Crítica | Jornada nas Estrelas: O Filme (Trilha Sonora Original)

estrelas 5,0

Obs: esta crítica contempla a edição especial de aniversário de vinte anos da trilha.

Responsável pela trilha sonora original de Jornada nas Estrelas: O Filme, Jerry Goldsmith certamente não contava com uma fácil missão: ele precisaria nos trazer temas que fizessem jus à importância da série original, respeitando suas origens ao mesmo tempo que conseguissem ser tão icônicos quanto à clássica música de abertura do seriado. Em paralelo, ele precisaria realizar um trabalho tão marcante quanto aquele feito por John Williams em Star Wars, lançado apenas dois anos antes, visto que esse definira um novo padrão para a música dentro da ficção científica espacial. Felizmente, o que Goldsmith realizou mais que cumpriu sua função, nos entregando melodias eternas que muito transcendem suas funções narrativas.

O interessante é que o compositor fora a escolha inicial para trabalhar na série original, mas que não pudera participar do projeto em virtude de problemas de agenda. Goldsmith, então, indicara Alexander Courage para a posição.

O maestro já mostra ao que veio na abertura, o caloroso Ilia’s Theme, que muito bem reflete a influência das peças musicais de John Williams no trabalho de Goldsmith, que enxergava viagens espaciais como algo essencialmente romântico. É válido, mesmo que a título de curiosidade, evidenciar que Jornada nas Estrelas: O Filme e O Buraco Negro são os únicos longa-metragens de 1979 a 2000 com uma abertura musical.

 A tranquilidade da música de Ilia é, então, substituída pelo tema principal com uma marcante sonoridade, que facilmente se traduz em leit-motif. Uma música fácil de ser lembrada ou até mesmo cantarolada, que resume perfeitamente o caráter exploratório de Jornada nas Estrelas, praticamente uma manifestação sonora da palavra audaciosamente, que remete imediatamente às saídas inteligentes formuladas pelo capitão Kirk e equipe. A presença de um trecho nessa faixa que se qualifica como um refrão, que naturalmente aparece sincronizado ao título do filme é importantíssimo dentro da narrativa da obra cinematográfica e desde cedo já sabemos que ouviremos essa melodia algumas vezes ao longo da projeção. Há um deslumbramento inerente às notas utilizadas, que perfeitamente se encaixam com os créditos iniciais, que já trazem os nomes dos atores que vivem os mesmos personagens que encarnaram na série original.

O trabalho árduo de Goldsmith, porém, não para por aí. Logo em seguida ouvimos Klingon Battle e já sabemos o respeito apresentado pelo compositor em relação à importante raça fictícia no momento que esse cria um tema específico para ela. Os cruzadores klingon aparecem em tela e já sabemos que as notas aqui tocadas são dedicadas a eles. Além disso, o maestro precisava apresentar o principal antagonista logo de início, o que não seria algo fácil, já que estamos falando de uma espécie de nebulosa, sem forma física definida (ainda). Para coroar, a sequência ainda é consideravelmente longa, forçando Goldsmith a nos trazer mais uma melodia que prendesse o espectador. Para isso introduz batidas que remetem a uma marcha, se encaixando perfeitamente com o lento movimento das naves, criando uma antecipação naquele que assiste o filme.

Curiosamente, através unicamente da música, já sabemos que os klingons não são os vilões aqui. Os trechos da música dedicados a eles transmitem não malícia e sim o orgulho de uma raça avançada e poderosa, contrapondo-os imediatamente aos trechos, com sons metálicos, que que provocam um nítido desconforto no espectador/ ouvinte diante do mistério a frente das espaçonaves. O trabalho musical aqui é perfeitamente misturado com o visual do filme que vemos o ritmo da faixa sincronizado com o monitor klingon e suas luzes piscantes, como se a leve batida dos instrumentos de percussão, intercalados com as melodias mais altas, fossem, na verdade, diegéticos. Com isso, a tensão inicial é criada dentro da obra, com uma finalização dramática, que se contrapõe com o início da faixa, que se mantém em um ritmo crescente, simbolizando os diferentes estágios do combate que garante a ela seu título.

