Crítica | Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros

estrelas 2

Vinte e dois anos se passaram desde que conhecemos o Jurassic Park original e desde então o clássico ganhou duas continuações, com a terceira estreando agora em 2015, com um considerável espaçamento desde a última, Jurassic Park III, de 2001, anos esses que nos deixaram sedentos por mais das fantásticas criaturas trazidas de voltas à vida pela magia do cinema. Ao mesmo tempo, esse período ainda serviu para nos fazer esquecer o trauma deixado pelo terrível O Mundo Perdido, possibilitando, inclusive, um vislumbre de esperança por Jurassic World, mesmo com os raptors treinados que vimos nos trailers. Infelizmente, a esperança vai por água abaixo já na metade da nova obra.

Não que O Mundo dos Dinossauros seja um fiasco completo; ele é um filme que permanece no limiar do divertido, mas sem oferecer nada de novo, como fizera o original. Nele voltamos para Isla Nublar, onde um novo parque foi criado (eles não desistem, não é mesmo?), dessa vez intitulado Jurassic World, um gigantesco resort que ocupa praticamente toda a ilha com diversas atrações e inúmeras espécies. A projeção é iniciada com Gray (Ty Simpkins) e Zach (Nick Robinson), dois jovens irmãos que vão passar um final de semana no parque com sua tia, Claire (Bryce Dallas Howard), que administra o local. A narrativa rapidamente se divide e sob o ponto de vista de Claire e Owen (Chris Pratt), ex-soldado da marinha que supervisiona o estudo da mentalidade dos raptors, somos apresentados ao Indominus Rex, uma espécie de predador criada em laboratório para trazer mais visitantes ao parque. Naturalmente esse novo dinossauro, altamente inteligente, escapa seu confinamento e o resort se torna um verdadeiro inferno.

A estrutura utilizada pelo roteiro evidentemente tenta mimetizar inúmeros aspectos do filme original. Gray e Zach são utilizados como a porta de entrada para o Jurassic World. Através deles vemos as atrações, que, por sua vez, são posteriormente trabalhadas mais a fundo quando a problemática central se estabelece. A obra não poupa esforços para surpreender o espectador, ao mesmo tempo que tenta apelar para sua nostalgia, o tema criado por John Williams há mais de vinte anos é utilizado amplamente em variações por Michael Giacchino, no primeiro terço do longa e não podemos deixar de sentir que houve um certo exagero, no qual a música está presente nos momentos errados, ao invés de entrar triunfalmente em pontos chave da história. Em toda sua magistralidade, ela aparece em sequências que sequer vemos um dinossauro, o que soa como uma grande ironia, afinal paisagens naturais apenas não evocam aquilo que sentimos em Jurassic Park, mostrando que algo claramente está faltando.

A progressão narrativa se dá de maneira óbvia, apoiando-se no suspense criado pela gigantesca e desconhecida criatura. Nesse ponto, Jurassic World realmente consegue se sobressair, imprimindo no espectador uma nítida tensão quando a criatura está em tela, ou até mesmo quando não sabemos seu paradeiro. O medo, contudo, dá lugar ao riso com os inúmeros twists que surgem ao longo da trama, a cada ponto Indominus ganha uma nova dimensão e elas não são nem um pouco trabalhadas. No final das contas, ele é apenas um carnívoro grande e inteligente, quando poderia ser abordado muito mais criativamente. A situação ainda complica quando entramos na direção amadora de Colin Trevorrow, que traz de seus atores situações simplesmente risíveis, quando não burocráticas e sem qualquer emoção, ao ponto que nem mesmo o carisma de Chris Pratt consegue salvar seu personagem. O exagero é desconfortável em inúmeras sequências, tanto com personagens secundários quanto com os principais e a tentativa de formar um casal entre Claire e Owen jamais funciona. Isso sem falar na fútil tentativa de criar um vilão através do ótimo Vincent D’Onofrio (que brilhou recentemente na série Demolidor), que aqui aparece completamente apagado pelo clichê. Os atores parecem simplesmente não saber o que fazer em tela, deixando nossa imersão totalmente nas mãos do CGI dos dinossauros.

Esse, por sua vez, convence com o Indominus Rex, mas não consegue nos prender com outras criaturas. Os velociraptors, por exemplo, ora soam tão verdadeiros quanto no primeiro filme e ora apenas uma mera criação de computador. O choque maior, porém, é o famoso T-Rex, que não traz nenhuma sombra do temor que exercia em Jurassic Park. É interessante notar como sua aparição há vinte e dois anos consegue parecer mais bem feita que algo feito hoje em dia, aspecto naturalmente provocado pela pouca utilização de efeitos práticos, os quais dão as caras em pontuais sequências da obra, em geral quando a fotografia opta por planos fechados, naturalmente. John Schwartzman nesse quesito não inova e se apoia excessivamente no famoso plano em close do dinossauro tentando cheirar a presa ou olhando para ela, algo que ocorre dezenas de vez ao longo do filme e chega a cansar.

O suprassumo do exagero, contudo, vem no término do longa, que não irei estragar, mas que traz reviravoltas em cima de reviravoltas da maneira mais forçada possível, a ponto de provocar risadas na audiência. O apoio exagerado no CGI, aqui, destrói, por fim, aquela esperança que tínhamos e nos faz querer voltar para o parque original, cuja essência não conseguiu ser revivida mesmo com as incontáveis referências explícitas ao longo de Jurassic World. Essa característica, aliás, combina mais com a narrativa superexpositiva que, inclusive, traz Chris Pratt entrando em quadro para oferecer uma explicação como Rod Serling fazia nos episódios de Além da Imaginação. Perdoem-me, mas é surreal.

Como fã incontestável de Jurassic Park é realmente uma tristeza constatar que sua mais recente continuação jamais atingiu sequer a camada mais exterior da qualidade do original. Mais uma vez, trata-se de uma obra divertida, mas nada mais que algo para se ver com os amigos, esperando algumas boas risadas e uma tensão básica do cinema hollywoodiano. Pensando melhor agora, nenhum ponto do filme mereceria ser acompanhado do maravilhoso tema criado por John Williams.

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World – EUA, 2015)
Direção: Colin Trevorrow
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Omar Sy
Duração: 124 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.