Crítica | Jules e Jim – Uma Mulher para Dois

estrelas 3

Jules e Jim – Uma Mulher para Dois é um daqueles filmes obrigatórios na lista de cinéfilos ou estudiosos do cinema. Marco da Nouvelle Vague e da carreira de François Truffaut, é sempre referenciado em manuais de cinema e em retrospectivas históricas, seja pela sua relevância estética ou importância no que tange aos aspectos culturais e sociais que demarcaram o mundo nos idos dos anos 1960.

Filme estuário da história do cinema mundial, este clássico de Truffaut encontra-se presente em outros filmes que buscam, de alguma maneira, perpetuá-lo como um filme necessário, clássico, em suma, de referência. Para isso, basta lembrar-se do drama nacional Cidade Baixa, de Sérgio Machado, ou O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, adorável fábula dirigida por Jean-Pierre Jeunet, quando a personagem-título assiste ao filme e encontra um inseto numa cena de beijo.

Ao longo dos 105 minutos, o filme narra a história de Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre). O primeiro é um alemão tímido e o segundo um francês extrovertido. Em um certo dia conhece a instável Catherine (Jeanne Moreau), quando retornam de uma viagem à Grécia. Da linha tênue entre o amor e a amizade, nasce uma relação entre o trio. Eles vivem, durante a narrativa, algo parecido com o conceito de carpem diem proposto pelos poetas árcades: aproveitar a vida ao máximo, sem limitações e com direito aos excessos que as relações de alteridade nos permitem. Como paisagem histórica, François Truffaut delineia um mundo à beira da Primeira Grande Guerra Mundial.

Como o estouro da guerra, ambos separam-se, reencontrando-se, apenas, algum tempo depois. Nessa relação em trio, onde amizade, amor e sexo encontram-se em profusão, Jules apaixona-se por Catherine, logo em seguida, Jim. As coisas tornam-se conflituosas ao longo da narrativa, tamanha a instabilidade da moça, uma espécie de metáfora plástica para as reviravoltas nos costumes durante aquele momento histórico: além da crise dos valores tradicionais, o mundo vivia o que podemos chamar de auge da libertação sexual e uma crise geral repleta de vazio existencial. Era a Europa no período pós-guerra, marcada profundamente pelas cicatrizes do conflito que mudou o cenário geopolítico do continente.

Jules e Jim – Uma Mulher para Dois foi o terceiro longa da filmografia de Truffaut, indicado ao BAFTA de Melhor filme e atriz, para Jeanne Moreau. Com roteiro assinado por Jean Gruault, em parceria o diretor, adaptado da obra literária homônima, a narrativa é louvada por críticos e amantes do cinema, alçando o filme ao status de montanha-russa de emoções e ode audiovisual ao amor. Uma narrativa que vai além da sexualidade. Repleto de lirismo e afetividade, principalmente no que diz respeito ao relacionamento entre Jules e Jim como “amigos”, o filme parece o prenúncio da efervescência cultural na França, que culminaria no tão relembrado Maio de 1968. Os enquadramentos inusitados e as montagens paralelas demonstram o cuidado com a forma, em narrativas mais conhecidas pela profundidade dos roteiros e das questões sociológicas apresentadas.

Jules e Jim – Uma Mulher para Dois é uma moldura da proposta da Nouvelle Vague: apresentar a importância do homem na narrativa, longe, por exemplo, de muitas narrativas contemporâneas que prezam pelos efeitos especiais, em detrimento do individuo ou da sua coletividade. Os personagens, representados como um feixe de complexidades e ambiguidades (Catherine, talvez, seja a maior representante deste aspecto), são os carros-chefes do filme, tão importantes, ou até mais, que o espaço cênico e a trilha sonora.

O processo de metalinguagem em relação ao filme Jules e Jim é extenso e caberia melhor em uma reportagem ou uma daquelas listas de melhores “nisso” e “naquilo”, fugindo da nossa proposta de especial sobre o diretor François Truffaut. Temos os já citados Cidade Baixa e Amélie Poulain, e em Uma Mulher é Uma Mulher, de Jean-Luc Godard, a atriz Jeane Moreau interpreta a si. Em uma determinada cena, um personagem a encontra num restaurante e pergunta: “como vai Jules e Jim?”. É o cinema refletindo o próprio cinema, num jogo de espelhos onde a ideia é justamente inovar, principalmente nos aspectos estéticos e de recepção.

À guisa de curiosidade, cabe ressaltar a refilmagem Willie e Phil – Uma Cama Para Três, lançada em 1980, obsoleta e de acesso complicado para análise e devida referência. Fica aqui apenas como curiosidade. Entre as fofocas de bastidores, conta-se que na cena onde Jeanne Moreau teve de pular no rio, a atriz filmou sem dublê, pois a sua substituta havia aparecido para a filmagem completamente bêbada. Coisas que faríamos pelo amor à sétima arte, assim como o diretor François Truffaut e toda a sua equipe sempre fez, mesmo nas tramas menos inspiradas e mais insignificantes ao longo da sua brilhante carreira.

Sendo assim, Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, é fruto de uma geração que se formou em cineclubes e cinematecas, através do exercício da crítica e da permanente reflexão no âmbito da produção cinematográfica. Particularmente, o filme possui importância como radiografia da paisagem histórica, cultural e sociológica da França naquele período e serve como guia obrigatório para os interessados em conhecer a história do cinema e a carreira do diretor François Truffaut.

Não considero a produção a obra-prima do diretor, talvez pelo ritmo e pela cadência dos fatos, pela falta de dinamicidade na narrativa, o que não diminui a importância do filme, principalmente pelo fato desta produção ter soprado como um vento forte, que ecoou em outros movimentos de reflexão cinematográfica ao redor do mundo, como o nosso Cinema Novo, o Cinema Novo na Alemanha, o Free Cinema na Inglaterra, dentre outras manifestações artísticas.

Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (Jules et Jim) – França, 1962
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean Gruault (baseado na obra de Henri-Pierre Roché)
Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino, Serge Rezvani, Anny Nelsen, Sabine Haudepin, Marie Dubois, Michel Subor
Duração: 107 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.