Crítica | Kagemusha, a Sombra de um Samurai

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Os dez anos que separaram O Barba Ruiva de Dersu Uzala foram de transformações pessoais e também artísticas para Akira Kurosawa. Neste período, muita coisa aconteceu em sua vida, entre dificuldades de encontrar financiamento para seus projetos, a fracasso de bilheteria daquele que seria um empreendimento com outros diretores (Dodeskaden), gerando uma tentativa de suicídio do diretor, com medo de que sua carreira tivesse terminado. E então veio o início de um retorno aos eixos, que trouxe a adaptação da obra literária do explorador russo Vladimir Arseniev. Abraçado por diretores icônicos da Nova Hollywood (Spielberg, Lucas, Scorsese e Coppola), Kurosawa conheceria um novo momento em sua carreira, já empregando um diferente tipo de abordagem temática que desenvolveu após O Barba Ruiva. Foi neste cenário — e com ajuda de Francis Ford CoppolaGeorge Lucas como produtores de uma versão internacional, ajudando no financiamento do filme —  que surgiu o épico Kagemusha, a Sombra de um Samurai, em 1980.

Historicamente falando, o filme se passa em um período de grandes mudanças políticas e territoriais no Japão, o Período Sengoku, também chamado de Era dos Estados Beligerantes, com guerras civis assolando clãs através de todo o país. O roteiro de Kagemusha, escrito por Masato Ide e Kurosawa, se passa, então, em um cenário de inquietações e batalhas, e nos mostra uma jornada de controle geopolítico, colocando em cena um ladrão condenado à pena de crucificação que é salvo de sua sentença por guardar uma absurda semelhança com um um dos Senhores de Clã, o que faz desse ladrão o dublê perfeito. Quando o verdadeiro Senhor local morre, as circunstâncias colocam este homem pobre no lugar áureo do Clã, interpretando por um determinado período (a vontade do falecido Senhor era que sua morte fosse oculta por 3 anos) o posto mais alto do local.

A princípio, o roteiro é bastante confuso e parecem faltar elementos sólidos de justificativa para praticamente todos os personagens em cena. A bem da verdade, temos a impressão de que se trata de uma continuação ou da segunda parte de algo a que não tivemos acesso. Kurosawa é corajoso e habilidoso o bastante para começar com essa abordagem incomum de uma narrativa em continuidade e rapidamente nos dar ingredientes dramáticos a partir dos quais podemos entender o que se passa. A guerra é esclarecida. A posição do Senhor Shingen Takeda é apresentada de modo largo e de maneira até um pouco cômica (destaque absoluto para o excelente Tatsuya Nakadai, que interpresa Takeda e, depois, Kagemusha) e a partir de então, seguimos com a preparação para a batalha e uma forma de lidar com as quebras de expectativas de domínio territorial, como se o destino de cada indivíduo aqui (lembrando que o roteiro não se furta em flertar com o místico ou o onírico) estivessem esperando a vez de ser alterado pelos mais banais motivos.

A produção de Kagemusha esteve entre as mais laboriosas da carreira de Kurosawa, mas à parte os esforços de lidar com centenas de figurantes, cavalos e dinâmica cênica funcionando perfeitamente, não houveram grandes contratempos ao longo do processo. O único impasse verdadeiro aconteceu ainda nos primeiros dias de ensaio, quando o então contratado para protagonizar o filme, o ator Shintarô Katsu (da franquia Zatoichi), apareceu com uma câmera no set, dizendo que iria filmar o seu processo de atuação e transformação de Senhor Takeda para Kagemusha. Não deu outra: Kurosawa o demitiu no mesmo dia, contratando rapidamente Tatsuya Nakadai. Ao longo de todo o processo, o cineasta não encontraria mais empecilhos além dos já esperados para uma produção deste tamanho, especialmente quando falamos de uma obra que mantém o rigor e perfeccionismo estético de seu diretor, vide as vestimentas histórias, a representação dos interiores dos castelos, o sistema de estratégias para a batalha e a dinâmica hierárquica daquele período da História do país, filmado com precisão.

Assinada por Takao Saitô (que estreou como fotógrafo ao lado de Kurosawa, em Sanjuro) e Shôji Ueda (em sua primeira parceria com o Mestre), a fotografia de Kagemusha está entre as mais belas construções do cinema, tendo a capacidade de colocar na tela clãs de diferentes bandeiras, sequências de diferentes forças dramáticas atrelada a cores e ângulos próprios, jamais repetidos em contraste a outros Clãs; distintas aberturas e movimentos de ligação entre inimigos; e ainda as construções específicas que mais nos chamam a atenção, como as estonteantes cenas em que o ladrão descobre o corpo do Senhor dentro da jarra; a sequência do sonho em todo o seu mergulho plástico, fortemente colorido e a soberba batalha noturna, momento do filme com um dos mais marcantes trabalhos de edição na criação do suspense diante do público.

Nessas condições estéticas tão imensas, o espectador fica esperando que o roteiro vá expandir a premissa, mas a única preocupação aqui é a exploração da dualidade entre sósia e Senhor mais o possível impacto que isso tem nos chefes de Clãs inimigos. Na minha leitura, essa abordagem do roteiro impede que o fortalecimento de uma investigação mais próxima do Kagemusha seja feita, ao mesmo tempo que impede que as ambições de guerra sejam plenamente exploradas, ficando no meio um grande peso de ordem quase filosófica, onde um ladrão se vê perfeitamente tomado pelas ideias e postura de seu falecido Senhor — dedicando-se com afinco a assumir seu papel –, embora saiba que esta “sombra” deverá sair de cena algum dia. No entanto, essa disposição textual tem peso negativo bastante limitado. A despeito dela (e da forma como o diretor filma o ciclo de ações durante a batalha final, com os chefes dos Clãs aliados praticamente entregando-se à morte), Kagemusha está entre um dos mais incríveis contos históricos sobre este intenso período da história do Japão. Um grande filme sobre o poder de uma figura política, sua representação e as consequências que a sua saída de cena pode trazer para todos. Um épico sobre personalidade, sobre a arte da guerra e sobre o legado de alguém.

Kagemusha, a Sombra do Samurai (Kagemusha – Japão/ EUA, 1980)
Direção:
Akira Kurosawa
Roteiro: Masato Ide, Akira Kurosawa
Elenco: Tatsuya Nakadai, Tsutomu Yamazaki, Ken’ichi Hagiwara, Jinpachi Nezu, Hideji Ôtaki, Daisuke Ryû, Masayuki Yui, Kaori Momoi, Mitsuko Baishô, Hideo Murota, Takayuki Shiho, Kôji Shimizu, Noboru Shimizu, Sen Yamamoto, Shuhei Sugimori, Takashi Shimura, Kamatari Fujiwara
Duração: 180 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.