Crítica | Justiceiro: Círculo de Sangue (minissérie completa – 1986)

estrelas 3

Apesar desta minissérie do Justiceiro não ter propriamente um nome, o título do primeiro número, Círculo de Sangue (Circle of Blood) tornou-se o nome pelo qual ela é mais conhecida, tendo sido publicada assim no Brasil mais de uma vez. Trata-se do primeiro título solo do personagem que, desde sua primeira aparição em O Espetacular Homem-Aranha #129, de 1974, só vinha participando como coadjuvante em outras publicações já estabelecidas.

Aliás, a forma como a Marvel Comics testou as águas de aceitação de um título do Justiceiro é muito parecida com o que a editora fez com outro herói (ou anti-herói) violento. Wolverine surgiu em O Incrível Hulk #180 e #181, de 1974 e, depois, passou a participar como coadjuvante em outros títulos até achar uma casa nos X-Men, mas só ganhou titulo solo por intermédio da aclamada minissérie Eu, Wolverine, de Chris Claremont e Frank Miller. A mini do Justiceiro pode não ser tão adorada quanto a de Wolverine (e nem deveria ser), mas, assim como no caso do Carcaju, ela abriu as portas para uma publicação regular solo logo em 1987 e que duraria 107 números (batizada apenas de The Punisher), outra em 1988, The Punisher War Journal (minha favorita), que durou por 80 números e, finalmente, The Punisher War Zone, de 1990, que durou 41 números. E isso sem contar com especiais, a versão MAX e vários outros volumes da publicação principal até o mais recente, de 2014, interrompido por Guerras Secretas.

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A vida longa do personagem é justificada pela era em que foi criado, cercado de filmes sobre vigilantismo e, também, pela pegada mais realista em relação aos super-heróis da editora. Afinal, muito mais provável do que ganhar poderes com algum acidente, é alguém muito treinado e com algum tipo de psicopatia pegar em armas e sair dizimando vilões. Uma era com bem menos correção política do que hoje.

Círculo de Sangue, porém, começa com Frank Castle preso na penitenciária de Ryker’s Island  e levemente introduz um retcon que ajuda a suavizar o passado ultra-violento do Justiceiro. É revelado que ele fora envenenado e agira enlouquecidamente, sem controle completo de suas ações. Com isso, a Marvel consegue tornar mais palatável o herói para uma nova geração, já na segunda metade dos anos 80. Neste primeiro número, a estrutura é de “fuga de prisão”, com o Justiceiro atrapalhando os planos de fuga em massa de um mafioso, auxiliado pelo arqui-inimigo do Justiceiro, o Retalho, e ele mesmo se aproveitando da oportunidade para sair dali, somente para ser arregimentado pelo diretor da prisão para o chamado The Trust, grupo de civis que quer usar seu dinheiro para livrar os Estados Unidos do crime sem precisar passar pelo sistema Judiciário. Ao Justiceiro é oferecida a oportunidade de trabalhar com uma estrutura financeira ampla, algo que ele vagarosamente começa a levar em consideração.

Já do lado de fora da prisão, sua primeira missão (ainda agindo de forma completamente independente) é nada menos do que assassinar o Rei do Crime. No entanto, sua intenção é frustada por uma armadilha que quase o mata. A partir deste ponto, a trama ganha uma espécie de complexidade boba, que exige que o leitor aceite que Frank Castle é passível de ser facilmente enganado. No entanto, não demora e ele começa a desbaratar o The Trust, que se utiliza de lavagem cerebral em prisioneiros para fazê-los crer que são “Justiceiros”, de forma a criar um exército de vigilantes com métodos semelhantes aos de Frank Castle.

Ainda que a minissérie comece muito bem, com a fuga da prisão, depois do segundo número ela perde ritmo e entra em uma espiral pouco crível que retira Frank Castle de seu caminho e o coloca à frente de um vilão que estaria mais à vontade em um filme de James Bond. Armadilhas, exageros e bravatas acabam diminuindo o impacto da fuga de Castle e do próprio The Trust, que acaba reduzido a uma pessoa em uma mansão “bondiana”.

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No entanto, a arte de Mike Zeck, responsável pelos quatro primeiros números, chega a compensar parte dos problemas do roteiro inconstante de Steven Grant. Desenhando um Justiceiro grandalhão, carrancudo e trabalhando as sequências de ação de forma poderosa, não se esquivando de lidar com a força do impacto das balas, quedas, socos e chutes. A progressão de quadros, sem invencionices, é muito eficiente em ajudar o leitor a acompanhar com facilidade a leitura, que ganha grande fluidez. O mesmo se pode dizer dos detalhes de fundo dos quadros, pois Zeck emprega tempo em criar um mundo completo, com primeiro, segundo e terceiro planos, todos eles recheados de ricos traços. No último número, a arte fica por conta de Mike Vosburg que se esforça em impedir qualquer impressão de solução de continuidade. Ele trabalha o Justiceiro com o mesmo porte imponente e o resultado é muito satisfatório, ainda que inferior à arte de Zeck.

A primeira série solo do Justiceiro pode não ser uma obra-prima, mas foi o pontapé que o personagem precisava para ganhar suas publicações regulares. O futuro reservaria muita coisa boa ao Justiceiro…

Justiceiro: Círculo de Sangue (The Punisher: Circle of Blood, EUA – 1986)
Contendo: The Punisher, Vol. 1 #1 a #5
Roteiro: Steven Grant
Arte: Mike Zeck (#1 a #4), John Beatty (#5), Mike Vosburg (#5)
Arte-final: John Beatty
Cores: Phil Zimmelman, Bob Sharen
Letras: Ken Bruzenak
Capas: Mike Zeck
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro a maio de 1986
Editoras no Brasil: Editora Abril, Editora Salvat
Datas de publicação no Brasil: agosto a dezembro de 1988 (Superaventuras Marvel #74 a #78), junho de 1990 (Justiceiro Especial #1), janeiro de 2016 (Os Heróis Mais Poderosos da Marvel #24)
Páginas: 141

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.