Crítica | Kagemusha, a Sombra do Samurai

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estrelas 5,0

O homem é o retrato de sua personalidade, ou uma amálgama da percepção dos outros sobre ele? Com essa indagação central, Akira Kurosawa constrói um filme inegavelmente épico e intimista ao mesmo tempo, uma obra que há muito o diretor japonês desejava produzir, mas que, surpreendentemente, não contava com o apoio dos estúdios – por mais que fosse considerado um dos maiores nomes do cinema nipônico. Kagemusha, a Sombra do Samurai, felizmente, porém, conseguiu sair da mente de seu criador através do apoio ocidental, mais especificamente através de Francis Ford Coppola e George Lucas, ambos apreciadores de Kurosawa, tendo um deles se baseado em sua obra A Fortaleza Escondida para construir uma das maiores sagas de todos os tempos, Star Wars.

Em uma sala escura a projeção é dada início. Três homens estão sentados. Um deles, claramente em posição de poder, projeta uma imponente sombra sobre a parede atrás de si, enquanto discutem o futuro do homem à sua frente, que seria conhecido como o seu kagemusha, ou sósia em nossa linguagem. Shingen (Tatsuya Nakadai), líder do poderoso clã Takeda está ao centro e com poucos, sutis e calculados movimentos demonstra, similarmente ao que vemos em O Poderoso Chefão, toda a sua autoridade. Temos nele a figura perfeita do samurai, o forte e silencioso que, em paralelo não tão distante assim, também marca dezenas de personagens icônicos do western americano ou spaghetti.

O poder de Shingen e, consequentemente de seu clã, contudo, está à beira do precipício. Sua morte prematura, causada por um evidente descuido na fronte de batalha, pode significar o fim de Takeda e, por isso, à beira do fim de sua vida, exprime seu último desejo: que sua morte não seja tornada pública até três anos depois. Cabe, portanto, ao seu duplo, um simples bandido que fora escolhido apenas por sua extrema similaridade ao líder (ele é vivido pelo mesmo ator), levar adiante essa gigantesca mentira, enganando não só as tropas do clã, como aqueles mais próximos ao falecido samurai.

Com uma narrativa, a princípio confusa, Kurosawa aos poucos vai prendendo a atenção do espectador. Nossa dúvida do que se passa nos primeiros minutos da projeção é palpável, mas conseguimos persistir pelas icônicas imagens nos mostradas. Em seu terceiro filme à cores, o diretor faz uso de uma extensa gama de tonalidades não só para trazer uma beleza estética inegável – como esquecer da marcha dos samurais ao por do sol? – mas para garantir uma maior complexidade a este retrato de época. Estandartes vermelhos, verdes, negros, preenchem a tela e o monocromático contrasta com vestimentas inteiramente coloridas dos líderes dos clãs. Cada personagem pode ser reconhecido por suas vestimentas, tornando a cor um elemento central para o entendimento desse palco tão repleto de atores.

Com o passar dos minutos, já fisgados pela construção de Akira, conseguimos entender precisamente o que se passa e a beleza da imagem passa para o texto, ao passo que os inúmeros questionamentos do diretor ganham força na tela. O kagemusha, à princípio forçado a desempenhar seu papel e, depois, voluntariamente, deve reprimir sua própria personalidade a fim de se transformar em Shingen. Deve enganar a família, o cavalo e amigos daquele a quem impersona e a cada cena nos vemos em uma nova espiral de tensão, não conseguindo tirar os olhos da tela, nos perguntando como ele irá cumprir essa, aparentemente impossível, missão.

O samurai por excelência, então, é colocado em questão e seu código de honra é colocado contra a parede: pode a honra ser copiada? O duplo se torna, portanto um samurai por passar a viver como ele? Kurosawa, porém, não permanece nessa superfície e atinge um ponto ainda mais profundo: a figura desse guerreiro está ligada à batalha, ao comando de suas tropas ou à família, à maneira como se porta? Dessa forma, o diretor intercala momentos épicos, como a já citada marcha com focos intimistas, sequências passadas inteiramente dentro de um quarto com o kagemusha frente a frente com aqueles que deve enganar.

Ambos, naturalmente, possuem uma nítida beleza, mas é notável a forma como as coloradas composições dos planos mais abertos conseguem ficar à sombra das mais íntimas situações. Um icônico momento do filme claramente nos demonstra isso. O sósia está frente a frente com fieis de seu antigo mestre, eles sabem, abertamente, que o homem à sua frente não é Shingen e, em meio a risadas alegando que seu líder jamais agiria como esse homem simples temos uma grata surpresa. O kagemusha pergunta “e assim?” e assume uma posição séria, estática, rapidamente nos lembrando daquela sequência inicial. Os outros na sala, então, se colocam em uma posição respeitosa, a seriedade e lágrimas tomam conta de seus rostos.

Uma cena como essa consegue nos causar arrepios que mil crepúsculos não conseguiriam e a força da direção, em conjunto, é claro, com o ótimo trabalho de Tatsuya Nakadai assumem o palco central. Nakadai consegue nos convencer precisamente que neles temos dois homens, o bandido e o líder. Suas mudanças de disposição, de humor são um dos maiores pontos atrativos da obra e muitas vezes conseguem conduzir nossas emoções, nos levando rapidamente da comédia para a tensão – sempre reiterando a ácida ironia de toda aquela situação que o protagonista se encontra.

Funcionando como o cimento que une esses diversos elementos da narrativa, a emblemática trilha sonora de Shinichirô Ikebe perfeitamente intercala as diferentes facetas da projeção. Os planos abertos cortam para os fechados de forma orgânica ao passo que a música desiste de sua imponência para abordar temas mais sutis. E com esses esforços do compositor conseguimos ter a imagem mental do épico e do intimista perfeitamente ligados.

Kurosawa, portanto deixa a pergunta central de sua obra – o que o homem é – em aberto, espetando seu espectador que deve, por si só, alcançar a resposta que mais lhe agradar. E se não conseguirmos sair dessa eterna indagação, o que podemos fazer é sentir o grande alívio por Kagemusha, a Sombra do Samurai ter saído do papel e não permanecido apenas na rica mente de seu realizador.

Kagemusha, a Sombra do Samurai (Kagemusha – Japão/ EUA, 1980)
Direção:
Akira Kurosawa
Roteiro: Masato Ide, Akira Kurosawa
Elenco: Tatsuya Nakadai, Tsutomu Yamazaki, Ken’ichi Hagiwara, Jinpachi Nezu, Hideji Ôtaki, Daisuke Ryû
Duração: 180 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.