Crítica | Karatê Kid – A Hora da Verdade

“Se procura se vingar, comece cavando duas sepulturas.”

O sentimento de não pertencimento é um dos fatores possíveis para a solidão. O jovem Daniel Larusso (Ralph Macchio), na trama de Karatê Kid, é apresentado durante sua mudança, de uma cidade para outra, tratando-se, portanto, de um garoto em um ambiente novo, consequentemente, hostil. Quando olhamos para o personagem de Ralph Macchio, não estamos falando de um garoto cheio de amigos, contudo, muito menos de um menino solitário. Para um filme com uma temática mais adolescente, situado nos anos 80, é curioso notar que nada do cerne da obra tem a ver com coletividade, seja uma alcateia inteira de “nerds”, o amor de todo o colégio, ou um simples trio de “bobalhões”. A busca é completamente outra. Os vilões estão no coletivo – o herói, no singular. Ledo engano, Daniel encontra-se ao lado de poucas pessoas, que muito pouco se cruzam, dando ar de autenticidade, foco, para cada uma das relações, tanto a amorosa quanto as puramente afetivas. No final das contas, não há grupo, mas apenas o protagonista fomentando relações e tentando ganhar espaço. Todavia, Daniel Larusso não quer tornar-se amado, popular; não quer conquistar a garota dos seus sonhos, cercada de inúmeras patricinhas, como aconteceria em outros casos. A ambição do menino é apenas ser deixado em paz, seu espaço de direito – ser esquecido pelas pessoas que o provoca por razões impossíveis de serem determinadas. Sob uma outra ótica, a oposição de Larusso para os seus inimigos é dada de maneira unidimensional (a própria cor dos quimonos, pretos e brancos, contribui para isso), mas Karatê Kid não é como outros trabalhos contemporâneos.

Para solidificar esse caráter distinto do filme, o protagonista de Karatê Kid – A Hora da Verdade constrói rapidamente sua conexão, em níveis amorosos, com “a garota”; uma paixão que acaba colocando-o de frente a estudantes do Cobra Kai, os rivais a serem derrotados. A personagem Ali Mills (Elizabeth Shue) é uma conquista “fácil”, não sendo algo a ser alcançado, embora o começo do relacionamento seja muito menos orgânico que o desenvolvimento. A ida ao parque, por exemplo, é a prova de química, espirituosidade, que reside no longa-metragem e nesse namoro. Além disso, esta também é a prova do interesse da garota, uma menina rica, por Daniel, um menino pobre. Infelizmente, o que poderia ser um espaço para o tratamento desse contraste entre os personagens morre por ali, não sendo a personagem Lucille (Randee Heller) algo além de uma mãe de filmes dos anos 80. Pelo menos, é uma boa mãe de filmes dos anos 80, embora sua presença não seja aprofundada pelo texto. Ademais, a direção de John G. Avildsen sabe trabalhar o aspecto teen da produção, mesmo que a sua direção esteja mais interessada no caráter individual de Larruso, muito além da identidade imposta pela época em que nasceu. Embora não exclua a cultura popular vigente, presente pelas músicas, o protagonista encontra nas artes marciais, vindas do outro lado do mundo e de um tempo longínquo, objeto para estudo e admiração. Por fim, para trazer essa luta para o público, é criado um paralelo bem construída do caratê com a trivialidade de ações mundanas, como pintar paredes. Sendo assim, o público é aproximado dos ensinamentos a serem feitos. A obra torna-se extremamente acessível.

Em um outro plano, o enfoque em trocas mais simples, diálogos – sem mil cabeças esperneando o que quer que queiram espernear – como nos momentos em que Daniel conversa com o seu treinador, garante passagens, do velho para o jovem, interessantíssimas. Este clássico dos anos 80 definitivamente sabe passar o conhecimento antigo – item de busca do jovem Larruso – adiante, notando-se um aprendizado por parte do garoto, que antes estava muito mais interessado em vingança do que qualquer outra coisa. Na narrativa, a criação de um torneio é uma saída imediata para que os bullies sumam do cenário deste personagem. O treinamento de Daniel começa, ao passo que somos cada vez mais aprofundados no icônico Senhor Miyagi, personagem construído não apenas pelo roteiro, mas pela performance marcante de Pat Morita. Ao relembrar do passado de seu personagem, o ator nos concede uma interpretação mais contida, internalizada, visto que na superfície o Sr. Miyagi está desprevenido diante de uma embriaguez. Se a permissão para esse nível de intimidade seria dada em estados sóbrios ou não, o que fica é a imagem do garoto colocando o homem para dormir. Em outra situação, a troca entre mestre e discípulo é mais evidente, justamente no aniversário de Larusso, o que também denota o significado que o menino dá ao seu treinador, e vice-versa. Ambos fazem questão de estarem juntos neste momento de celebração. A criação desta amizade é extremamente verdadeira ao ponto que o próprio filme faz questão de encerrar-se justamente com o olhar de aprovação do mestre pelo seu discípulo. Não há o “consegui”, mas o “conseguimos”.

Karatê Kid – A Hora da Verdade, todavia, é, acima de tudo, um filme sobre artes marciais. Quando vamos falar do trabalho de Avildsen em conduzir as, curiosamente, poucas cenas de luta, encontramos mais um ponto positivo. O que sobra de habilidade do diretor em permitir trazer para o público os combates, embora de uma maneira mais modesta se comparada com a de Rocky, falta em experimentar o significado destes duelos, o que se pode ser tirado deles. O Senhor Miyagi, como mestre, repete a todo instante o papel do caratê como algo além da superfície; algo que vem de dentro para fora, não de fora para dentro. A jornada de Larusso, porém, é de vingança. Mesmo que a vingança seja subtraída do papel, ela permanece no coração do espectador. O anseio pela derrota de Johnny (William Zabka) deveria ser algo, teoricamente, fácil de ser conquistado pela direção, mas o abuso de uma simplicidade neste personagem, que, assim como todos os outros membros do dojo, é unicamente odiável, causou uma espécie de reversão no papel de antagonista e protagonista. O todo simpático e charmoso Daniel San, embora o ator não dê nenhuma performance mais encorpadatorna-se o antagonista de seu próprio filme, enquanto Johnny é, para muitos, o verdadeiro herói. Seja piada coletiva ou não, o extremismo antagônico é perceptível, não sendo o roteiro de Robert Mark Kamen um dos exemplares para construção de antagonistas, ao menos, compreensíveis. Se “mentira se torna verdade só se alguém quiser acreditar”, como um certo mestre nos ensinou, parece que temos um culto em massa de fiéis, visto que, embora em uma linha meio azeda de se resolver os problemas, fruto das decisões narrativas, Daniel San e o Sr. Miyagi são mesmo os heróis.

Karatê Kid – A Hora da Verdade (The Karate Kid) – EUA, 1984
Direção: John G. Avildsen
Roteiro: Robert Mark Kamen
Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Elisabeth Shue, Martin Kove, Randee Heller, William Zabka, Chad McQueen, Tony O’Dell, Ron Thomas, Rob Garrison
Duração: 126 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.