Crítica | Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira

estrelas 1

Obs: Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

E quando Jornada nas Estrelas estava acertando o tom, vem o próprio Capitão Kirk para derrubar a série novamente, trazendo aquele que muito provavelmente é o pior episódio de toda a franquia cinematográfica. É até difícil de entender como, após o excelente A Volta para Casa, a produção deu luz verde para um roteiro inábil como esse largado na mão de um diretor de primeira viagem em longas como William Shatner, como parte de um pacote de exigências que o ator fizera para voltar ao filme anterior.

Em breve resumo, A Última Fronteira é um mais do que pretensioso filme que coloca a tripulação da Enterprise à procura de ninguém menos do que Deus em um planeta no centro da galáxia, localizado além de algo chamado A Grande Barreira. A inabilidade do trabalho de David Loughery fica patente não a partir da premissa em si (criada por ele, Shatner e Harve Bennett, este co-roteirista do anterior, roteirista de À Procura de Spock e argumentista de A Ira de Khan), mas sim de sua incapacidade em criar personagens e situações minimamente razoáveis e que gerem efetiva curiosidade no espectador.

Iniciando em um planeta desértico que é uma mistura do que vemos nas franquias Mad Max e Star Wars, mas sem qualquer semblante de charme e verossimilhança, somos logos apresentados a um misterioso e messiânico vulcano barbado que parece arregimentar as forças locais para conseguir uma nave espacial para uma busca mantida em segredo. Claro que esta nave acaba sendo a Enterprise, a mesma que vemos em construção ao final do filme anterior e que ainda precisa de extensos reparos. É mais uma vez um filme da série utilizando-se do artificio de uma nave com problemas para equalizar as forças e criar dificuldades intrínsecas à jornada que um roteiro hesitante não sabe resolver de outra maneira.

E o que poderia ser algo minimamente razoável, acaba, na verdade, transformando-se em uma embaraçosa sucessão de gags que tentam obter o mesmo efeito do tom de comédia de A Volta para Casa, mas fracassa fragorosamente. Desde o preâmbulo da fita, com Kirk ridiculamente subindo uma montanha no parque Yosemite com direito a ele, Magro (DeForest Kelley) e Spock (Leonard Nimoy) cantando Row, Row, Row Your Boat ao redor de uma lareira, passando Uhura dançando seminua no deserto (sim, isso mesmo) e uma luta pessimamente coreografada em um bar genérico de Mos Eisley, até sequências longuíssimas em que Sybok, o tal vulcano messiânico vivido por Laurence Luckinbill, tenta fazer lavagem cerebral em Magro e Spock para absolutamente nenhuma função narrativa e nenhum efeito dramático, tudo parece resultado de um trabalho “no automático”, para cumprir tabela, um verdadeiro pastiche entristecido de tudo o que veio antes.

De tudo mesmo. Pois o primeiro filme, por pior que tenha sido, tinha um senso de propósito, um começo, meio e fim para reapresentar a tripulação da Enterprise em uma nova mídia e que, curiosamente, também lidava com a busca pelo Criador. A Última Fronteira não tem objetivo algum que não seja, provavelmente, fazer o público dormir ou dar risadas involuntárias em momentos errados ou esconder o rosto por espasmos de vergonha alheia, já que não há qualquer tentativa de se criar espaço para uma discussão inteligente sobre a existência ou não de Deus, mas sim apenas jogar as informações de qualquer jeito para “ver se funciona”. Um desses exemplos de vergonha alheia, vale citar, é a Grande Barreira, algo completamente tirado da cartola pelo roteiro e que é classificada como intransponível, mas que a Enterprise não tem a menor dificuldade de transpor. Chega a dar nervoso o tamanho da incoerência narrativa. É, no final das contas, uma lição de como não se escrever um filme e, como a proverbial cereja no bolo, um alerta sobre como não dirigir uma obra cinematográfica.

É que Shatner trabalha sem rumo, vagando no espaço como uma nave avariada. Nada que ele tenta fazer realmente funciona, já que sua decupagem é completamente equivocada, o que gera momentos confusos e inacreditavelmente mal montados, como todas as sequências no planeta Tatooi… digo, Nimbus III e o “momento filosófico” em que Magro e Spock têm que enfrentar “seus maiores” medos. A fotografia de Andrew Laszlo (de filmes bons como Viagem Insólita e Rambo – Programado para Matar) não funciona em evocar solidão e desespero no planeta desolado e nem em deslumbrar no tal “planeta Paraíso” que Sybok almeja encontrar. Aliás, a chegada a este planeta é um daqueles momentos de risadas involuntárias diante da reação dos personagens versus o que realmente estamos vendo, ou seja, nada mais do que rochas e deserto com leves tons rosáceos que deixam todos os personagens embasbacados pela “divindade” do local e os espectadores pelo embasbacamento dos personagens ao ver essas imagens tão prosaicas.

Assim como os demais, A Última Fronteira passou por problemas durante a produção e Shatner não foi hábil o suficiente para contorná-los. A ILM não estava disponível e seus serviços seria caros demais para os efeitos necessários, o que fez com que a produção recorresse ao trabalho de mais baixa qualidade de Bran Ferren, além de diversos efeitos produzidos “em câmera”. O resultado é um abismo entre a pretensão da premissa do filme e sua execução, algo que fica muito bem encapsulado pela forma como “Deus” é personificado. Além da questão dos efeitos, o filme foi levado para teste perante a audiência, que acabou rejeitando seu final, que teve que ser modificado às pressas, resultando em algo visivelmente feito sem qualquer preparação.

E o elenco, que havia estado tão à vontade em A Volta para Casa, aqui deixa transparecer o quão fraco é o roteiro. Ninguém está realmente em seu papel, nem mesmo Shatner que por diversas vezes deixa escapar sorrisos fora de hora. É como se fosse possível ler, em sua mente, que ele lá no fundo já sabia do desastre que seria seu filme. Talvez o único aspecto positivo tenha sido a volta de Jerry Goldsmith na composição da trilha sonora, que novamente se mostra o que de melhor tem o filme, assim como foi com o primeiro.

A Última Fronteira tenta ser cerebral, mas é inadvertidamente cômico. Tenta ser uma comédia, mas é um pastiche. Tenta ser Jornada nas Estrelas, mas o máximo que consegue é ser um testamento do que se pode fazer com uma franquia icônica e atemporal. A sorte é que o filme não afundou de vez série cinematográfica.

Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira (Star Trek V: The Final Frontier, EUA – 1989)
Direção: William Shatner
Roteiro: David Loughery, baseado em história de David Loughery, William Shatner e Harve Bennett e na criação de Gene Roddenberry)
Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, George Takei, Walter Koenig, Nichelle Nichols, David Warner, Laurence Luckinbill, Charles Cooper, Cynthia Gouw, Todd Bryant, Spice Williams-Crosby
Duração: 107 min.


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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.