Crítica | Kill Bill Vol. 1 (Trilha Sonora Original)

estrelas 5,0

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

Continuando a nossa saga das trilhas musicais dos filmes de Quentin Tarantino, eis que chegou a vez de Kill Bill Vol. 1. Sendo esta minha primeira análise de trilha, fico felicíssimo em logo escrever sobre a trilha de um dos meus filmes favoritos. Como já ficou bem entendido no nosso panorama, Tarantino pensa na trilha musical dos longas com extremo cuidado. Selecionar a playlist de uma de suas obras deve ser uma tarefa árdua, mas o resultado é muito gratificante.

Por que? Oras, porque ele sempre, sempre, usa a música em favor da narrativa. E isso engrandece o filme de modo monumental. O mais interessante é que raramente contamos com a trilha original, mas sempre através de canções licenciadas. Não tenho ressalva alguma com o trabalho dele nessa escolha musical. Vocês verão a razão disto a seguir.

Durante os créditos iniciais, logo após a Noiva levar uma bala na cabeça, o diretor insere a clássica Bang, Bang – My Baby Shot Me Down da ótima Nancy Sinatra. A letra da canção casa perfeitamente com toda a situação da Noiva e oferece um breve resumo da história de amor de Bill e ela.

Obviamente, a música remete a um tiroteio – literal no filme, figurado na canção. Além disso, na letra, o atirador – homem pela qual a interprete está apaixonada, veste preto. Já ela, branco. Na melodia lamuriosa, triste, também diz que foi abandonada. Seu querido a largou no chão, “baleada”. Enfim, mais óbvio impossível. Impressionante como é plausível que, conhecendo as neuras do diretor, Tarantino tenha feito a saga da Noiva baseada principalmente por essa canção.

Logo após os créditos, durante o confronto com Vernita, Tarantino usa pela primeira vez o trecho de Ironside, do jazz fabuloso de Quincy Jones, que é recorrente sempre quando a Noiva é obrigada a confrontar um personagem responsável pela matança que a levou ao coma. O uso da música é catártico e neurótico. Serve para colorir musicalmente todo o ódio, a raiva e a dor que a Noiva carrega consigo – como se a música a motivasse psicologicamente para a vingança, sintetizadas pelo tom agudo dos primeiros segundos do trecho.

Depois, com sentido menos poético, mas mais funcional, Tarantino encaixa That Certain Female de Charlie Feathers – cantor clássico do cenário country. A música entra no flashback onde o detetive texano chega até a igreja e se depara com a carnificina descobrindo que aquela certa mulher estava viva.

Agora, em uma das sequencias mais fantásticas do filme, Tarantino pega o talento inesquecível de Bernard Hermann – um dos compositores mais famosos da Hollywood Clássica, com Twisted Nerve, peça que ele compôs para um filme homônimo. Não satisfeito em suplantar a atmosfera tensa e aterrorizante provada pela música, Tarantino faz Elle Driver assobiar a melodia principal enquanto apresenta a personagem. É verdadeiramente tenebroso e maligno. Fora que somos presenteados com uma ótima montagem paralela que o diretor chupinhou do trailer de Black Sunday, filme de 1977.

Depois dessa cena, para vermos como Tarantino é muito pontual com as músicas, somente escutamos outra peça significante na sequência em anime que traz a história de Oren Ishii. Nela temos a música brilhante do peruano Luiz Bacalov, The Grand Duel (Parte Prima). A peça musical é voltada para os saudosos westerns spaguetti o que já torna seu uso muito curioso ao casar com o desenho oriental. Na narrativa da sequência, até temos um quê de uma tragédia digna de um western. Vale notar como ele usa o anti clímax da composição – quando a gaita é cortada ao dar lugar às vozes lamuriosas, justamente no ponto derradeiro da tragédia – a morte dos pais de Oren.

