Crítica | Jumanji: Bem-Vindo à Selva

Jumanji não é o filme de aventura mais brilhante de todos os tempos, mas acabou ganhando um status verdadeiramente cult aqui no Brasil pelas transmissões na Sessão da Tarde. No final das contas, o filme era uma diversão pipoca sem muito esmero, mas que certamente conseguiria ficar guardado na mente de tantos. Na onda de remakes e reboots em Hollywood que vemos nos últimos anos, muito se criticou do anúncio de um novo Jumanji, o qual erroneamente foi atribuído como sendo um desses dois tipos de filmes, quando na verdade é uma continuação. Não se pode comentar que Jumanji é uma obra irretocável que não permite continuação (até Blade Runner teve uma), mas diante de tantas produções ruins por aí baseadas em outras produções que não são lá essas coisas, é certamente surpreendente o que vemos com Bem-Vindo à Selva. Aliás, este filme é melhor que o original.

Para começar, diferentemente do filme original, a narrativa nos joga para a selva que Alan Parrish, interpretado pelo saudoso Robin Williams, foi transportado durante aqueles 26 anos, sem trazer, como feito anteriormente, a selva para a vida real. Se o mesmo acontecimento se repetisse, certamente perderíamos toda a margem de originalidade que poderia ser conquistada, enquanto aqui temos uma história que aprofunda a mata e traz consigo um senso de novidade, mesmo explorando caminhos narrativos conhecidos. Isso abre possibilidades também para que o próprio Alan Parrish, e, é claro, seu intérprete, sejam homenageados levemente com uma pontuação emocionante. Na essência de Bem-Vindo à Selva, esta é uma continuação que faz tributo à figura esplêndida que era Williams, no que tange seus sorrisos e festejos.

Mais interessante ainda é como o filme consegue trazer um frescor para Jumanji como possível futura franquia, sem se ater à fórmula do passado para se estabelecer. O novo longa é justificado em sua própria essência, reinventando sua própria dinâmica. A transposição do formato de tabuleiro para o videogame é perfeitamente cabível, e não poderia soar mais imaginativa. Diante de tantos produtos fracassados inspirados nos games que tantos amamos, é incrível que uma das melhores obras adaptadas dessa mídia acabe sendo Bem-Vindo à Selva. Os gamers mais assíduos, mas até os mais casuais, certamente irão identificar na criação desse universo elementos transpostos dos jogos: as fraquezas e habilidades únicas de cada personagem, as cutscenes que expõem a história do jogo e até mesmo os personagens não jogáveis, denominados NPCs (o mais cômico dos que conhecemos, interpretado por Rhys Darby).

Na premissa do longa-metragem não há grandes novidades que revolucionem o cinema como arte. Muito pelo contrário. Começando no melhor estilo Clube dos Cinco (mas sem o mesmo charme, é claro), quatro adolescentes, com respectivos defeitos estabelecidos logo de cara (e consequentes arcos definidos) irão entrar numa jornada inesquecível ao irem para detenção e acabar dando de cara com uma versão atualizada de Jumanji.  Selecionando personagens diferentes, cada um dos jovens será transportado para o universo de Jumanji e lá passarão por transformações que mudarão suas perspectivas sobre quem são e quais papéis eles têm na vida real. Antes de tudo porém, o objetivo será salvar aquela selva do temível Van Pelt (Bobby Cannavale), um vilão extremamente genérico e sem graça, que, inexoravelmente, acaba tornando-se uma paródia de si mesmo, claramente sem querer.

Dentre as escolhas de avatares, Spencer Gilpin (Alex Wolff) vira o Dr. Smolder Bravestone (Dwayne Johnson). Líder do grupo, mas acima de tudo um adolescente amedrontado, Johnson não poderia estar melhor, sendo uma figura ao mesmo tempo carismática e imponente, apesar de sua figura na realidade não possui nenhum desses dois atributos, o que rende consequentemente um humor de qualidade. Além desta, outra escolha certeira é a de Jack Black, interpretando uma adolescente patricinha, clássica personagem clichê de filmes teen. Apesar da piada sobre celular, a primeira envolvendo o caráter exótico dessa escolha de avatar, ser extasiada ao máximo, não pode-se dizer que o Professor Shelly Oberon não está engraçado. Ele está, e muito disso se deve a boa química do ator com o personagem Alex (Nick Jonas), uma adição surpresa ao elenco que contribui para seu andamento, possuindo uma dose eficiente de carga dramática.

As missões, as quais seguem uma linha básica de videogame, não são muito bem construídas, e a história é para lá esquecível, com um final previsível e formulaico, obedecendo as regras das vidas limitadas e das habilidades/fraquezas de forma burocrática. Em paralelo ao vilão blasé de Cannavale, é interessante que muito do background do personagem seja dado através das cutscenes já citadas. É uma exposição que poder ser caracterizada como eficaz devido unicamente a natureza de si mesma. Outrossim, a complementar o elenco, Karen Gillan introduz uma personagem que cresce a medida que o filme progride, ganhando uma sequência extremamente – e surpreendentemente – cômica e tendo, junto a The Rock, uma química agradável. As piadas, que funcionam acima do esperado, só encontram um cansaço mais considerável na figura de Kevin Hart, não muito diferente do que o ator costuma ser em seus outros papéis. Elas acabam ficando desgastadas, mas isso não quer dizer que o ator não esteja bem. Apenas não tão bem quanto os resto do quarteto está, algo que se evidencia pelo comprimento do filme, mais longo que o necessário.

Em um último plano, a continuação de Jumanji é, acima de tudo, uma agradável surpresa, extremamente divertida, com uma espirituosidade que remete tanto ao filme original quanto aos videogames da modernidade. Com boas cenas de ação manejadas pelo diretor Jake Kasdan, Bem-Vindo à Selva é diversão garantida. Precisava ter o nome Jumanji e se apossar de uma marca já conhecida? Não. Podia ser, por exemplo, como Zathura, adaptação de um livro do mesmo autor de Jumanji, Chris Van Allsburg. Os efeitos especiais, não tão sensacionais quanto poderiam ser, ao menos não são o único pretexto para a existência dessa produção, a qual, para os interessados em uma diversão escapista sem muita pretensão, será certamente um deleite.

Jumanji: Bem-Vindo à Selva (Jumanji: Welcome to the Jungle) — EUA, 2017
Direção: Jake Kasdan
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Scott Rosenberg, Jeff Pinkner
Elenco: Dwayne Johnson, Karen Gillan, Jack Black, Kevin Hart, Bobby Cannavale, Nick Jonas, Alex Wolff, Ser’Darius Blain, Madison Iseman, Maribeth Monroe, Missi Pyle, Morgan Turner, Rhys Darby, Tim Matheson, Marc Evan Jackson
Duração: 119 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.