Crítica | Kick-Ass 2

estrelas 3

Ora, ora, quem diria! Tendo lido o primeiro arco de quadrinhos de Kick-Ass e ficado desapontado com o resultado da adaptação cinematográfica, li o segundo arco achando que encontraria algo da mesma qualidade e fiquei novamente desapontado. Mark Millar escreveu uma história exagerada, que traía o primeiro arco e, por isso, tinha poucas esperanças em relação à Kick-Ass 2 (o filme).

E aí é que o “ora ora, quem diria” acima se justifica. Jeff Wadlow, um ilustre desconhecido que pulou para o lugar de Matthew Vaughn na continuação, tendo, ainda por cima, sido o responsável pelo roteiro, soube remover cirurgicamente toda a porcaria dos quadrinhos de Kick-Ass 2, fazendo uma continuação em película muito mais próxima do espírito do arco original e em muitos aspectos melhor do que o filme original. Isso não faz de Kick-Ass 2 um filme sensacional, pois o material fonte é ruim, mas, pelo menos, o resultado é divertido e descompromissado. Isso se você não for uma daquelas pessoas que têm a tendência de levar esse tipo de filme muito a sério. Ah, e tem que aguentar também uma certa quantidade de violência gráfica, ainda que cartunesca.

Mindy MacCready (Chloë Grace Moretz), a desbocada e mortal Hit-Girl, agora vive com o policial Marcus Wallace (Morris Chestnut) em um idílica casinha de subúrbio americano. Marcus, melhor amigo do falecido pai de Mindy, prometeu cuidar da garota e faz de tudo para ela não seguir sua carreira de super-herói. Mas, claro, toda vez que pode, Mindy põe sua peruca roxa e sai à caça de bandidos para massacrar. Por outro lado, Kick-Ass (Aaron Taylor-Johnson) aposentou o uniforme depois dos eventos do primeiro filme, mas está inquieto, querendo voltar à ativa. Não demora muito e Hit-Girl passa a treinar Kick-Ass na arte de… bem, chutar bundas.

Depois de uma ação explosiva, Marcus faz Mindy prometer aposentar Hit-Girl e ela obedece, para desespero tanto dela quanto de Kick-Ass, que passa a procurar a companhia de outros mascarados. Sua busca culmina na formação da versão “real” da Liga da Justiça, batizada de Justiça Eterna, grupo comandado pelo Capitão Estrelas (Jim Carrey).

Ao mesmo tempo, Chris D’Amico (o Red Mist do primeiro filme – vivido por Christopher Mintz-Plasse) quer se vingar de Kick-Ass por ele ter matado seu pai. Para isso, ele reúne sua própria gangue de super-vilões para destruir tudo que está pela frente.

Wadlow trabalha os super-heróis e super-vilões separadamente em duas linhas paralelas que, sabemos, convergirá em algum momento. Enquanto ele tenta suprimir a violência extrema no lado dos heróis, mesmo quando Hit-Girl está envolvida, ele não economiza baldes de sangue digital (muito mal feito, por sinal) no lado dos vilões. Antes da convergência final, o lado bom e o lado mal estão claramente divididos, sem que a fita faça qualquer tipo de apologia ao vigilantismo cego como muitos tem apregoado por aí.

O maior acerto de Wadlow, porém, está justamente em manter a história dentro do mundo originalmente criado por Mark Millar, ou seja, o mundo restrito de um super-herói fajuto lutando contra vilões menores. Ao tirar da HQ suas ambições de “dominação mundial”, com estupros, mortes de crianças e tudo mais, Wadlow ancorou Kick-Ass 2 em uma estrutura aceitável, mais aceitável ainda que o exagerado clímax do primeiro filme com a mochila voadora e Kick-Ass matando pessoas.

Se Kick-Ass se encontra na Justiça Eterna (ele ganha até um caso com Night Bitch! – vivida por Lindy Booth), Hit-Girl entra em desespero ao tentar se ajustar à vida civil. Em sua escola, ela tem que lidar com Brooke (Claudia Lee), a autodenominada “abelha rainha”, o que acaba resultando em um momento escatológico que poderia ter sido mais bem resolvido (na HQ Hit-Girl, o desfecho é bem mais eficiente, homenageando O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller).

Wadlow faz o que pode com seu orçamento, mas os efeitos especiais sofrem muito em Kick-Ass 2. Do já mencionado sangue digital, passando pela maquiagem (o sangue não digital também é péssimo) e culminando em cenas de ação como a que acontece em cima de uma van, tudo ganha um tom artificial que distrai o espectador, momentaneamente retirando-o do filme.

Outro problema é a montagem. Apesar de mais curto que o filme original, a segunda metade da película, com Mindy aposentada e Kick-Ass se unindo à Justiça Eterna, é muito arrastada e crivada de momentos que só estão lá porque também estão na HQ, mas sem qualquer função específica dentro da trama. E, quando vemos ação, ela sofre com cortes e transições rápidos demais que confundem o espectador quase tanto quanto os cortes de Michael Bay na franquia Transformers. A vantagem, pelo menos, é que o design dos uniformes dos heróis e vilões, ao contrário dos robozões, torna a identificação dos personagens bem mais fácil na confusão.

No quesito atuação, a não-mais-tão-pequena-assim Chloë Grace Moretz mostra a que veio e domina o filme do começo ao fim, com ou sem máscara, com ou sem peruca roxa. Sua presença é magnética e Wadlow sabe explorar esse aspecto muito bem na fita, concedendo-lhe um bom tempo em cena e quase que integralmente todas as sequências de ação, com direito a frases de efeito e close-ups em seu rostinho diabolicamente angelical. Aaron Taylor-Johnson faz o que pode para se sobressair, mas, além de fazer cara de espantado, não consegue um resultado nem de longe tão eficiente. O mesmo não pode ser dito de Jim Carrey que, apesar de aparecer pouco, surpreendentemente não faz nada histriônico como se poderia esperar (meu receio era algo na linha de seu Charada) e convence no papel de um ex-mafioso que se transforma em super-herói, com direito a um assistente canino e a uma versão pobre da batcaverna.

Esperava bem pouco de Kick-Ass 2 e fui surpreendido positivamente. Isso pode não ser exatamente um elogio à capacidade de Wadlow de dirigir e escrever um filme, mas, pelo menos, o resultado é bom o suficiente para que nos preocupemos pelos personagens e vibremos com Hit-Girl. Ora, ora, quem diria…

*Publicado originalmente em 19 de outubro de 2013.

Kick-Ass 2 — EUA/Reino Unido, 2013
Direção: Jeff Wadlow
Roteiro: Jeff Wadlow, Mark Millar (HQ)
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Chloë Grace Moretz, Morris Chestnut, Claudia Lee, Clark Duke, Augustus Prew, Donald Faison, Garrett M. Brown, Christopher Mintz-Plasse, John Leguizamo, Jim Carrey, Lindy Booth
Duração: 103 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.