Crítica | K-19: The Widowmaker

estrelas 3,5

A Guerra Fria serviu e continuará servindo como palco de inúmeros filmes, foquem eles em questões como a espionagem, como visto no recente Atômica ou nas corridas armamentistas e espaciais dos Estados Unidos e União Soviética. Kathryn Bigelow, em seu sétimo filme, utiliza justamente esse cenário para compor sua história, baseada em fatos contados pelos sobreviventes do submarino K-19, após o fim da URSS, visto que antes desse fato tiveram de manter silêncio sobre o ocorrido, para não arriscar manchar o nome da nação.

Logo na sequência inicial conhecemos o submarino que dá nome ao filme. Durante um teste, ainda atracado, ele já começa a demonstrar problemas, preocupando principalmente o então capitão Mikhail Polenin (Liam Neeson). Após a falha nesse teste, o posto de comando vai para Alexei Vostrikov (Harrison Ford), que fica encarregado da primeira missão do submarino: lançar um míssil-teste em região de alcance a Nova York e Washington, para que a máquina de guerra funcione como elemento dissuasivo, impedindo um possível ataque dos EUA na União Soviética. Tudo se complica, porém, quando o veículo começa a apresentar problemas atrás de problemas, colocando em risco a vida de todos ali dentro.

A própria premissa de um filme passado, majoritariamente, dentro de um submarino já é capaz de garantir, ao menos, uma pequena dose de claustrofobia no espectador – questão, essa, que é aproveitada por Bigelow, que emprega planos mais fechados e próximos, com planos curtos não permitindo que, jamais, nos acostumemos com aquele ambiente ou sequer entendamos a sua geografia interna. Isso é sentido nos poucos trechos fora desse cenário, que trazem a nítida sensação de alívio, bem pontuado pela trilha de Klaus Badelt, que emprega tons românticos em suas composições.

Não bastasse isso, a tensão é mantida como constante através da noção, introduzida desde cedo, que a qualquer momento algo pode dar errado ali dentro. Nesse sentido, o roteiro de Christopher Kyle jamais nos permite relaxar, alternando entre defeitos inesperados do submarino e os constantes testes do novo capitão, Vostrikov. É criada uma atmosfera de instabilidade e incerteza, que dialoga com a própria disposição da tripulação, todos incertos em relação às atitudes de Vostrikov, que é consideravelmente mais rígido que Polenin. è criado no ar a expectativa de um possível motim, questão que apenas contribui para o nervosismo do espectador, enquanto nós próprios questionamos se Vostrikov está fazendo certo ao cobrar tanto de seus subordinados.

Essa oposição entre os dois oficiais, claro, somente é possível pelos esforços tanto de Neeson quanto de Ford. Nenhum deles está, de fato, fora de seus papéis de costumes e isso faz com que demonstrem estar cem por cento à vontade como esses dois personagens. Claro que há certo estranhamento causado pelo inglês falado por personagens russos e, à exceção de Ford, discretamente, ninguém sequer simula um sotaque russo. Há, porém, uma forte segurança transmitida pelos dois, que dialoga com a própria disposição dos personagens, representados como duas grandes forças opostas, criando um belo paralelo entre os dois lados da Guerra Fria. O mais interessante é que o texto jamais diz quem está certo ou errado ali, permitindo que nós próprios tomemos essa decisão.

Isso, infelizmente, perde muito de sua força em razão da longa duração do filme, que se estende por mais tempo que deveria, tornando muitos dos trechos repetitivos, prejudicando nossa imersão na narrativa como um todo. Por outro lado, somos resgatados pelos efeitos visuais, tanto práticos quanto especiais. Digno de nota é a utilização de submarinos de verdade para filmar certas sequências, o que aumenta consideravelmente o realismo da obra, possibilitando que, em todos os momentos, de fato, acreditemos que os personagens estão dentro do K-19.

Dessa forma, Bigelow, mais uma vez, mostra que não tem medo de transitar entre diferentes gêneros, abordando o conflito entre comunismo e capitalismo nesse seu filme histórico. Embora seja longo de mais, aspecto que afeta bastante nosso aproveitamento da obra, K-19: The Widowmaker consegue nos manter tensos durante a maior parte da projeção, seja pela oposição entre os oficiais retratados ou pelos inúmeros problemas do submarino em si.

K-19: The Widowmaker — EUA/ Reino Unido/ Alemanha/ Canadá, 2002
Direção:
 Kathryn Bigelow
Roteiro: Christopher Kyle
Elenco: Harrison Ford, Liam Neeson, Sam Spruell, Peter Stebbings, Sam Redford, Christian Camargo, Ravil Isyanov, Peter Sarsgaard
Duração: 138 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.