Crítica | Jovens Adultos

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estrelas 3,5Depois do estrondoso e inesperado sucesso de Juno, era de se esperar que Jason Reitman retomasse, em algum momento, sua parceria com a roteirista Diablo Cody, que após o vergonhoso Garota Infernal, necessitava de um script novamente inspirado para recuperar o respeito em Hollywood. Jovens Adultos, segunda criação desta parceria, não alcançou o mesmo reconhecimento do filme sobre a adolescente grávida, mas é inegavelmente mais uma bela realização da dupla, com um texto repleto de diálogos afiados e também um estudo de personagem cada vez mais raro de se encontrar na Hollywood de hoje. De certa forma, Jovens Adultos é a junção do humor ácido e sarcástico do primeiro filme de Reitman, Obrigado Por Fumar, com os dramas e crises existencialistas de Amor Sem Escalas.

Charlize Teron (de Monster – Desejo Assassino e Terra Fria) é Mavis Gary, uma ghost writer de uma série de livros adolescentes que antes havia sido uma febre, mas no momento se encontra no limbo do esquecimento, o que não impede que seu editor pegue no seu pé para entregar o último volume da série. Um dia, Mavin recebe um e-mail de Buddy Slade (Patrick Wilson, de Watchmen – O Filme e Pecados Intímos), seu antigo namorado de colegial, convidando-a para o batizado de sua filha. Mavis toma tal convite como algo pessoal, e parte para a cidade onde nasceu com o objetivo insano de reatar sua relação outrora perfeita com Buddy.

Com um roteiro amparado em cima de uma protagonista aparentemente mergulhada em estereótipos (Mavin é a típica ex-líder de torcida e rainha do baile que namorava o quarteback do time de futebol), Cody e Reitman tem como principal trunfo a construção/desconstrução bastante peculiar de sua protagonista. Apesar de ser uma mulher adulta com seus 30 anos, Mavin pouco (ou nada) amadureceu desde a época do colegial. Mimada, egoísta, egocêntrica, hipócrita… Mavin é a típica anti-heróina da história, uma figura  de personalidade detestável, mas que nas mãos de Cody e Reitman, se torna uma figura interessantíssima de se acompanhar justamente pela maneira inteligente com que a personagem é desenvolvida, trazendo um toque de humanidade, e até mesmo piedade, inesperado para a personagem.

Jovens Adultos é também um filme sobre a desconstrução do sonho americano, quase que uma sátira tragicômica ao que o estilo de vida norte-americano considera como “o caminho para uma vida feliz”. Mavis é uma pessoa aparentemente realizada aos olhos dos outros, mas seu universo é deprimente, problemático e medíocre – ao sair de sua cidade natal em busca de um estilo de vida ambicioso e satisfatório, Mavis se depara com o triste fato de que a inércia, por mais que não aceitemos, se encontra em todo lugar. Por isso mesmo, Mavis vai, aos poucos, tornado-se verossímil aos olhos do espectador, mesmo diante de sua mente amalucada e fantasiosa. Mas ora, o próprio ser humano não é, por natureza, repleto de fantasias, sonhos e desejos? Por mais que a personagem fuja de qualquer simpatia ou carisma, não estranhe se, em algum momento, você sentir algum tipo de identificação com Mavis Gary.

Para tanto, o filme conta com uma Charlize Teron em estado de graça na pele de Mavis, entregando um trabalho de composição tão completo e natural como há muito a atriz não fazia. Teron entrega-se sem nenhuma piedade à Mavis Gay, entregando uma composição de personagem intensa, caminhando por diversas nuances dramáticas e cômicas, onde mesmo com a ausência de carisma da protagonista, nos sentimos interessados e compelidos a acompanhar a trajetória surreal de Mavis. Patrick Wilson, como a ambição romântica de Mavis, faz um trabalho competente e correto como o vitimado Buddy, mas é inevitavelmente engolido quando Teron está em cena, sendo completamente ofuscado pelo brilho da atriz.

Apesar de suas inegáveis qualidades, Jovens Adultos possui um único problema, mas que afeta o resultado da obra de maneira considerável: o desleixo na direção de Jason Reitman. Apesar de contar com seu habitual e delicioso cinismo, Reitman parece conduzir tudo no piloto automático, demonstrando pouquíssimo interesse em narrar sua história com a mesma profundidade estética de seus outros filmes. É um trabalho de direção correto, mas que justamente por isto, acaba criando um certo distanciamento com o espectador, o que poderia ter sido um problema ainda maior, se não fosse o bom resultado do roteiro de Cody e a performance calibrada de Teron.

Mas Jovens Adultos não deixa de ser mais uma produção louvável dentro da filmografia de Reitman, embora os méritos devam ir para outros nomes do projeto. Em meio a tantas comédias banais e dramas convencionais da Hollywood atual, é ótimo poder conferir uma obra que reúne os dois gêneros, sabendo balanceá-los muito bem, além da coragem em trazer uma protagonista às avessas, pelo qual jamais torceríamos, mas que aqui ganha ares atípicos e genuinamente engraçados, além de um inesperado pé na realidade. Um belo estudo de personagem, costumes e idealizações.

Jovens Adultos (Young Adult, EUA, 2011)
Roteiro: Diablo Cody
Direção: Jason Reitman
Elenco: Charlize Teron, Patrick Wilson, Elisabeth Reaser
Duração: 94 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.