânica e funcional dentro da narrativa, justamente para marcar a lição de moral repetida constantemente aqui: valorize cada momento da vida. Um uso inteligente de algo que poderia realmente cambar facilmente para o piegas.

Frakes novamente se destaca na direção, com uma decupagem eficiente que resulta em um filme de personalidade distinta dos demais, mas estranhamente ainda dentro desse universo tão peculiar. A fotografia de Matthew F. Leonetti (que trabalhou com o diretor em Primeiro Contato) trabalha muito bem as filmagens em locação em Sierra Nevada e cenários (o vilarejo) construído em Sherwood Lake, ambos na Califórnia, emprestando um ar de paraíso na Terra que se encaixa bem com a narrativa quase utópica que se tenta construir.

Por outro lado, as sequências externas espaciais, aí incluindo desde a Enterprise flutuando em órbita até as batalhas no espaço, foram todas feitas – pela primeira vez na série cinematográfica – integralmente em computação gráfica e, mesmo considerando a idade do filme e o desenvolvimento da tecnologia desde 1998, fato é que mesmo hoje o trabalho de CGI não envelheceu e ainda surpreende. Ainda que seja possível notar pequenos problemas aqui e ali, notadamente no animalzinho de estimação do menino que primeiro teme e depois se afeiçoa a Data e nas inserções de CGI em cenários práticos, o resultado final é de se tirar o chapéu.

Jornada nas Estrelas: Insurreição honradamente quebra a maldição dos filmes ímpares da série e é um filme surpreendentemente agradável de se ver, ainda que fique à sombra de seu antecessor e dos demais “números pares” da franquia. Mas quem está contando, não é mesmo?

Jornada nas Estrelas: Insurreição (Star Trek: Insurrection, EUA – 1998)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Piller, com base em história de Rick Berman e Michael Piller e na criação de Gene Roddenberry
Elenco: Patrick Stewart, Jonathan Frakes, Brent Spiner, LeVar Burton, Michael Dorn, Gates McFadden, Marina Sirtis, F. Murray Abraham, Donna Murphy, Anthony Zerbe, Gregg Henry, Daniel Hugh Kelly, Michael Welch, Mark Deakins, Stephanie Niznik
Duração: 113 min.


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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.