Já quando a Noiva recebe a sua katana soldada pela lenda Hattori Hanzo, durante a cerimônia, Tarantino confere a cena o tom esperançoso com a belíssima The Lonely Shepard de Gheorghe Zamfir. A composição sustentada principalmente pela melodia da flauta é mágica. A música é poderosíssima. Eleva a cena a outros patamares do épico intimista. Ainda mais quando os instrumentos auxiliares reforçam a melodia. Ela simboliza muito bem o tom gratificante vindo da recompensa de um mestre satisfeito, porém, ao mesmo tempo que conclui um ciclo, a música divina pode ser encarada facilmente como uma motivação, uma aspiração a outra grande aventura que está prestes a começar. Não é preciso dizer que Tarantino faz uso dessa peça justamente quando a Noiva parte para Tóquio onde sabemos que acontecerá a maior luta do filme.

Largando então o íntimo, Tarantino encaixa na sequencia o jazz estupefato de Al Hirt com Green Hornet. A aventura de fato começa. A Noiva chega a Tóquio com sede de sangue. Entusiasmada, confiante e sexy assim como a música de Hirt. Então, ainda utilizando o tema de Besouro Verde para concluir a cena da “perseguição”, o diretor encaixa um breve flashback para apresentar Sophie. Saindo dele, temos a preparação tensa da iminente batalha com Battle Without Honor or Humanity de Tomoyasu Hotel. A música acompanha brevemente a Noiva para então conferir estilo ao apresentar Oren em seu kimono, acompanhada de sua guarda pessoal enquanto desfila no corredor vermelho sangue do restaurante House of Blue Leaves.

Então temos pela primeira vez o uso diegético da música – a canção Woo Hoo é cantada na cena pela banda que toca no local. Já durante as batalhas contra os guarda costas de Oren e com os Crazy 88 praticamente não há uso da música, mas sim um festival de sons fantásticos capturados pela edição de som e misturados na mixagem. Quando a música surge, temos na verdade um compilado com trechos de diversas composições que não pertencem ao álbum. Novamente, os retalhos de música combinam com os desmembramentos diversos causados pela luta com a Noiva.

Enfim, chegamos ao clímax. Após a Noiva matar praticamente todo mundo, ela finalmente tem o primeiro sabor verdadeiro da vingança. Finalmente ela enfrenta Oren Ishii! Na luta dos duas espadachins, Tarantino usa apenas a melodia instrumental de Don’t Let Me Be Misunderstood de Santa Esmeralda. A função da música é clara. É um tease, uma provocação de olhares enquanto a tensão da batalha começa a fluir na pequena “cerimônia” que a antecede. Tanto que assim que a Noiva leva um golpe nas costas e cai derrotada, a “fantasia” heroica da música cessa. Agora a luta é para valer. Permanecemos sem música até o fim da cena.

Quando Oren perde o topo da cabeça, a música The Flower of Carnage invade a cena conferindo a atmosfera da vitória da Noiva. O curioso é que a música é melancólica, triste. Não se trata de uma fanfarra. Depois de Oren ter pedido desculpas demonstrando arrependimento pelo que fez com a protagonista, a vingança torna-se mais amarga, mas não menos vazia. A música ainda é o símbolo da vitória da protagonista, só não se trata de algo doce e vibrante como o esperado.

Para fechar o filme, Tarantino utiliza mais uma vez The Lonely Shepard. A interpretação ainda é a mesma que apresentei no parágrafo anterior. A promessa de uma nova aventura se inicia enquanto outra se conclui. A vingança não foi terminada. Ainda há mais dois capangas para chegar a Bill. Para finalmente matar Bill. E como será que Tarantino aproveita musicalmente a trilha do volume 2?

E isso, por enquanto, fica para a próxima análise de trilha musical.

Kill Bill Vol. 1 (Original Soundtrack)
Compositor
: Various Artists
Gravadora: Maverick Records
Ano: 2003
Estilo: Rock, Country, Pop, Indie, Folk, Jazz, Oriental

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.