Crítica | Karatê Kid 2 – A Hora da Verdade Continua

Contém spoilers.

É incrível como a sequência de Karatê Kid – A Hora da Verdade, mesmo se passando do outro lado do continente e sob um pretexto completamente diferente, consegue seguir a mesma fórmula do longa-metragem antecessor. O charme, contudo, está longe de se equiparar. Não é que a narrativa seja isenta de louros, muito pelo contrário. O roteiro de Robert Mark Kamen, dessa vez, se propõe a examinar o passado do Senhor Miyagi (Pat Morita), algo realmente interessante, visto que o personagem demonstrou ser extremamente carismático, tornando-se um ícone do cinema e abrindo portas para a exploração não apenas do seu passado, mas do seu eu presente. O problema é que, não muito tempo depois de dar partida a história, Robert Mark Kamen revela não ter nada realmente interessante para fazer, no texto, com os personagens que têm nas mãos, não esperando muito tempo para fazer Daniel LaRusso (Ralph Macchio) retomar o seu papel de protagonista; tudo, da maneira mais básica possível. Podemos perceber a ausência de uma verdadeira inspiração logo no início do filme. Por alguns minutos, somos levados a assistir algumas cenas da obra anterior. Depois disso, a obra começa para valer, colocando os protagonistas para interagir logo após o torneio; um começo muito mais instigante e significativo para a proposta da obra. Acompanharemos, dessa forma, a jornada de Miyagi, contrária aquilo que os outros querem que ele faça: lutar.

A trama de A Hora da Verdade Continua complexa as origens do Sr. Miyagi, personagem que, até este ponto, apenas havia revelado o seu passado trágico, já nos Estados Unidos, e coisas que aprendera com o seu pai, ainda em Okinawa, no Japão. Retornamos até este segundo ponto e descobrimos, após uma carta informando do adoecimento de seu pai, que Miyagi “traíra” o seu melhor amigo ao se apaixonar pela mulher prometida a ele – Yukie, interpretada pela excelente Nobu McCarthy. Como Miyagi aprendera, o personagem, ainda jovem, acabou recusando lutar pela honra de Sato (Danny Kamekona), seu antigo melhor amigo, e mudou-se para o outro lado do mundo. O caratê, afinal, só deve ser usado para defesa – algo que seu pai provavelmente o ensinou. Portanto, recusar a lutar, machucar, matar, não é apenas um sinal do engrandecimento interno de Miyagi, chamado de covarde por outros, mas da sua constante honra ao que seu pai lhe ensinou. Robert Mark Kamen, infelizmente, faz questão de simplesmente esquecer esse incrível relacionamento, sempre em voga pelas citações feitas. A relação de pai e filho, porém, é intensificada pela ótima performance de Pat Morita. O ator, no contexto da perda do pai, nos emociona, enquanto LaRusso consola o seu mestre. O diretor John G. Avildsen também dá espaço para o ator interpretar, mantendo o silêncio de sua voz, exaltando a dor que se exala de seu peito. As lutas, aliás, continuam boas, com a climática absorvendo, pela maior parte do tempo, uma desilusão. Daniel-san realmente sofre no filme.

Infelizmente, no restante do filme, repetem-se diversos esquemas utilizados no longa anterior. A mocinha retorna, assim como o vilão maniqueísta, que não empolga em momento algum, mantendo-se pela maior parte do tempo como incompreensível. Já a relação de Daniel com a mocinha é, no mínimo, decente. De certa forma, os vilões aparentam ser crianças, inconformadas diante de uma vida que não terminou do jeito que queriam. Chozen (Yuji Okumoto) é um personagem extremamente sem-graça, que nos estressa ao invés de nos colocar dentro da insatisfação do personagem, ou então, dentro de uma personalidade realmente cruel e não puramente esquentadinha. O filme acaba sendo repetitivo com esse coadjuvante; a apresentação dele, que poderia vir aliada de um mistério sobre suas reais intenções, já nos dá de bandeja o que esperar. Daniel LaRusso, portanto, tem que enfrentá-lo, o que, novamente, o coloca para ter poderes mágicos. Diferentemente do original, elas não são explorados profundamente. A técnica do tambor aparenta ser jogada no filme; um recurso narrativo de última instância. A mais insatisfatória das conclusões, contudo, é a da ira de Sato, que se resolve – no oposto da técnica do tambor – graças a uma problemática de última hora, que nunca fora meramente citada. As tempestades surgem avassalando o cenário e Sato se redime. Elas são parte, entretanto, de um estudo, por parte do filme, da cultura japonesa, de Okinawa. As origens do caratê são abordadas, as origens de Miyagi também, mas pena que a história acaba sobrando no meio de tudo isso.

Karatê Kid 2 – A Hora da Verdade Continua (The Karate Kid – Part II) – EUA, 1986
Direção:
John G. Avildsen
Roteiro: Robert Mark Kamen
Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Nobu McCarthy, Tamlyn Tomita, Yuhi Okumoto, Joey Miyashima, Marc Hayashi, Danny Kamekona, Martin Kove, William Zabka, Tony O’Dell
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.