Crítica | Journey

estrelas 5,0

“Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia. Não se vê nada. Não se escuta nada. E no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia…”. A frase é de Antoine Saint-Exupéry no seu clássico O Pequeno Príncipe, mas poderia muito bem ser a sinopse oficial do criativo e tocante Journey, terceiro jogo da thatgamecompany, desenvolvedora dos excelentes Flow e Flower.

Journey segue a mesma sensibilidade dos jogos citados, grande trunfo que destaca tais games na prateleira dos já ótimos jogos indies. Se em Flow o ambiente é subaquático e em Flower uma natureza cheia de grama e flores é o cenário escolhido, em Journey tudo se trata de areia. Durante as poucas – e sensacionais – horas de jogo, o jogador controla o que parece ser um pequeno homem, cheio de vestimentas que lembram as tipicamente árabes. Como uma espécie de nômade, vagando por um deserto permeado, no início, pelo que parece ser um cemitério cheio de lápides, o objetivo final logo fica claro: chegar ao pico de uma montanha vista ao longe. Essa é a simples jornada que o game se propõe a trazer. A questão é como isso acontece.

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Encontrando pedaços de tecidos, parecidos com o que se veste, o personagem ganha por um tempo a capacidade de flutuar, que se tornará uma espécie de voo conforme se encontram mais destes pedaços. Trata-se de um desafio completamente acessível e intuitivo, que ao mesmo tempo em que é um objetivo, também se torna uma sensação ótima – sobrevoar montanhas de desertos simplesmente lindos, com uma textura que dá ao jogador uma imersão emocionante e até emana um calor por ser tão bem trabalhada graficamente.

Essa imersão fica ainda melhor graças à uma das principais características da thatgamecompany: a mudez de seus jogos. Não há diálogos nem falas que contribuam para o entendimento da jornada proposta. O enredo é entendido por pequenas cutscenes ao final das fases que podem ser interpretadas de diversas maneiras. Assim, a experiência de chegar do ponto A ao ponto B torna-se ainda mais particular e íntima para cada jogador, que sente em cada esforço e cada voo um toque seu para alcançar algo que parecia distante em uma primeira olhada. O final do game é um dos mais bonitos nesse sentido, desde o sofrimento ao fazer o básico movimento de andar, até o que pode ser considerado o epílogo do jogo.

Mas o final de Journey só se torna realmente marcante devido ao caminho percorrido. E esse percurso solitário, quieto – a não ser pela brilhante música instrumental de Austin Wintory – e cheio de desafios, ganha um novo contorno quando o jogador se depara com um personagem idêntico ao seu, que age aleatoriamente como se fosse outro ser humano o controlando, fuçando nos cantos da fase, descobrindo segredos e tentando saber como avançar no game. E, de fato, é um ser humano. Mas durante a primeira jogatina é impossível saber ao certo, afinal, o único meio de comunicação é o apertar de um botão que faz o protagonista de Journey falar em alguma espécie de língua. Segurando e soltando, a fala se transforma em um grito. Por meio de tipos de grunhidos, assim, um jogador ajuda o outro e se comunica com outro ser que apareceu em seu gameplay completamente do nada, sem anunciar nome, da onde vem ou o que quer.

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O que acontece é uma troca de ajuda das mais puras em direção à um objetivo comum. O jogo se torna um grande trabalho para ambos seguirem ao pico da montanha que aparece logo no menu inicial. E claro, pode-se deixar o companheiro e demorar mais em determinados lugares – eu, particularmente, não queria ter deixado nunca a parte da areia azul, iluminada por um único raio de luz solar – mas o curioso é perceber, conforme se avança, que companheiros vêm e vão, alguns tomam um significado maior e até viram objetos de preocupação, enquanto outros preferem contribuir apenas em uma parte e logo te deixam. E a jornada continua, inevitavelmente.

Sem usar artifícios linguísticos, reviravoltas surpreendentes, jogabilidades revolucionárias e nem gráficos fantásticos, Journey é uma obra que já marcou época e merece ser jogada por quem é fã de vídeo games e também por quem nunca joga, porque ultrapassa sua mídia e se torna uma experiência íntima, que apenas parece usar a capacidade do console em novos formatos criativos e sensíveis para expressar uma história em um longo deserto. Falar o que ele irradia parece ser de uma presunção típica dos adultos de O Pequeno Príncipe, aqueles que só pensam em números. Mas uma coisa é certa: quem jogar sentirá alguma coisa despertando nesse silêncio arenoso. Porque Journey, sem querer cair no clichê mas já caindo, é mais do que um game.

Journey
Desenvolvedor: thatgamecompany
Lançamento: 13 de março de 2012
Gênero: Aventura
Disponível para: PS3 e PS4

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.