Crítica | Keane & Vieira: Best of Enemies

Documentários sobre futebol geralmente mexem no típico caldeirão de temas que o esporte proporciona com fartura aos seus narradores. Superação, heroísmo e redenção dificilmente rendem más estórias, mas, dificilmente, rendem memoráveis. Uma pitada de rivalidade, ódio e polêmica sempre serve como tempero especial para retratar com maior realismo determinadas épocas, sem o pressuposto de isenção que contamina tantos documentários que se propõem históricos.

Sem o manto da isenção, é imperativo constatar que história neutra é papo furado – o golpe dos cursos universitários sobre o “golpe” é o exemplo mais palpável. O que fazer? No futebol, ora a história cai em melancólico saudosismo, ora no famigerado “eu estava lá!” quase cuspido do alto da arrogância de quem o brada, homem de confiança absoluta em suas infalíveis memórias. Entre o comentário chulo de especialistas e ex-jogadores – que se tornam especialistas no momento em que penduram as chuteiras, graças ao milagre da falta de estudo e da “ôtoridade” tão apreciada em terras tupiniquins – e a conversa de bar que nunca deixará de ser o que é, o futebol caminha com seus clichês cansativos e frases feitas – tal como religião, política e cultura pop, a queridinha da vez.

Felizmente, vira e mexe, aparece alguma coisa que nos lembra que o esforço pela verdade em política, religião e futebol continua valendo a pena, ainda que ela seja inalcançável. Algo que nos dá uma satisfação além dos raros gols do time de coração ou das cirúrgicas crônicas de Nelson Rodrigues – o último a tratar o futebol com a liturgia merecida, inimitável pela macacada reunida da nossa atualíssima imprensa esportiva, salvo Tostão nos seus bons dias.

Falo, é óbvio ululante, de Keane & Vieira: Best Of Enemies. A imprensa gringa – principalmente a inglesa em seu nicho sério, porque o tabloide lá é o suprassumo do lixo que tentamos imitar nos nossos jornaizinhos canalhas de almoço – sabe acariciar nossa dama. Dos narradores aos hooligans, da quantidade e qualidade de torneios ao respeito pela tradição dos clubes, da obsessão pelo alto nível à valorização dos clubes de bairro, lá – na terra da Rainha – tudo é melhor, que me desculpem os ufanistas e as viúvas de O divã, Odvan. Até a treta soa mais verdadeira dentro de estádios verdadeiros – templos como Anfield, Old Trafford e Highbury são mil vezes melhores do que qualquer arena sem nome por aqui.

O cenário de Best Of Enemies é a Premier League – vulgo Inglesão – entre 1996 e 2005. Especificamente, trata-se da feroz rivalidade entre o londrino Arsenal e o Manchester United, representada em seus capitães na maior parte desse período: o volante francês Patrick Vieira, campeão mundial em 1998 contra o Brasil, e o volante irlandês Roy Keane, que nem disputar mundial disputou, cortado de última hora da delegação de seu país em 2002 – mas minha descrição é maldosa e injusta. Roy Keane foi um jogador fora de série, autêntico líder em espírito e técnica, capitão das maiores conquistas da história do Manchester United, mais artilheiro e mais campeão do que Vieira.

O francês, técnico, ágil, seguro e vertical, foi no Arsenal, acima de tudo, um líder. De passada mais larga e mais defensivo do que Keane, era o pilar de equilíbrio de uma equipe forte e vitoriosa. Quem exercia semelhante função no Manchester United era Paul Scholes. Roy Keane, tão líder quanto Vieira e mais artilheiro do que o francês, repousava em um estilo de jogo mais feroz, agressivo, “raçudo”, sem excluir sua qualidade técnica geralmente exposta na distribuição de jogo do time.

De qualquer modo, por que compará-los fugazmente, de bate pronto?

O documentário de Tim MacKenzie-Smith nos responde. Relembrando os tempos em que o supercampeão dos anos 90 Manchester United começou a ser desafiado pelos gunners de Arséne Wenger, o diretor expõe a rivalidade dos dois clubes nos símbolos de seus capitães. Diversos episódios de ferocidade em campo e fora dele ditam o tom do que foi, talvez, o último grande embate entre grandes do futebol em terras britânicas.

