Crítica | Kick-Ass: A Nova Garota – Vol. 1

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Quando Mark Millar anunciou que o volume 3 de Kick-Ass seria a última história do personagem, confesso que cocei a cabeça em incredulidade. Afinal, Kick-Ass é, provavelmente, a mais bem sucedida HQ do chamado Millarworld, ainda que não necessariamente a melhor, tendo ganhado duas adaptações cinematográficas que, se não foram um sucesso estrondoso, ajudaram a sedimentar a mitologia do personagem no imaginário popular.

Mas o que o tempo não faz, não é mesmo? Depois de fazer um mega-acordo com o Netflix que colocou o canal de streaming no mercado de quadrinhos com The Magic Order e que promete trazer adaptações televisivas (tanto séries quanto telefilmes) de várias de suas criações, Millar voltou a Kick-Ass com força total, lançando, em fevereiro de 2018, não uma, mas duas HQs mensais dentro desse universo bem particular. Uma delas é focada exclusivamente em Mindy McCreary, mais conhecida como Hit-Girl, a garota ninja invencível que se tornou ainda mais famosa que o próprio Kick-Ass, desta vez lidando com o crime pelo mundo, e, a segunda, no próprio Kick-Ass, ou melhor, em uma nova versão de seu clássico personagem. Sai o nerd Dave Lizewski e entra Patience Lee, uma veterana de guerra que volta à sua vida de civil somente para descobrir que seu marido a deixou sem dar satisfações, largando-a com seus dois filhos e com uma enorme dívida.

Millar não perde tempo em seu arco introdutório. Na primeira página na primeira edição, já vemos Patience Lee com o uniforme de Kick-Ass, capturada por um bandido, em uma situação aparentemente sem saída. Claro que o autor logo nos deixa “pendurados” e volta no tempo para mostrar a coragem de Lee na linha de fogo no Afeganistão e sua subsequente volta aos EUA, mais especificamente para Albuquerque, no Novo México, quando descobre que está praticamente falida e que, seguindo linhas de diálogo literalmente retiradas de Rambo – Programado Para Matar, percebe que veteranos de guerra não têm vez no mercado de trabalho. Sem ter para onde correr, ela decide dar uma de Robin Hood, usando o uniforme de Kick-Ass para esconder sua identidade e para roubar do crime organizado para manter sua família e para doar dinheiro para instituições de caridade. O que começa com um roubo menor – que é o que a leva à situação que abre a primeira edição – vai sendo escalado em seriedade e tamanho a cada novo número naquele clássico estilo extremamente exagerado de Mark Millar.

E notem que o autor não procura justificar demais a escolha de Patience pelo uniforme e nem explicar como ela o consegue. Logicamente, fica nas entrelinhas a homenagem ao personagem original e pronto, nada muito mais elaborado do que isso. Afinal, Patience não é uma nerd ou fã de quadrinhos ou qualquer outra coisa nessa linha. Ela é, muito ao contrário, uma soldada, e, como tal, assemelha-se muito mais a Hit-Girl, mas sem, no começo, fazer uso da extrema violência, tentando manter as coisas dentro de um nível civilizatório razoável que, claro, por razões fora do controle dela, logo saem dos trilhos. Mas enquanto Hit-Girl passa aquela sensação divertida de um personagem impossível, caricato e que exige uma boa dose de suspensão da descrença para que a aceitemos, com Patience Lee a coisa é um pouco – ênfase no “um pouco” – mais lógica e natural. Guardadas as devidas proporções, ela é a versão feminina de John Rambo ou, talvez, de Frank Castle, o Justiceiro, ainda que suas motivações não sejam relacionadas com vingança.

Usando seus conhecimentos e treinamento, ela não faz nada sem planejamento detalhado, algo que é trabalhado dentro do roteiro de maneira inteligente, mostrando sua vida diurna como mãe e a noturna como Kick-Ass, mas que não significa que ela sai toda noite para “fazer justiça” como era o caso inicialmente de Lizewski, muito mais dentro do conceito de vigilante do que Patience. Afinal, seu objetivo é puramente financeiro, mas sem pretensões de tornar-se milionária e suas ações são cirúrgicas. Ela rouba da bandidagem local para manter-se financeiramente estável apenas e todo o excesso de dinheiro é doado, o que lhe dá a roupagem de Robin Hood que mencionei.