Somos levados, então, a Total Logic, tocada na cena em Vulcano. Mais uma vez, o compositor simula uma diegese através dos instrumentos de percussão, que soam como os sons da superfície do planeta, com os vulcões ao fundo. O som metálico mais uma vez é escutado e nesse instante já sabemos que Spock sentira o que acabara de acontecer. A música, então, assume um tom ainda mais sombrio e misterioso, que muito bem representam o hermetismo do Kolinahr e a ameaça do que se aproxima. Uma dose de melancolia ainda é inerente à faixa, representando o dilema de Spock. Mas Goldsmith não permite que nos entreguemos a esse sentimento ao encerrar a música retomando o tema principal, o que já anuncia qual caminho o vulcano deve seguir, além é claro de refletir a primeira aparição do capitão/ almirante Kirk no longa-metragem.

A música seguinte, Floating Office evidencia o quão árduo fora o trabalho de Goldsmith. Estamos falando de uma faixa que precisa preencher uma cena expositiva que nitidamente é mais longa do que deveria ser. O maestro, acertadamente decide apostar em nosso deslumbramento em uma melodia que enaltece a tecnologia vigente desse universo, no caso, a da estação espacial em órbita terrestre. São nessas sequências que percebemos com toda a clareza a importância de Goldsmith para a narrativa, visto que ele minimiza nossa percepção da dilatação desse episódio de 50 minutos que fora transformado em longa-metragem de mais de duas horas.

As longas sequências expositivas, porém, não param por aí e logo em seguida temos outra, esta, porém, com uma maior importância. Aqui o compositor nos introduz à The Enterprise, uma faixa que não somente reflete nosso encantamento em relação ao novo modelo da nova nave, como o do próprio Kirk. A música tema novamente é retomada e aos poucos assume um tom saudosista, que ilustra tanto o sentimento do espectador em ver novamente a espaçonave (agora em tela grande), quanto o de Jim, que estivera anos afastado de sua paixão em viajar pelo espaço afora na cadeira de capitão. A melodia devidamente se encerra com a chegada dos personagens ao interior da Enterprise, mostrando mais uma vez o quão essencial é a trilha dessa obra cinematográfica para seu funcionamento.

Leaving Drydock, por sua vez, preenche o som da partida da nave, adotando tons que constantemente nos lembram da ameaça em constante aproximação com a Terra. A antecipação é colocada em evidência aqui, tanto pela nossa expectativa em ver a nave, enfim, ser colocada em movimento, quanto por ver Kirk novamente na posição de comando. O leit-motif aparece em toda sua glória novamente, de forma mais animada, fisgando toda nossa empolgação, visto que o saudosismo já fora trabalhado anteriormente. Um ponto curioso é como essas constantes investidas da música tema espelham o jeito canastrão de Shatner em sua representação dramática do almirante Kirk, tanto na série original, quanto no longa-metragem em si.

Spock’s Arrival, por sua vez, reflete o suspense acerca de quem se aproxima da Enterprise, com tons misteriosos que se transformam em uma melodia novamente saudosista com a entrada do vulcano na espaçonave. O compositor inteligentemente mistura nossa satisfação em ver o icônico personagem abordo à frieza de Spock trazendo breves tons cintilantes que ilustram a fala do antigo primeiro-oficial. Ao término da música, a sensação passada é como se a tripulação estivesse agora, finalmente, completa, visto que todos os membros originais já se encontram dentro da nave.

Logo após prosseguimos para a enigmática The Cloud, cujo papel é transmitir a imponência do antagonista do filme neste primeiro contato da Enterprise com a entidade. A faixa transmite o apropriado tom de mistério, através de um constante som de cordas que permanece ao fundo, como uma sonata, intercalando com tons graves que emitem a imponência do que está envolto na névoa. Em meados da música é criada uma inconstância, gerada por tons breves e agudos a fim de evocar a tensão do espectador.

Após um fade no desfecho da música anterior, somos apresentados a uma melodia que funciona praticamente como uma continuação de The Cloud. Agora, porém, o mistério já tem nome: V’Ger, que garante o nome da faixa, V’Ger Flyover ainda que sua procedência e objetivo sejam desconhecidos. É interessante notar como Goldsmith insere uma forte ameaça na sua melodia, mas essa evoca a magnitude dessa entidade e não a sua suposta malícia. Não estamos em um universo pautado no maniqueísmo – não há lado negro e lado da luz – os tons escolhidos, portanto, buscam causar uma sensação de exploração das profundezas, o desvendar do desconhecido, ou melhor, do temporariamente escondido, como disse Kirk em The Corbomite Maneuver e, mais recentemente, em Star Trek: Sem Fronteiras.

The Force Field chega com um estouro, que traz de volta os sons metálicos escutados em Klingon Battle. Instrumentos de corda e sopro marcam a presença aqui em tons mais dramáticos, graves, que ressaltam a ameaça do “vilão”. A música é, evidentemente, um arranjo que mistura as duas que a precederam, criando uma sensação de que o mistério progressivamente diminui.

