Crítica | Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato

estrelas 5,0

Obs: Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, é o primeiro longa metragem da franquia completamente dedicado à Nova Geração, cuja série havia sido cancelada meses antes da estreia do filme anterior, com a concomitante Deep Space Nine mantida na ar e Voyager nascendo em 1995. Assim, Jornada nas Estrelas estava, de certa forma, ainda bem viva na mente dos fãs de ficção científica em geral e um novo filme, mesmo com a recepção crítica mais fria a Generations, foi logo autorizado, com orçamento 10 milhões de dólares superior.

E, muito semelhante ao que aconteceu na série de filmes com a tripulação original, quando Leonard Nimoy dirigiu dois filmes seguidos, Jonathan Frakes, o ator que faz Will Riker, também o segundo em comando da novíssima Enterprise-E (já que nada sobrou da D ao final de Generations), assumiu a direção, debutando em longas (ele já havia dirigido episódios de A Nova Geração e Deep Space Nine) e permaneceria na direção também do filme seguinte. E, coincidência ou não, assim como Leonard Nimoy, Frake dirige filme que tem na viagem do tempo seu artifício narrativo principal. Melhor ainda, assim como em A Volta para Casa, Primeiro Contato é excelente.

No entanto, as comparações entre as duas obras param por aí: na qualidade e no uso do artifício narrativo da viagem no tempo. Afinal, os dois não poderiam ser mais diferentes em sua “pegada”. Enquanto em A Volta para Casa a ameaça à Terra é externa à narrativa da série – uma sonda misteriosa que tenta contato com as extintas baleias jubarte, destruindo tudo em seu caminho – em Primeiro Contato ela está intimamente ligada à mitologia de A Nova Geração. Os inimigos são os Borg, uma coletividade alienígena parte biológica, parte máquina que vive de “assimilar” vítimas pela galáxia e surgiu no 16º episódio da segunda temporada de A Nova Geração e que, no antológico episódio duplo The Best of Both Worlds, cuja primeira parte encerra a terceira temporada e a segunda começa a quarta, conseguem assimilar o próprio Jean-Luc Picard (Patrick Stewart), capitão da Enterprise. No filme, eles ressurgem atacando a Terra com uma nova arma: uma esfera que cria um vórtex temporal que leva os seres até o passado da Terra, de maneira que eles possam impedir que o “primeiro contato” do título aconteça, ou seja, o momento em que, com o primeiro voo de dobra (velocidade da luz) dos terráqueos, depois da devastação da 3ª Guerra Mundial, todo o futuro utópico que vemos na série, com a Federação dos Planetas Unidos é criada.

Pode-se notar, apenas com a explicação acima, como o roteiro de Primeiro Contato é profundamente enraizado na série, algo que, em mãos menos hábeis, poderia ser um desastre total. Afinal, um filme baseado em uma série de TV ou qualquer outro material pré-existente precisa ter vida independente do que veio antes e quanto mais ele fica preso à mitologia criada, mais potencial existe para tornar-se hermético e compreensível, apenas, para aqueles fãs do material base. Esse, aliás, é um dos pontos negativos do próprio filme anterior da série, curiosamente escrito pelos mesmos roteiristas de Primeiro Contato.

Digo “curiosamente”, pois, diferente do que vimos no filme anterior, uma claudicante e frustrante experiência em narrativa alquebrada, Ronald D. Moore e Brannon Braga acertam no alvo com perfeição agora, enxertando mitologia pesada em um texto quase que completamente livre de didatismo e perfeitamente cadenciado entre o lado cerebral que aprendemos a esperar de Jornada nas Estrelas e o lado aventureiro, também muito presente na série. É como uma aula desse tipo de roteiro, que não perde tempo e já estabelece Picard como alguém traumatizado por sua experiência passada com os Borg e que consegue ainda detectar sua presença, ao ponto dele já saber que os beligerantes seres estão próximos de invadir a Terra, invasão essa que ocorre em pouquíssimos minutos em uma progressão narrativa espetacular que equilibra imagens e diálogos para deixar muito claro o panorama para não iniciados ao mesmo tempo que massageia o ego dos que conhecem a mitologia profundamente. São referências que abundam, mas nunca atrapalham ou seja tornam o foco da ação.

