Crítica | Juno

estrelas 4

Quando lançado, Juno foi apontado por muitos como o Pequena Miss Sunshine daquele ano. Salvo as exceções, as afirmações não deixam de ser infundadas: tal qual o filme que deu a pequena Abigail Breslin uma indicação ao Oscar e premiou Alan Arkin com uma estatueta de ator coadjuvante, Juno foi realizado de forma independente, o filme surgiu primeiramente através de festivais alternativos, e logo se tornou o bicho-papão da temporada de premiações. O sucesso é compreensível: após ter chamado a atenção da crítica com o pertinente Obrigado Por Fumar, o diretor Jason Reitman volta suas lentes para uma temática mais intimista, mas que ao contrário do cinismo de Obrigado Por Fumar, adota a simplicidade para narrar sua história.

Simplicidade, aliás, é a palavra-chave de Juno. Até porque a própria abordagem do roteiro da ex-stripper e extreante Diablo Cody exigia um olhar mais terno e sensível, afinal, a história de uma garota de 16 anos que descobre estar grávida é algo delicado para se contar, necessitando do timing correto para que as coisas não saiam dos eixos. Juno é eficiente nesse sentido, tendo como mérito não apenas a direção cheia de ternura de Reitman ou o afiadíssimo roteiro de Cody, mas também as calibradas interpretações de seu elenco.

Juno (Ellen Page, de MeninaMá.Com) é uma estudante de 16 anos que descobre estar grávida do amigo Bleek (Michael Cera). Ao contrário do que sua personalidade parece mostrar, Juno sabe que não possui responsabilidade suficiente para cuidar de uma criança, e opta pelo aborto. Mas logo muda de ideia, e resolve dar o bebê para a adoção, a fim de que a criança possa ter uma família que a cuide e crie com carinho. Com a ajuda de sua amiga Leah (Olivia Thirlby), Juno conta a novidade para o pai (J.K. Simmons) e sua madrasta (Allison Janey), e após um tempo, se depara com o casal Vanessa (Jennifer Garner) e Mark Loring (Jason Bateman), que desejam adotar um bebê devido a impossibilidade de Vanessa em engravidar. Querendo apenas fugir da real importância de sua situação, Juno decide doar seu bebê para o casal, mas a realidade ainda em formação de Juno se choca com a convivência conflituosa do casamento entre Mark e Vanessa, o que acarreta algumas situações e aproximações improváveis.

Repletos de diálogos afiados e lotados de auto-referências (desde bandas como The Carpenters e Moot The Hoople até filmes de diretores como George Romero), Juno vê em sua personagem-título seu principal ponto de apoio. Descolada, rebelde e ácida, Juno é a típica adolescente de personalidade ainda em formação, que acredita possuir maturidade suficiente para encarar as responsabilidades da vida, mas no fundo, apenas tem medo das consequências de seus atos impensáveis, e na maioria do tempo, procura fugir deles. A construção do roteiro sobre a protagonista ganha pontos pela delicadeza e honestidade com que a molda perante os olhos do público, que de início apenas vê uma jovem diante de uma situação complicada e assustadora, mas aos poucos vai percebendo um novo senso de responsabilidade crescendo em Juno, que na realidade, está apenas enfrentando uma das muitas situações difíceis que a vida nos prega.

Cody e Reitman sabem que abordagens como estas não são inéditas no cinema, e ambos optam por narrar as desventuras de Juno através de uma narrativa carregada de ternura e sensibilidade (que geral algumas cenas realmente comoventes), mas também com muito bom humor, evitando que o filme caia na pretensão de querer soar “sério” demais. Para isto, o filme conta com uma variedade de personagens, cada um com seu objetivo dentro da trama. Dentre eles, destacam-se o pai e a madrasta de Juno, que abrem um certo debate quando, estranhamente, demonstram uma grande compreensão pela situação de Juno, mas sem jamais deixar de demonstrar o amor e o afeto que possuem pela jovem. Os personagens Mark e Vanessa também chamam a atenção pelo contraponto que representam um para o outro: enquanto que ela se mostra ansiosa pela vinda do bebê e dedicada em lhe dar o melhor, ele se mostra pouco à vontade e ainda indeciso sobre suas escolhas acerca da situação.

Ellen Page, na época com 21 anos, toma o filme para si. A atriz demonstra possuir um incrível talento para compor Juno de maneira precisa, com tiques e trejeitos característicos que ajudam a denotar o nervosismo da jovem diante desta situação. Page está extremamente confortável em cena, sabendo interagir de maneira agradável com os diálogos de sua personagem, que em pouquíssimos momentos deixam de soar naturais ao saírem da boca da atriz. Com desenvoltura e versatilidade digna de uma grande atriz, Page faz de Juno uma figura apaixonante e cativante, oscilando com perfeição entre as diversas emoções que tomam conta da personagem.

O resto do elenco, felizmente, também é competente o suficiente para não permanecerem à sombra de Page. Michael Cera está bastante carismático como o tímido Blake, que assim como Juno, pouco sabe como lidar com a questão da chegada de um filho. Cera, aliás, é competente ao exemplificar as posições de seu personagem, que se de início aceita a impossibilidade imposta por Juno em tomar alguma decisão sobre o assunto, aos poucos deixa claro sua indignação diante desta negação da jovem, quando o fato é que sua opinião sobre a questão deveria ter tanta importância quanto a da própria Juno. Apesar de jovem, Bleek sofre em seu intimo como qualquer pai de primeira viagem, algo que Cera consegue demonstrar muito bem. Jennifer Garner, atriz sempre carregada no overacting, surpreende pela forma contida e tocante com que encarna Vanessa, protagonizando ainda um dos momentos mais emocionantes da fita. Jason Bateman está perfeitamente adequado como Mark, o marido irresponsável e ainda indeciso sobre o que quer para aquele momento. Bateman faz um trabalho maravilhosamente sutil, e para comprovar isto, basta reparar em sua reação no momento em que Juno pergunta sobre o seu ânimo em se tornar pai. J.K. Simmons e Allison Janey, divertidíssimos, completam o time das boas atuações.

Talvez por ter feito um trabalho mais contido e sem muitas grandiosidades, a direção de Reitman, apesar dos belos momentos concebidos (sem trocadilhos), pouco se destaca aqui, deixando o trabalho para os diálogos maravilhosos do roteiro de Cody somados ao talento do elenco. Talvez o trabalho extremamente básico do diretor incomode, mas também impede que a obra tente alcançar grandiosidades desnecessárias. Seu principal acerto está na trilha sonora, repleta de canções agradabilíssimas como All I Want Is You, A Well Respected Man, So Nice So Smart, Sea of Love, a tocante Anyone Else But You (reprisada por Page e Cera no maravilhoso plano final do longa), entre diversas outras.

Ao final, Juno se confirma como uma experiência graciosa e irresistível, e apesar da falta de originalidade, cativa por sua abordagem sincera e envolvente sobre o tema.

Mais um ponto na filmografia de Jason Reitman.

Juno (idem, Canadá/EUA, 2007)
Roteiro: Diablo Cody
Direção: Jason Reitman
Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, Allison Janney, J.K. Simmons, Olivia Thirlby
Duração: 96 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.