Games, por sua vez, aborda o lado humano de V’Ger, personificado pela reconstrução de Ilya. Há um tom evidentemente mais romântico aqui, explorando a relação que existia previamente entre ela e Decker, nos passando a sensação de uma calorosa memória, de um passado ainda não deixado para trás. Sabiamente, Goldsmith mistura com os tons que já ouvimos em outras faixas dedicadas ao antagonista, como uma constante lembrança de que estamos, de fato, diante de uma cópia da mulher. O título ainda reflete a desconsideração da entidade em relação aos sentimentos humanos, visto que ela não os entende.

Chegamos, então, a mais uma música de sequência expositiva, ligada à longa sequência de Spock no exterior da nave, Spock Walk. Aqui, os tons iniciais buscam criar a tensão no espectador através de uma mistura de sonoridades mais agudas, que, posteriormente, são substituídas por notas cíclicas, transmitindo um ar misterioso, de uma revelação ainda não compreendida, garantindo a profundidade do que vemos em tela. É interessante notar o aumento e a diminuição do volume, que evoca em nós sentimentos mistos, que justamente provocam o desconforto objetivado, como se o compositor brincasse com nossas expectativas, cutucando-as através de seus sons.

Inner Workings já nos traz uma interessante variação do tema de Ilia, mesclada com os sons metálicos de Klingon Battle. O curioso é ver como há uma lógica muito pertinente no trabalho de Goldsmith, visto que o arranjo do tema romântico se traduz agora de forma mais sombria, nos provocando uma maior sensação de urgência. Através da faixa, V’Ger é desconstruído, com um músico que busca, através de sua obra, garantir ao antagonista diversas facetas, entendendo a intenção do roteiro, ainda que este seja falho em abordar a entidade plenamente.

Enquanto isso, a faixa seguinte, Vejur Speaks, muito bem representa o tom de ameaça da misteriosa figura através de tons graves, em baixo volume, como uma constante e perturbadora eminência parda, sempre em constante atuação, mas que não necessariamente vista ou até 100% compreendida por nós. O interessante é pegar essa sequência de músicas, iniciada lá em The Cloud e enxergar como o maestro se dedica na construção do antagonista – apesar da divisão em diferentes músicas, podemos tê-las como uma única peça musical, visto que traz temas recorrentes, como em uma bem elaborada sinfonia.

O encerramento dessa sequência ocorre em The Meld, tocada na ocasião do sacrifício de Decker. Sentimos nela o amor de seu personagem por Ilia, ao mesmo tempo que o deslumbramento do que estamos vendo é evocado. Goldsmith sabiamente amarra sua peça musical fragmentada com um arranjo de diversos trechos de seus temas. A sensação de conclusão é ainda garantida pelo tema principal, que marca sua presença no final, de forma mais baixa e em ritmo mais lento, transmitindo um alívio ao ouvinte e espectador, que vê toda a situação diante de si resolvida. A Good Start, que vem a seguir, nada mais é que a continuação dessa faixa e continua explorando o tema principal, sem deixar que esqueçamos de tudo o que passou, através de uma mistura com os tons românticos e outros mais graves, que evocam a ameaça já extinguida de V’Ger. Aos poucos, a música se traduz em tons mais alegres e, em uma nota mais otimista nos leva aos créditos finais, nos preparando maravilhosamente bem para escutarmos, de imediato, a fantástica melodia principal em sua plenitude.

Ao terminarmos o disco da trilha sonora original de Jornada nas Estrelas: O Filme já contamos com a total percepção de que Jerry Goldsmith fora mais que merecedor de sua indicação ao Oscar, nos trazendo um trabalho sólido e coeso, de marcantes temas recorrentes que marcaram não somente o longa-metragem, como a nós ouvintes. É evidente a importância do trabalho do compositor aqui e mais ainda é o seu êxito em conseguir verdadeiramente transformar um filme, de forma que muitas das sequências podem ser facilmente assistidas apenas com o som da música, sem os efeitos sonoros propriamente ditos. Certamente Goldsmith muito mais que superou as dificuldades inerentes ao projeto.

Star Trek: The Motion Picture (Original Motion Picture Sountrack)
Composto e conduzido por Jerry Goldsmith
País: Estados Unidos
Lançamento: 1979
Gravadora: Columbia Records
Estilo: Música Clássica, Trilha Sonora

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.