Crítica | Karatê Kid (1984) [Aniversário de 30 anos]

estrelas 5,0

Exterminador do Futuro, Scarface, Clube dos Cinco, Gremlins, Os Caça-Fantasmas. Cinco filmes completamente diferentes, porém com um forte elemento em comum: os anos 80. Seja por causa das músicas com tons de teclado e batidas disco, roupas coloridas ou cabelos cheios, a década de 1980 certamente possui uma aura própria e bastante característica. O reflexo deste clima oitentista é visível em qualquer material artístico produzido na época e o cinema certamente não está de fora.

Karatê Kid é um desses exemplos de uma trama incrivelmente simples, mas que conta com diversos elementos que o transformam em um clássico. Estamos falando, é claro, do pai de dezenas de clichês que serão mais do que utilizados de 1984 para cá. Na história, Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e sua mãe acabaram de se mudar de Nova Jersey para a Califórnia. O início de sua nova vida em Los Angeles parece promissora, ao passo que, rapidamente, LaRusso faz uma nova amizade e começa a se apaixonar por uma garota (e vice-versa). Tudo começa a complicar, contudo, quando o garoto começa a sofrer bullying de Johnny (William Zabka) e seus amigos. É nesse momento que Daniel conhece o senhor Miyagi (Pat Morita), um velho senhor oriental com um certo conhecimento de karatê.

Se o filme tem uma qualidade é a forma como intercala as várias instâncias da vida de LaRusso, desde o tempo passado com seu sensei até os encontros amorosos com Ali (Elisabeth Shue). O roteiro de Robert Mark Kamen sabe equilibrar a dose de cada um desses momentos, sabendo que o ponto principal são as sessões de treinamento com Miyagi e, assim, construindo uma notável fluidez na obra. Pat Morita, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo seu papel, nos traz a perfeita figura do mestre oriental – sábio, bem-humorado e, aparentemente, frágil. Em suas próprias palavras e gestos, o karatê vem da cabeça e coração. Impossível não traçar um paralelo com Mestre Yoda em O Império Contra-Ataca, uma figura baseada nos mesmos princípios com métodos quase iguais (basta comparar a inquietação de Luke e Daniel-san).

Porém, por mais que, no quadro geral, o texto seja orgânico, ele comete leves falhas na relação entre o protagonista e sua paixão. Vemos alguns desentendimentos demasiado artificiais somados a atuações exageradamente dramáticas. Felizmente, tais ocasiões são poucas, se limitando a poucos minutos dentro da projeção, não sendo o suficiente para quebrar a imersão do espectador, que é constantemente deixado na expectativa do torneio de karatê.

Entre encontros e brigas na escola, a relação entre mestre e aprendiz é construída e fortificada, chegando a ser palpável o afeto que um tem pelo outro (por mais que Miyagi seja um homem de poucas palavras). Da mesma forma, partimos do treino “domiciliar” para a praia e o rio, ao mesmo tempo que o entusiasmo de Daniel, agora mais ciente dos métodos do sensei, cresce. Acompanhando essa progressão, a fotografia, em sua maioria convencional, adota planos gerais, que aliados da ótima escolha de cenário e memorável trilha sonora de Bill Conti, compõem marcantes cenas a serem lembradas à mera menção – vide o treinamento em cima das toras de madeira.

O ritmo fluido estabelecido desde os minutos iniciais alcança seu cume durante o torneio, clímax do longa-metragem. Ao som de You’re The Best Around, de Joe Esposito, perfeitamente inserida, o roteiro aposta nas lutas, inserindo, porém, alguns elementos que aumentam ainda mais a tensão do espectador e reiteram a postura do mestre de Daniel-san. John G. Avildsen se espelha em sua direção de Rocky, sabendo trabalhar a coreografia de cada embate sem necessitar de uma montagem exageradamente entrecortada, conduzindo cada cena com precisão. Após alguns minutos, o filme se encerra no momento exato, no ponto alto da narrativa e descartando um epílogo desnecessário.

Com a capacidade de entreter e ensinar, Karatê Kid é uma obra atemporal, que traz toda a magia dos anos 80 e um pouco da sabedoria oriental de uma forma marcante e, muitas vezes, cômica. Assim como Mestre Yoda, senhor Miyagi é uma figura icônica que não perde sua força com o passar dos anos.

Karatê Kid (The Karate Kid, EUA – 1984)
Direção: John G. Avildsen
Roteiro: Robert Mark Kamen
Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Elisabeth Shue, Martin Kove, Randee Heller, William Zabka, Chad McQueen, Tony O’Dell, Ron Thomas, Rob Garrison.
Duração: 126 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.