Crítica | Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros

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Contém pequenos spoilers.

Jurassic World é o novo. Jurassic Park é o velho. Existe um conflito poderoso na retomada da franquia, consideráveis anos após o problemático Jurassic Park III. Ao pensarmos nesse filme, nesse suposto ar fresco para os dinossauros como possibilidades cinematográficas, é inegável creditar a Colin Trevorrow e os demais responsáveis pela realização da obra uma ousadia ambiciosa. Afinal, se Star Wars: O Despertar da Força foi a morte do passado, Jurassic World é a invalidação dele. Em cena pontual, um dos personagens fala, sobre o interesse do público que visita o parque, finalmente aberto, na mesma ilha do primeiro filme, que os dinossauros não são mais impressionantes. Que eles querem algo novo, melhor. A associação não é difícil. O público da década de 90, aos olhos de Trevorrow, se contentou com pouco. Apesar de Jurassic World, em camadas bastante superficiais, ser um fan-service ambulante, com o retorno de carros icônicos, situações icônicas e dinossauros icônicos, o longa-metragem é, dentro do que a obra se propõe, uma declaração de reinvenção, ou então, destruição, calcada em muitas das piores características que o cinema, hoje em dia, possui em termos de orçamentos gigantescos visando bilheterias estrondosas. Um parque já não é mais suficiente, mas sim um mundo, maior, melhor e com mais dentes, além de alguém para explicar tudo o que está acontecendo em tela, como um tutorial para que sejamos “permitidos” desfrutar da experiência.

As qualidades da obra, como entretenimento global, são as mesmas de sempre: efeitos especiais maravilhosos e diversão despretensiosa, sem muitos riscos. Os acertos evidenciam-se dessa forma, certamente. Como transformar os respectivos méritos em um bom filme, porém, é onde Jurassic World começa a errar. Primeiramente em sua história e, consequentemente, em seu roteiro. Por causa de um público mais exigente, incapaz de se contentar apenas com dinossauros (ou, presunçosamente, com Jurassic Park), a abertura do parque vem aliada com o interesse dos cientistas na criação de uma criatura geneticamente modificada, porque, provavelmente, essa será uma boa ideia. Para variar, ela não é, criando-se uma obra com caráter bastante previsível, uma afirmação que sofre pequena ruptura no terço final da obra, repleto de reviravoltas, algumas inteligentes, algumas extremamente forçadas, mas nenhuma suficiente, justificável. Ao falarmos do texto da obra, assinado por quatro pessoas, estamos falando do descompromisso com a aceitação de um público inteligente, subestimado, portanto, em prol de um tratamento preguiçoso em condução narrativa e costura, que prioriza as saídas mais fáceis, mais óbvias e, às vezes, as que não fazem menor sentido, necessitando de uma suspensão de descrença enorme. Por que não avisar logo ao herói do que o dinossauro geneticamente modificado é feito?

Curiosamente, é em um dos tantos paralelos possíveis de serem traçados entre uma obra e outra que Jurassic World encontra o seu potencial: a cena do dinossauro adoecido, sendo cuidado pelos protagonistas do filme original, retorna, adaptada para um cenário no qual uma ameaça mata animais por puro esporte, algo mais humano que bestial. Nessa retomada, similar ao icônico momento do clássico, um dos poucos usos de animatrônicos neste filme, Jurassic World extrai o máximo que consegue do espectador em um âmbito emocional, visto que o resto é deveras superficial. Nesse resto, opta-se por criações integralmente feitas no computador, as quais funcionam bem, mas têm prazo de validade. O íntimo da relação entre homem e criatura é saboreado pelo roteiro, em especial, na conexão do personagem Owen (Chris Pratt) com os velociraptors, algo muito mais bem resolvido que a inacreditável comunicação de Alan Grant com essa espécie de dinossauro na terceira aventura da franquia. Deixando de lado o insuportável par de crianças, o destaque, apesar de Pratt liderar a jornada com muita carisma, vai mesmo para a tia deles, uma das cabeças do parque, interpretada por Bryce Dallas Howard. A personagem Claire subverte algumas noções do gênero, sem que a sua transformação torne-se algo impossível de ser acreditado. Ademais, as interpretações de Irrfan Khan – outro personagem tomando uma estúpida decisão – e Omar Sy ficam em segundo plano, enquanto o papel dado a Vincent D’Onofrio é horroroso, risível, quase como uma auto-paródia do seu significado: uma constante revisitação aos mesmos vilões, agora satirizados por não serem suficientes.

Sendo assim, não deve surpreender o espectador saber que, nos planos originais da obra, uma cena continha o medonho Indominus rex destruindo um animatrônico de T-Rex do parque. O diretor do longa clássico, Steven Spielberg, teve que impedir tal representação, claramente levando o espectador à ideia de que animatrônicos são inferiores às imagens geradas por computação gráfica. Por outro lado, quando surgem os contrastes menos prepotentes, como a luta final, na qual os dois antagonistas do filme original enfrentam o antagonista desse, Jurassic World verdadeiramente empolga. O parque em si também é magnificamente descoberto pelo espectador, longe do rústico da obra original, aproximado do tecnológico futurista e, em suma, destoante da ideia trazida com os dinossauros, primitivos – uma antítese interessante. Contudo, percebam que, enquanto no filme original o tema clássico encontrava o seu ápice na primeira aparição magnífica dos dinossauros, aqui, ao abrirmos as janelas de um quarto, cômodo e confortável, o “mundo dos dinossauros” é introduzido ao espectador, observando mais construções que criaturas de fato. O parque é o real espetáculo. A tecnologia enfrenta a natureza. Enfim, pode até ser que, nessa realidade, as pessoas não se impressionem mais com os dinossauros, mas, na nossa, Jurassic Park continua maior, mais forte e com mais dentes numa escala do que é impressionante.

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World) – EUA, 2015
Direção: Colin Trevorrow
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Omar Sy
Duração: 124 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.