Crítica | Karatê Kid 3 – O Desafio Final

“Se caratê defende honra, defende a vida, karatê significa alguma coisa. Se caratê defende troféu de metal e plástico, caratê não significa nada.”

Contém spoilers.

Daniel LaRusso nunca foi um dos personagens mais interessantes do cinema. Até mesmo investi minha fé, porém, no garoto do primeiro filme. Apesar de LaRusso ser problemático, provocar brigas, ao menos o protagonista era real; os relacionamentos dele, além de, acima de tudo, o treinamento inventivo que participou, me chamaram atenção. Nas lutas finais de A Hora da Verdade, o jovem é um mero iniciante e as próprias cenas de ação são mais simples, condizentes com a realidade do menino. Já na sequência, A Hora da Verdade Continua, o garoto está enfrentando pessoas que querem o matar, extremamente habilidosas. O protagonista, subitamente, as vence em duelos que poderiam, caso falhasse, custar sua vida. Em combate, contudo, Ralph Macchio, intérprete do protagonista, prova ao público que não sabe muito de caratê. Se comparado com os outros atores, até o que dubla Pat Morita nas cenas de ação, a diferença é enorme. O Desafio Final, a conclusão de sua saga, entende que o que precisamos não é uma boa história, mas vilões cada vez mais poderosos, que serão vencidos, no final das contas, por alguma técnica oculta. Sendo assim, O Desafio Final entende errado o seu espectador e nos força, mais uma vez, a assistir uma história que já assistimos – uma versão “melhor”. Enquanto compramos a vitória do garoto no primeiro filme, as coisas já ficam extremamente complicadas por aqui – a repetição infinita da mesma estrutura, que alcança, no final das contas, a auto-paródia.

Além do mais, para piorar a situação desse filme, a sequência do longa-metragem original ainda tinha, pelo menos, algum caráter inédito, mesmo seguindo elementos da mesma fórmula. Um recheio distinto. O Desafio Final, contudo, é a redundância glorificada. Como se não bastasse termos mais uma nova mocinha, outra vitória que vem no último minuto, o Senhor Miyagi aparecendo da escuridão, em algum momento, para salvar Daniel-san, vilões malvados e incompreensíveis, até mesmo o torneio, cenário do clímax de A Hora da Verdade, é retomado. O longa-metragem, todavia, começa bem, tratando do declínio na carreira de John Kreese (Martin Kove), mesmo repetindo o uso didático de cenas de filmes anteriores para situar o espectador – menospreza-o, no caso. A obra, infelizmente, não conta com apenas um vilão maquiavélico, mas três completos boçais, ao passo que Kreese recorre ao fundador do Cobra Kai, dono de uma empresa de depósito de lixo tóxico, para restabelecer o dojo. Terry Silver (Thomas Ian Griffith) não apenas aceita ajudar o seu antigo aliado na Guerra do Vietnã, como promete destruir Daniel e o Sr. Miyagi. Sim, um empresário milionário quer se vingar de um mero garoto e um velho apenas porque eles venceram o incompetente do amigo dele em um torneio de caratê sub-18. Uma piada ambulante, Silver vai às últimas consequências para atingir o seu objetivo: destruir um menino. Podemos presumir para onde isso irá, não podemos?

A auto-paródia, reitera-se. Do plano maquiavélico, chegamos a um ponto crucial: Daniel LaRusso está no ápice de sua incompetência. O personagem dos dois primeiros filmes é defensável, o herói do povo, mas, aqui, ele, por algum motivo, acredita que quebrar o joelho do seu adversário, ou dar um soco no rosto dele, o ajudará a vencer um campeonato. Daniel é tão manipulável quanto uma criança de zero anos. Terry Silver, dessa maneira, dissimula um comportamento vilanesco para se apresentar como uma pessoa agradável, mesmo que, dentro do dojo, seja abominável. É interessante essa exploração da raiva interior de Daniel-san, mas, realmente, qual a justificativa do garoto estar tão furioso a ponto de renegar os aprendizados de Miyagi? Ralph Macchio, para piorar, já estava muito velho para o papel, com mais de 25 anos. Para que o apresentar como um adolescente bobalhão novamente? Por que criar uma continuação imediatamente depois do filme antecessor? Que esse fosse o personagem dos dois primeiros filmes, mas, aqui, a relação do jovem com Miyagi já havia passado por alguns momentos que injustificam um comportamento moleque como esse. Já Terry Silver, em cena, não explora os elementos pontuais que poderiam estimular o ódio que se exala do peito do protagonista; como, por exemplo, a completa incompetência do garoto no caratê. Daniel LaRusso deveria sentir vergonha de si mesmo ao assistir as acrobacias que os demais personagens fazem.

