Crítica | Karatê Kid 4 – A Nova Aventura

Contém leves spoilers.

Ao se assistir Karatê Kid 3 – O Desafio Final, diversas perguntas surgem questionando as decisões equivocadas que foram tomadas pelos realizadores do filme, muitas vezes, por exemplo, repetindo os mesmos pontos narrativos das obras anteriores. O mesmo pode se dizer de A Nova Aventura, uma espécie de recomeço da franquia, que manteve apenas Pat Morita, o Senhor Miyagi, na produção,. No final das contas, a obra mostra-se extremamente desinspirada, mesmo estando longe de ser uma bomba completa. O jovem Daniel LaRusso sai de cena e a protagonista torna-se Julie Pierce (Hilary Swank), neta de um oficial que lutou ao lado de Miyagi na Segunda Guerra Mundial, e que está sendo homenageado em Boston, junto de todo o seu regimento. A história em si é uma remodelagem da original, mesmo que possua certas diferenças. As interações de Miyagi com a protagonista são, novamente, o cerne da obra, mas a relação do mestre com Pierce não é a mesma do garoto com Miyagi. Para Daniel-san, Miyagi era mais como um amigo, enquanto, para Julie, o personagem de Pat Morita assume uma função paterna. Julie, afinal, é órfã, vivendo sozinha com a sua avó. A figura de Miyagi surge em cena para tentar apaziguar o coração enfurecido da menina, trocando de posição com Louisa Pierce (Constance Towers), que o deixa morando em sua casa.

Começando com as pontuações negativas, é nesse ponto que surge uma primeiríssima problemática, visto que o roteirista Mark Lee não encontra um gatilho bem resolvido para dar pontapé a essa relação. Por que Louisa Pierce deixaria sua neta sozinha por meses com um senhor que a garota nem ao menos conhecia? A nossa pretensão de que essa personagem é importante revela-se enganosa, ao passo que a figura da avó simplesmente some do longa. Ao menos, Pat Morita permanece para brilhar. Fora o relacionamento, a premissa segue caminhos básicos. Julie Pierce sofre avanços sexuais de Ned Randall (Michael Cavalieri), membro do grupo Alfa Elite, uma fraternidade que preza a segurança da escola. Na realidade, as intenções de Ned Randall são muito mais próximas de um assediador, um maníaco, e assim é, visto que o jovem quer levar Julie para o cais, com este objetivos secundários, extremamente nocivos e condenáveis. Mais uma vez, Karatê Kid fabrica vilões unidimensionais, atingindo o ápice na criação preguiçosa de antagonistas. De certa forma, o que se cria é a paródia do formato, porém, levado a sério. O Coronel Paul Dugan (Michael Cavalieri) é raso ao extremo; uma redundância de John Kreese, mas sem o mesmo “charme” maquiavélico. A categorização destes personagens como incompreensíveis é certamente válida, visto que os mesmos caminham para lugares extremamente obscuros, mas injustificáveis.

O absurdo é, então, levado ao extremo. Como o Coronel Paul Dugan ordena que os seus alunos matem um garoto? Você é o líder de um grupo de adolescentes “monitores”, mas que usam violência física para monitorizar, não um vigilante mascarado. Aliás, por que Dugan compra a briga deles, claramente um bando de idiotas que estavam assediando uma garota e implicando com o namorado – outra constante da franquia, “quebrada” apenas no terceiro – dela? No caso, Ned Randall cria um ódio gigantesco por Eric McGowen (Chris Conrad), garoto que abandona o Alfa Elite e começa a se aproximar de Julie Pierce, indo até as últimas consequências se vingar por alguma coisa que não é nenhum pouco bem entendida pelo público. Karatê Kid também tem seus momentos mais bregas sob um ponto de vista técnico, utilizando a trilha sonora perceptível para provocar uma sutileza, assim como usa demasiadamente a câmera lenta nas lutas, as quais não são tão presentes no filme quanto eram nas obras anteriores. Por outro lado, Karatê Kid 4 se esforça bastante na construção da personagem principal, que acaba sendo mais interessante que Daniel LaRusso. Os ensinamentos de Miyagi, contudo, permanecem na esfera física, visto que o filme não dá espaço para a personagem mostrar uma construção filosófico, com Eric McGowen tomando o espaço da fúria da personagem. A sensação, novamente, é de repetição.

Ademais, a sub-trama envolvendo o falcão Angel perde impacto, visto que não encontra significado maior no meio de uma bagunça discursiva. A direção de Christopher Cain, contudo, até tem certa inventividade, quando faz uso do contra-plongée para engrandecer o plano em que Julie e Eric conversam em cima do trem, aproximando-os de um céu que está distante. Um outro ponto a diferenciar a garota de LaRusso são as habilidades no caratê. Hilary Swank mostra, apesar de não ser impecável na arte, muito mais competência com as habilidades necessárias para o papel, dando origem a boas coreografias. O mais interessante é que A Nova Aventura até tem uma espirituosidade curiosa. A presença dos monges é uma digressão enorme, mas, em termos gerais, agrega muito para uma relação de aproximação do espectador com a obra. O público, teoricamente, poderia se afeiçoar por ela paralelamente a uma afeição por esses coadjuvantes. De qualquer forma, o longa-metragem acabou sepultando a franquia por bastante tempo, sendo a última participação de Pat Morita, o eterno Senhor Miyagi, nesse universo que o tornou uma figura icônica. O fracasso na bilheteria e de crítica colocou The Karate Kid na geladeira até que um reboot fosse encaminhado em 2010 e tivéssemos que revisitar uma nova versão do clássico de 1984. A primeira tentativa de recomeço, entretanto, provou não conseguir se equiparar ao original.

Karatê Kid 4 – A Nova Aventura (The Next Karate Kid) – EUA, 1994
Direção: Christopher Cain
Roteiro: Mark Lee
Elenco: Pat Morita, Hilary Swank, Michael Ironside, Constance Towards, Chris Conrad, Michael Cavalieri, Walton Googins, Frank Welker, Arsenio ‘Sonny’ Trinidad
Duração: 107 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.