Crítica | Julie & Julia

Cinema e gastronomia em várias perspectivas. Esta é a proposta de Julie & Julia, drama edificante que passeia por temas como a escrita no bojo da cibercultura, o vazio existencial de algumas pessoas diante a falta de perspectivas na vida, além de tratar da gastronomia como recurso coesivo dos relacionamentos dos personagens que urdem este tecido narrativo.

Escrito e dirigido por Nora Ephron, o filme lançado em 2009 baseia-se em My Life in France, publicação autobiográfica de Julia Child, mulher que teria inspirado outra a utilizar a culinária como mecanismo para o seu projeto de mudança de vida. Com uma eficiente montagem, graças ao trabalho do editor Richard Marks, a trama costura a vida da chef Child (Meryl Streep) em seus primeiros anos de vida na “arte da culinária” em paralelo ao cotidiano da nova-iorquina Julie Powell (Amy Adams), uma dedicada aspirante aos “encantos” da cozinha.

Entre passado e presente, somos apresentados aos dias de aventura de Julia Child, sentindo-se solitária e em busca de algo que preenchesse seu tempo, haja vista o marido Paul Child (Stanley Tucci) constantemente ocupado, o que a fez jogar-se de cabeça na produção do famoso livro de receitas Mastering the Art of French Cooking (Dominando a Arte da Cozinha Francesa); enquanto isto, no presente, acompanhamos o “The Julie/Julia Projetc”, blog de Julie, focada em publicar, no prazo de 365 dias, as 524 receitas do livro da sua musa inspiradora.

A tarefa não é nada fácil, mas mudará o rumo da sua vida, mesmo que no processo, a aspirante tenha que passar por muitas situações desagradáveis e desanimadoras. Ao escrever em seu blog e começar a ver os acessos dando o devido resultado, Julia anima-se, preenche parte do vazio que a acompanhava, principalmente por conta da atuação profissional frustrada, utilizando-se, tal como Julia Child, da arte da culinária como agente modificador do rumo que a sua vida seguia, pois graças ao seu empenho Julie saiu do anonimato e se tornou uma autora publicada.

Ambas tiveram bastante sorte no que tange aos seus companheiros. Tanto Julia quanto Julie foram encorajadas por seus maridos a seguirem em frente, mesmo diante de críticas e opiniões que as tiravam do foco: transformar o ato de cozinhar numa experiência única. Eric Powell (Chris Messina) é cativante como o marido que ocupa lugar de grande amigo, sofrendo com as frustrações da esposa e alegrando-se diante das boas notícias. Por detrás de todos esses acontecimentos envolvendo os dois casais, há a culinária fazendo o seu papel de unificar as pessoas. Diferente de alguns outros do mesmo subgênero “gastronomia e cinema”, Julie e Julia foca mais no processo, nas escolhas para a realização dos pratos, na cozinha como laboratório, tendo o ato de comer como o desaguar destes outros momentos preparatórios.

Ao longo dos 123 minutos, o filme demonstra-se como uma inspiradora história de vida, entrelaçando bem o passado e presente, ao buscar nos fazer entender que ambas viveram em momentos distintos, mas possuíam mesmo projeto de vida. Para os interessados nos aspectos históricos da culinária, o filme é bastante relevante, pois retrata com humor e didatismo o trajeto de Julia Child enquanto mestre da “arte de cozinhar”.

Conhecida por ajudar muitas pessoas a enxergarem melhor o ato de cozinhar e se alimentar, “Julia Child foi a figura mais importante da culinária estadunidense” e “será sempre lembrada pelo que fez nessa terra, ao inspirar várias pessoas a cozinhar e comer melhor”, afirmou certa vez o chef Anthony Bourdain, do programa estadunidense “No Reservations”. Ao seu mudar para a França com o marido militar, matriculou-se em aulas de culinária em busca de manter o tédio e o ócio afastados.

O que diferencia Julia Child de tantas outras personalidades da cozinha é a sua força de ir à fundo em suas pesquisas, entender os processos de cozimento e talvez o mais importante de tudo, reforçar para as pessoas comuns que a gastronomia de qualidade podia ser exercido por qualquer um, ao preparar um prato em casa, sem necessariamente ir a um restaurante fino e renomado. Como dito por um dos seus admiradores, “ela não era uma simples chef, ela nos ensinou o valor da simplicidade”, tal como a deliciosa comédia dramática em “questão”, narrativa com sua devida importância para o campo da culinária.

Julie & Julia (Estados Unidos, 2009)
Direção: Nora Ephron
Roteiro: Nora Ephron
Elenco: Amy Adams, Chris Messina, Crystal Noelle, Helen Carey, Joan Juliet Buck, Linda Emond, Mary Lynn Rajskub, Meryl Streep, Stanley Tucci
Duração: 129 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.