Mas Millar sendo Millar, é óbvio que ele jamais ficaria contente apenas com isso e é esperado que o revide da máfia, comandada em parte por Hoops, escalaria a pancadaria rapidamente. Eu só não estava esperando que fosse tão rapidamente. Sem dar tempo para o leitor respirar, o crescendo de violência é quase enlouquecedor, com Patience logo tendo que enfrentar capangas como Violencia (a versão do Duas-Caras do Millarworld) e Sr. Solo, que muito se assemelha ao Sr. Wolf, de Pulp Fiction, na base do improviso, o que, inevitavelmente, começa a “esticar a corda” do pouco de verossimilhança que a história mantinha. Só que isso faz parte de Kick-Ass e, se pensarmos bem, de quase tudo que Millar escreve. Além disso, agora não estamos falando de uma menininha armada até os dentes ou de um adolescente completamente despreparado. Patience Lee é uma mulher adulta e altamente treinada, com experiência de guerra em ambiente completamente hostil e que exige justamente o improviso. É mais fácil aceitar as situações impossíveis em que ela se mete do que as que os personagens originais de Millar se metiam e isso torna a leitura fácil, fluida e com uma boa lógica interna, mesmo considerando a “reviravolta” final que, para todos os efeitos, altera drasticamente o status quo da nova super-heroína e que promete novos e potencialmente interessantes arcos (ainda que o primeiro seja bem fechado).

Há uns probleminhas aqui e ali mais ligados às elipses temporais que, porém, não retiram a qualidade do texto simples e objetivo de Millar e da arte cinética e em ótima forma de John Romita Jr. que também volta à sua parceira e co-criação com o roteirista. O artista trabalha muito bem os momentos de ação e pancadaria desenfreadas, ainda que não resista em desenhar a protagonista com feições talvez um pouco mais jovens do que deveria ter. Além disso, como o ambiente é bem menos cheio de personagens extravagantes, já que não há gente mascarada andando para todo lado, a pegada de Romitinha é decididamente mais sombria, só que na medida certa, tornando Lee uma personagem com quem o leitor pode conectar-se com rapidez e, mais do que isso, acreditar nela já nas primeiras páginas, algo essencial não só para reduzir o choque na linha do “ó céus, Dave Lizewski não é mais o Kick-Ass!” como, também, para tornar mais fácil sua transição meteórica de “mãe e soldada que se arrisca para roubar bandidos” para “super-heroína invencível que extermina bandidos sem dó nem piedade”.

Patience Lee pode ser uma amálgama de muitos personagens conhecidos – começando, obviamente, pelo Kick-Ass original e Hit-Girl, passando por Rambo e Robin Hood, chegando em Sarah Connor e Ellen Ripley -, mas ela é bem construída, crível (dentro da lógica da HQ) e ganha uma história introdutória de caráter cinematográfico e de extrema violência que consegue reviver de forma eficiente e, principalmente, diferente, o bem estabelecido nome Kick-Ass. Millar, depois de três anos e meio, reativa sua galinha dos ovos de ouro com uma série com suficiente frescor para merecer acolhida por seus leitores.

Kick-Ass: A Nova Garota – Vol. 1 (Kick-Ass: The New Girl – Vol. 1, EUA – 2018)
Contendo: Kick-Ass (2018) #1 a 6
Roteiro: Mark Millar
Arte: John Romita Jr.
Arte-final: Megan Bates (#4), Peter Steigerwald (#4, #5), Megan Shirk (#5)
Cores: Beth Sotelo (#4, #5), Peter Steigerwald (#4, #5)
Letras: John Workman
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: fevereiro a julho de 2018
Páginas: 188

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.