Quando a ação vai para o passado (para eles, pois ainda é o nosso futuro), o mesmo acontece. O inventor do motor de dobra, Zefram Cochrane (vivido pelo sempre ótimo e carismático James Cromwell) é um personagem também com razoavelmente longas raízes em Jornada nas Estrelas (tendo surgido pela primeira vez ainda na Série Original!) é apresentado eficientemente, criando a primeira grande pergunta do filme: o que é ser uma lenda? Afinal, ele, no futuro desse universo, é o homem responsável por absolutamente todo o sucesso da raça humana. Sem escolha, a equipe da Entreprise acaba contando o que ele será e, como um mulherengo que vive bêbado, ele simplesmente não aguenta o bombardeio de informações. E é muito interessante ver como o roteiro aborda isso, criando frustrações para os dois lados. Riker e especialmente La Forge (LeVar Burton) idolatram a imagem que têm de Cochrane, imagem essa que simplesmente não corresponde à realidade. Do outro lado, Cochrane não quer o que ele em tese se tornará. Pensem em quantas personalidades históricas admiramos e o quão diferentes elas devem ter sido na vida real. É fascinante a abordagem aqui.

Enquanto um lado da narrativa lida com a decolagem do foguete Fênix de Cochrane, o outro lida com uma invasão Borg na própria Enterprise, o que coloca Picard em rota de colisão com seus inimigos mortais. E é prazeroso ver Patrick Stewart atuar com todo seu vigor, demonstrando uma obsessão cega em liquidar os seres cibernéticos que não param de assimilar tripulantes da nave sob seu comando. Picard está pronto para sacrificar todos em prol de sua vingança pessoal. Sua bússola moral é Lily Sloane, do passado, que é levada para a Enterprise para lidar com seus ferimentos. Vivida pela ótima Alfre Woodard, a personagem é intensa e poderosa, uma versão feminina de Picard, mas que não perde a cabeça em razão dos Borg. A metáfora literária utilizada por ela é a mais óbvia possível, mas muito percuciente: Moby Dick. Picard é, por alguns momentos, o Capitão Ahab em sua fúria ensandecida para liquidar a baleia branca que o mutilou. Ainda que haja exagero nas menções à obra de Herman Melville, a construção dessa situação é muito bem concatenada dentro do roteiro a ponto de eu realmente ter preferido que o filme focasse ainda mais tempo em Picard em modo vingativo, já que ele não dura muito tempo assim.

Finalmente, ainda dentro da Enterprise, temos a fascinante situação de Data (Brent Spiner). Ele é um androide e, como tal, não pode ser assimilado, não é mesmo? Pense novamente. A Rainha Borg (Alice Krige), personagem complexo criado para o filme, que reúne atributos humanos e robóticos em uma fusão criativa e sensual, mostra a Data que ele pode ser mais humano ainda do que ele já é ao trocar parte de sua pele sintética por pele humana, dando-lhe sensações nunca antes imaginadas. A cadenciada transformação “frankensteiniana” de Data é ao mesmo tempo bela e bizarra, com Spiner trabalhando profundamente seu personagem com nuances de desejo contido, luxúria mesmo em uma performance que parece se mirar na do sensacional Ian Holm como Ash, em Alien, o Oitavo Passageiro. Aqui, há uma nova pergunta e uma que assombra Data e, por que não, nós todos: o que exatamente é ser um humano? Não espere uma resposta, mas a pergunta é muito bem colocada e trabalhada no típico estilo da criação de Gene Roddenberry.

Com um orçamento mais polpudo, a produção pode se dar ao luxo de também se esmerar nos efeitos especiais. Há pouco CGI comparativamente com o filme anterior, já que ele fica quase que completamente concentrado nos 20 ou 30 minutos iniciais em uma bem coreografada batalha espacial contra um Cubo Borg. Depois, os efeitos práticos ganham destaque, notadamente na variedade dos Borg e no detalhamento da Rainha Borg e na transformação de Data. A criação da Enterprise-E, bem diferente da nave anterior, merece destaque, tomando uma forma mais esguia que mantém o espírito das naves da Federação, mas a diferencia de todas as demais até então. O figurino também ganhou redesenho para acompanhar a nova nave, com uma pegada mais sóbria exatamente como a atmosfera do filme merecia.

Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato é, talvez, a joia da coroa desta franquia cinematográfica. Viagem no tempo, referências fortes à mitologia da série, desenvolvimento de questões inteligente e uma dose da boa e velha aventura são costurados em um roteiro impecável que, por sua vez, é abraçado por uma direção competente e uma produção que faz jus ao texto. É ficção científica da mais alta qualidade para qualquer um, sendo ou não fã da série.

Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato (Star Trek: First Contact, EUA – 1996)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Ronald D. Moore, Brannon Braga, com base em história de Rick Berman, Ronald D. Moore e Brannon Braga e na criação de Gene Roddenberry
Elenco: Patrick Stewart, Jonathan Frakes, Brent Spiner, LeVar Burton, Michael Dorn, Gates McFadden, Marina Sirtis, Alfre Woodard, James Cromwell, Alice Krige, Michael Horton, Neal McDonough, Marnie McPhail, Robert Picardo, Dwight Schultz, Adam Scott, Jack Shearer
Duração: 111 min.


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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.