Crítica | Kamchatka (2002)

kamchatka-2002-plano critico filme

O ano é 1976. A Argentina acaba de sofrer um golpe de Estado orquestrado pelas três Forças Armadas do país, destituindo do governo Isabel Perón, então presidente. A ditadura militar tem início e com ela o período da “Guerra Suja”, no qual milhares de pessoas contrárias ao regime ditatorial são mortas ou dadas como “desaparecidas”. É em meio a todo esse conflito e tensão que se passa Kamchatka, filme argentino de 2002, estrelado por Ricardo Darín e Cecilia Roth com direção de Marcelo Piñeyro.

O filme acompanha essencialmente quatro personagens: o pai/David Vicente (Darín), a mãe (Roth), o filho mais velho/Harry (Matías Del Pozo) e o filho mais novo (Milton De La Canal). Por fazerem parte da resistência, a mãe e o pai vêem-se obrigados a fugir dos militares para sobreviver e saem da cidade com seus filhos para uma casa afastada no campo. Visando evitar ao máximo serem descobertos, assumem novos nomes e identidades sem deixar de lutar e resistir contra as forças do governo.

Apesar de toda a história acontecer por conta do golpe de Estado realizado pelas forças militares, eles quase não aparecem em tela. O único momento no qual os vemos é em uma cena inicial, quando a mãe passa com seus dois filhos por uma espécie de blitz militar. Depois disso, assumem um papel quase de assombração, sendo referidos pelos protagonistas só através da fala. Tornam-se apenas uma presença, semelhante ao que Christopher Nolan fez com os nazistas em Dunkirk. Você não os vê, mas sabe que estão lá e os teme por isso.

Dentre todos os méritos da obra, esse é, sem dúvidas, um dos principais. Fazer com que a ameaça nos deixe alertas, e até mesmo agoniados, durante toda a projeção sem que o inimigo apareça de fato não é uma tarefa fácil. No entanto, a forma como Piñeyro constrói a narrativa corrobora para o sentimento de perigo estar sempre presente. As constantes idas da mãe à cidade, possivelmente para reunião com os rebeldes, e o estúdio onde o pai trabalha ter sido atacado pelos militares, por exemplo, nunca são mostrados, somente mencionados. Ao inibir essas cenas, o diretor deixa a imaginação dos espectadores assumir o controle e criar as mais diversas hipóteses, produzindo uma tensão contínua.

Outro ponto muito interessante a se destacar é o figurino. A direção foi bastante hábil em utilizar as vestimentas para demonstrar tanto o pertencimento das personagens a grupos quanto seus sentimentos. A personagem de Roth, por exemplo, utiliza durante quase toda a película roupas na cor vermelha, uma cor historicamente ligada a movimentos revolucionários como aos que ela pertencia. Inclusive, a personagem da atriz musa de Pedro Almodóvar é a mais utilizada para externar sentimentos através das cores. Ao passo que o vermelho é utilizado sempre em momentos de felicidade com o núcleo familiar, como uma forma de revigorar as energias e continuar lutando pela causa que acredita, ela utiliza cores como verde escuro em momentos de solidão e desesperança, como quando percebe que os militares estão próximos de descobrir seu esconderijo.

Ademais, o núcleo familiar é praticamente o único com foco durante a obra (e abordado de forma excelente). As cenas mais gostosas são as que estão todos reunidos em casa conversando na mesa de jantar ou dançando na sala ao som de O Calhambeque, música eternizada por Roberto Carlos. É absolutamente fácil encontrar-se com um enorme sorriso de orelha a orelha enquanto assiste esses momentos familiares, que são maximizados pelas excelentes atuações de Darín, Roth, Del Pozo e De La Canal (difícil escolher quem entrega a melhor atuação entre os quatro, inclusive).

As analogias também possuem papel de destaque na produção. A mais utilizada é com o jogo de tabuleiro TEG (versão argentina do famoso WAR, onde ganha quem conquistar um determinado número de países primeiro), em que Harry e David jogam por várias vezes. Em determinado momento, após David ter vencido todas as partidas, Harry consegue resistir quando lhe resta apenas um território chamado Kamchatka (daí o nome do filme). David tenta de todas as formas conquistar o último país e ataca de todos os lados, mas seu filho resiste bravamente sem jamais entregar-se. A analogia com movimentos revolucionários, principalmente com o que os pais fazem parte, é claríssima, nos quais o modus operandi é sempre através da resistência contra tropas historicamente mais numerosas.

Apesar do pano de fundo ser o golpe de estado, o foco de Kamchatka é nessa família de rebeldes que luta contra os abusos realizados pelos militares. Ao elaborar uma atmosfera totalmente acolhedora, mas constantemente ameaçada por seus perseguidores, o filme concilia perfeitamente os sentimentos de carinho e afeto com medo e apreensão, criando uma emocionante e trágica narrativa que reflete a realidade de muitos argentinos que viveram durante esse regime.

Kamchatka — Argentina, Espanha, 2002
Direção: Marcelo Piñeyro
Roteiro: Marcelo Piñeyro, Marcelo Figueras
Elenco: Ricardo Darín, Cecilia Roth, Matías Del Pozo, Milton De La Canal, Tomás Fonzi, Héctor Alterio, Fernanda Mistral
Duração: 106 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.