O distanciamento de Daniel em relação ao Senhor Miyagi, brincadeiras a parte, apesar de não ser bem resolvido, dá margem a bons momentos do personagem de Pat Morita, encarando a possível perda de seu único estudante – e melhor amigo. O bonsai, além disso, ganha um outro significado para a vida do senhor, que, na trama, se recusa a treinar Daniel-san para um torneio que o garoto está sendo obrigado a competir. O roteiro, “inteligentemente”, cria um cerco em volta do herói: LaRusso não tem escolhas, sendo necessário treinar. O público sente essa pressão. Tal característica da narrativa, porém, é fundamentalmente ilógica, visto que, como mesmo ensinara o mestre: “O caratê para defender honra ou vida significa algo”. A integridade física de Daniel-san não estava sendo ameaçada? Por falar em integridade física, a batalha final conta com uma cena que denota o total arquétipo de vilão, mas que, na realidade, não faz o menor sentido. Mike Barnes (Sean Kanan) começa a falar muitas coisas erradas para Daniel, o xingar de mil e uma maneiras. Isso não custa nenhuma advertência? Por que o personagem de Barnes precisa mover-se com tanto ódio e nem ser, ao menos, apresentado de uma maneira distinta de uma figura genérica? Por outro lado, mesmo unidimensionais, Terry Silver e John Kreese levam a caricatura a níveis de empatia, em especial John Kreese, que ressurge em cena de uma maneira completamente caricata e, consequentemente, espetacular.

O Desafio Final, a partir dessa argumentação, mostra-se um filme extremamente mal estruturado. A construção narrativa encontra falhas, como, por exemplo, o artifício “Miyagi salva Daniel-san”, repetido duas vezes, algo também presente nos outros filmes. A maneira como o protagonista, outrossim, lida com as problemáticas é infantil. Por que o personagem não aprendeu a fechar a porta – em determinada cena? Ao menos, a mocinha da vez não é um mero par romântico. Mesmo sendo clichê o papel da garota em cena – o de par romântico -, todavia, ao menos isso lhe daria um objetivo. A relação de amizade com Jessica Andrews (Robyn Lively), aqui, é explorada superficialmente, apenas para mostrar as possíveis consequências da afetação do protagonista. A personagem já iria sair de cena, então, para que se preocupar com ela? Existem muitas perguntas relacionadas a pura existência desse filme. Como aceitar a aparição extremamente sem-graça da mãe de LaRusso (Randee Heller)? O roteirista Robert Mark Kamen estava realmente no piloto automático. A fórmula The Karate Kid apenas funcionou uma única vez. Como tudo que é ruim pode ganhar mais uma continuação, essa não seria a última incursão cinematográfica na história do Sr. Miyagi. Daniel-san, por outro lado, seria deixado em paz, mostrando o quão pouco aprendeu em tanto tempo. Os resquícios de uma das amizades mais bonitas do cinema dos anos 80 sobram, embora ela não tenha ido, por fim, a lugar algum.

Karatê Kid 3 – O Desafio Final (The Karate Kid – Part III) – EUA, 1989
Direção: 
John G. Avildsen
Roteiro: Robert Mark Kamen
Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Robyn Lively, Thomas Ian Griffith, Martin Kove, Sean Kanan, Jonathan Avildsen, Randee Heller, Pat E. Johnson, Rick Hurst, Frances Bay, Joseph V. Perry, Glenn Medeiros
Duração: 111 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.