No período retratado, o Manchester de Sir Alex Ferguson venceu seis Campeonatos Ingleses e uma Liga dos Campeões, marcando a história como uma das melhores equipes dos Red Devils. Era o time de David Beckham, Ryan Giggs, Paul Scholes, Dwight Yorke, Ole Gunnar Solskjaer e, mais tarde, do holandês Ruud Van Nistelrooy, um dos melhores atacantes do mundo nos anos 2000.

O Arsenal, de Arséne Wenger, se propôs como desafiante à hegemonia que o Manchester conquistara nos anos 90. Conseguiu apenas metade dos campeonatos ingleses – três – e nenhuma Liga dos Campeões. Foi, todavia, o único campeão invicto em mais de cem anos de liga inglesa, em 2004. “The Invincibles” contavam com Campbell, Pirés, Ljunberg e Bergkamp, além dos brasileiros Gilberto Silva e Edu Gaspar e um dos maiores atacantes da história do futebol, Thierry Henry – também maior artilheiro da história do Arsenal.

Era briga de gente grande.

E a coisa ficou feia, muitas vezes. Wenger e Ferguson nunca se deram completamente bem nos bancos. Deles, a tensão saía e se concentrava em cada jogador, especialmente nos capitães das equipes. O simples fato dos dois se sentarem frente a frente, com seus ternos bem alinhados, calmos e educados, certamente soa como algo inimaginável e até cômico para quem viveu tal época e lembra, ainda que vagamente, das faíscas que saíam em cada Arsenal x Man. U.

No âmago do documentário é que o decoro inglês surge cirurgicamente para impedir que tal encontro vire ou conversa de bar ou, muito pior, o encontro de dois homens adultos contando vantagem em cima do outro, como dois adolescentes que patofalam suas iradas noites de balada. O assunto aqui é futebol. Ponto. É o jogo, é a tática, é o entorno. É um jogador elevando a qualidade do outro e detalhando as diferenças técnicas e comportamentais que passam despercebidas nos comentários dos analistas. São as memórias das partidas, são as admissões de derrotas e as especulações das negociações que vem à tona, pela boca de quem as sentiu na pele. É o simbolismo de uma faixa de capitão e é o que representa Arsenal para Vieira e Manchester para Keane e vice-versa. É a escalação, por fim, dos dream teams deste período na visão de ambos – e é a tentativa bem-humorada de junção dos dois times, em um final de documentário memorável.

Vieira e Keane conversam e isso basta. O diretor consegue, com sabedoria, puxar os temas relevantes – e polêmicos – da história de ambos, principalmente na jornada de Keane, equilibrando bem a balança que todo homem de imprensa tem de ter. Corajoso sem ser sensacionalista, consegue escancarar os pontos que todo fã tem curiosidade, deixando seus convidados mais do que descontraídos para que uma conversa franca não vira um mise-en-scène patético, onde um concorda com o outro em tudo desde o início.

Com a conquista da Premier League de 2005 pelo Chelsea, do então estreante José Mourinho, e a saída – polêmica, para variar – de Keane para o Celtic, da Escócia, e de Vieira para a Juventus, da Itália, uma era se acabava. É bem verdade que o Arsenal chegou à final da Liga dos Campeões em 2006 – perdida para o Barcelona de Ronaldinho – e que Sir Alex Ferguson reinventaria o Manchester United nos anos seguintes, conquistando novamente um tricampeonato inglês (07-08-09) com a ajuda de Wayne Rooney e Cristiano Ronaldo. Mas estes já eram outros tempos. A rivalidade minguara.

O que restaram foram as memórias. Muitos jogadores de excelência técnica passam por esses gigantes europeus e alguns até conquistam importantes títulos. Poucos, porém, podem ser considerados figurinhas carimbadas em qualquer escalação de todos os tempos de qualquer fã dos clubes. Vieira e Keane, volantes, contemporâneos, rivais, transcenderam suas épocas e entraram na história mais do que centenárias de seus clubes. São espelhos vivos para uma reflexão sobre o que envolve o jogo.

Lendas, conscientes de si mesmas, sorriem um ao outro, como que dizendo: fizemos o nosso papel com a grandeza que nossas camisas exigiam.

Keane & Vieira: Best Of Enemies (UK, 2013)
Diretor: Tim MacKenzie-Smith
Roteirista: Gabriel Clarke
Entrevistados: Roy Keane, Patrick Vieira
Duração: 60 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.