Crítica | Jurassic World: Reino Ameaçado

Como qualquer fórmula que se preze, o esgotamento é algo inerente e até mesmo inevitável, em especial quando aquela ideia é sugada a exaustão e se deixa esgotar em seu próprio conceito. Quando Hollywood aderiu a onda dos remakes não muitos anos atrás, a sucessão de reformulações não demorou para que perdesse o poder de cativar o público, e para manter o fascínio pelas mesmas ideias que deram certo no passado, uma nova mina de ouro foi descoberta: os prequels, os spin-offs ou, muito mais atrativo, a continuidade de franquias que fizeram história no século anterior.

Não è à toa que a saga Star Wars, após ressuscitada por J.J. Abrams, têm se mostrado muito mais lucrativa do que as duas trilogias anteriores (com uma forcinha da inflação) com a expansão daquele universo, e igualmente, os dinossauros de Steven Spielberg que encantaram o público nos anos 90 ganharam uma nova chance de cativar esta nova geração com a expansão da primeira ideia do clássico Parque dos Dinossauros: a construção de um parque temático onde o público pudesse se maravilhar com os único seres jurássicos vivos no século XXI. Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros, infelizmente, era um filme totalmente contrário as regras que cimentaram a eficiência do original de Spielberg, e se ocupava de personagens banalizados, conflitos rasos (lembram como o original de 93 estabeleceu tão bem seus personagens com pouquíssimo a dizer?), clichês desesperados e uma apatia na ação que era ressaltada pelo abuso de efeitos especiais que quebravam a magia proposta. Que saudade deu dos animatrônicos.

Como a grande atração que é, entretanto, a jornada dos dinossauros (e aqui isto felizmente se aplica, pois a aventura é muito mais sobre eles) jamais teria parado mesmo após a destruição do parque, e agora a existência dos dinos se encontra ameaçada quando o vulcão que se encontra na ilha do Jurassic World entra em atividade, colocando todas as espécies em risco de extinção. Naturalmente, Claire Dearing (Bryce Dallas Howard, sempre cativante mesmo com uma personagem tão ingrata para seu talento) é convocada para tentar salvar os animais após uma decisão governamental que opta por deixar os dinossauros à mercê do vulcão, e não surpreendentemente, Claire recorre a Owen (Chris Pratt, ainda chato com sua pose exibicionista de galã) para dar cabo na tarefa. E em mais uma virada tão previsível quanto a aproximação destes personagens, nada sai como planejado.

Para alguém que assumiu o controle do barco já em navegação, o diretor J.A. Bayona (do belíssimo O Orfanato, mas também do risível O Impossível) assume o controle do leme com um pulso firme respeitável (Colin Trevorrow, com meus agradecimentos, abandonou a cadeira de direção quando foi convidado para se envolver com o vindouro Star Wars para ser demitido logo em seguida, mas ainda creditado aqui), e empresta muito de sua experiência no controle dos competentes efeitos digitais e até mesmo da manipulação das imagens para criar momentos de puro horror. Pois sim, Reino Ameaçado em muito se aproxima de uma espécie de terror contemporâneo com seu jogo de luzes, sombras, enquadramentos e cenários medievais (a mansão repleta de janelas e parapeitos) para acentuar a tensão das cenas de perseguições, como ocorre no clímax. Mas o destaque, obviamente, está no sensacional plano-sequência aquático que ocorre durante a erupção do vulcão, a prova do quanto o diretor se sente à vontade com sua câmera para a manipulação das imagens. E as homenagens ao clássico de Spielberg, é claro, não ficam de fora.

Bayona, infelizmente, não voltou a ser o bom contador de histórias que vimos em O Orfanato, e é notável que não há qualquer tentativa de sua parte em ultrapassar a barreira do pacote básico que o roteiro de Derek Connolly envolve a aventura. Em especial na concepção dos personagens, desde os vilões caricaturais que parecem diretamente saídos de alguma aventura carnavalesca dos anos 60 (e claro, tinham que ser russos) até o coadjuvante que está ali somente para gritos histéricos e ataques de pânico cômicos que, no fim das contas, não arrancam risada nenhuma. Ao menos os flertes entre Claire e Owen, algo que travou O Mundo dos Dinossauros, aqui é relegado a três ou quatro cenas, o que até mesmo permite que Bryce Howard se livre da sombra da figura de Pratt e assuma posição mais ativa no roteiro (e como não dar um sorriso com o primeiro close em seu sapato?).

Da mesma forma, não há qualquer forma ou peso nos arcos dramáticos que Connolly insiste em investir, e mesmo a relação entre Owen e Blue parece mal desenhada por um script que, em duas ou três palavras, crê que já estabeleceu um elo de conexão justificável entre o homem e a criatura. A garotinha Maisie, vivida por uma ótima e determinada Isabella Sermon, é vítima do twist mais covarde e despirocado do roteiro, e que não traz absolutamente consequência nenhuma para a trama. E mesmo a pincelada na velha questão de como o ser humano está continuamente cavando sua cova ao entrar em guerra contra a natureza se leva mais a sério do que deveria, por mais que isto nos traga a oportunidade saudosa de rever o Dr. Ian Malcolm, novamente interpretado por Jeff Goldblum.

Os dinossauros de Spielberg, infelizmente, ainda não encontraram a renovação que tanto buscam, e por mais que esta nova aventura não passe com indiferença (e é a primeira que consegue tal feito após o original), ainda faz falta o jeitão inteligente e econômico, sem esse excesso de barulheira e luzes, com que Spielberg deu vida ao livro de Michael Crichton. Jurassic World segue preenchendo todos os requisitos dos reavivamentos de franquias do passado, e diverte muito durante suas duas horas, mas sem qualquer grande mérito para além disto, mesmo com a bem vinda adição de Bayona. Nossos dinossauros merecem mais.

Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom, EUA/Espanha – 2018)
Direção: J.A. Bayona
Roteiro: Derek Connolly e Colin Trevorrow
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Jeff Goldblum, Ted Levine, Toby Jones, James Cromwell, B.D. Wong, Geraldine Chaplin, Isabella Sermon, Rafe Spall
Duração: 130 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.