Crítica | Keoma

estrelas 5,0

 

“He can’t die. And you know why? Because he is free. A man who is free never dies.”

 

Filho de um grande fã de western, lembro de um dia em que meu pai assistia um filme de faroeste que chamou minha atenção. Lembro de estar ocupado com alguma coisa, mas algo me ligou de primeira no filme: a distinta trilha. A música tema parecia ser perfeita pra narrar aquele estranho personagem barbudo que sofria horrores, mas que parecia ser imortal. Perguntei meu pai que filme seria aquele e comentamos como a trilha sonora era incrível. Aquele seria Keoma, filme que um tempo depois resolvi tirar pra assistir com atenção.

O filme conta a história de um pistoleiro mestiço, Keoma (Franco Nero), que resolve voltar para a cidade onde cresceu. Lá ele encontra uma cidade bem diferente da que deixou anos atrás: devastada pela peste e sob o comando de um homem chamado Capitão Caldwell. Este forma a imagem do “grande chefe”, mas os reais nêmesis da trama são seus três empregados e meio-irmãos de Keoma, os quais nunca aceitaram o mestiço como irmão. A partir dalí, Keoma começa uma saga confrontando o passado e tentando tirar a cidade das mãos dos criminosos.

Keoma é um clássico do western, mas isso não significa que possui grandes inovações. Segue na linha de vários clichês do estilo sem fazer que isso se torne um problema para o ele. O personagem título é uma espécie de guia para o roteiro, Keoma vai conhecendo e lembrando a cidade e os personagens na mesma medida que nós vamos os conhecendo. Tudo acontece com seu tempo, sem se tornar repetitivo ou monótono. É por essa simplicidade de enredo que somos imersos na história, nos diálogos funcionais e no drama por trás de cada personagem. Quando o clímax e o famoso “bang “bang” chegam, já estamos dentro do filme e a atenção já foi tomada por completo. Enzo Castellari merece aplausos por sua direção que nos conduz com bastante cuidado por essa saga. Interessante como, dessa maneira, o filme entra naturalmente até mesmo em temas polêmicos – como o racismo – e os aborda de maneira excelente, sem parecer apelativo.

Importante ressaltar as referências bíblicas nítidas no filme. Keoma e seus irmãos se assemelham bastante com a história de José do Egito. Ambos os personagens possuem o favoritismo do pai, o que provoca então a inveja e o ódio por parte de seus irmãos. Maior que essa referência apenas a do próprio Jesus Cristo, já que Keoma é como um salvador para a cidade. Assim como Jesus, era invejado e odiado pelos mais poderosos da região (que temiam perder o poder), além de ser mal interpretado por vários que ele tentava ajudar. Note como a aparência do personagem faz questão de lembrar Cristo, além do final, onde é quase “crucificado” e a câmera dá um foco especial na cena.

A trilha sonora é uma grande cartada do filme e segue de muleta básica para o roteiro. É impossível comentar sobre Keoma e não falar de sua sensacional trilha e música tema cantada por Sybil e Guy. Esta entra muito bem no sofrimento do personagem através do arranjo sombrio, o lamento assustador na voz da cantora, a rouquidão sinistra na voz do cantor, além de sua letra totalmente ligada ao enredo. Seu melhor adjetivo é “única”, pois você jamais vai encontrar uma igual.

Keoma é um clássico indispensável para quem é fã de western. Seja devido aos temas e referências que aborda, seja pelo carisma de seu personagem principal – um excelente trabalho de Franco Nero – ou pela sua trilha sonora única. Pode não ser o western mais cult de todos, mas assistí-lo com certeza é uma experiência gratificante até para o menor dos cinéfilos.

Keoma – Itália, 1976
Direção: Enzo G. Castellari
Roteiro: Manolo Bologni
Elenco: Franco Nero, Woody Strode, William Berger, Donald O’Brien, Olga Karlatos, Giovanni Cianfriglia, Orso Maria Guerrini, Gabriela Giacobbe, Antonia Marsina, Joshua Sinclair, Leonardo Scavino, Wolfango Soldati, Victoria Zinny
Duração: 105 minutos

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.