Crítica | Kill Bill Vol. 2 (Trilha Sonora Original)

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estrelas 3,5

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

Depois da explosão criativa tanto em filme quanto na trilha musical, é perfeitamente normal se sentir decepcionado com o resultado do Volume 2 de Kill Bill. Foi assim que fiquei quando revi o longa ontem à noite. Não me pesa a história. Gosto bastante e acho que o tom mais maduro e intimista é correto, mas ainda assim prefiro as loucuras ágeis e o vigor do primeiro filme que me cativará pelo resto da vida – tenho uma ligação muito forte com ele, pois foi o primeiro longa de Quentin Tarantino que tinha visto na vida. Tinha nove anos na época – sim, não fiquem chocados. Vi muitos filmes na minha infância, mesmo os mais pesados, e aproveitava cada momento disso o que me leva a lembranças muito ternas da primeira juventude.

Começando o filme com o pé na porta, Tarantino insere um vigor absurdo na primeira sequência composta pelo breve flashback seguido do monólogo da Noiva. Mas a cena se transforma mesmo é com a ajuda do ilustríssimo Ennio Morricone e sua A Silhoute of Doom. A música é gorda, caótica, cresce sem parar e consume tudo que há em volta com os trompetes pontuais, a percussão e as notas graves do piano. É o anuncio explícito do ódio e da psicopatia da Noiva e seu tesão em matar.

Em seu clímax, a composição trota. Avança incessantemente. Uma força maior a empurra. O coral entoa o grito de guerra. A Noiva não será mais calada. A Noiva agora é Beatrix Kiddo, assassina por natureza.

Eu amo pontuar os inícios dos dois filmes, pois o contraste é absurdo. No primeiro, temos a Noiva derrotada, espancada, ensanguentada, baleada. Na música, temos a melodia melancólica e suplicante de Bang Bang na voz de Nancy Sinatra. Agora, a letra some. A razão melódica foi embora para dar lugar à violência dos instrumentos de Morricone. A única letra é um grito animalesco de uma vogal só. Não por menos, temos a Beatrix dirigindo seu magnifico conversível num clima noir impagável. A femme fatale conversa conosco. Ela matará Bill e pouco se lixa se você se importa ou não. Se ficar entre seu objetivo, ela te cortará ao meio.

Não há composição mais perfeita para sintetizar a profunda transformação da personagem. Ennio Morricone é um gênio.

Porém, após essa pancada de adrenalina, o filme se arrefece. Assim como a trilha musical. Sim, a trilha musical de Kill Bill Vol. 2, ao meu ver, é inferior à do primeiro filme – também muito pelo uso meramente atmosférico de diversas composições que marcam as músicas do longa. É muito relevante citar que Tarantino não incluiu nem terça metade das composições presentes no filme – nem mesmo a fantástica composição que acompanha o retorno triunfal de Beatrix ao se libertar do confinamento do caixão ou as composições excelentes de Robert Rodriguez. A maioria delas é instrumental, claro, visando pontuar o tom mais adulto, realista e intimista do novo filme. Porém, quem perde com isso, além de nós, é a coletânea que se torna mais frágil, infelizmente. A crítica também perde bastante conteúdo já que boa parte das minhas anotações não entraram no texto final já que se trata de uma análise do álbum.

Então nos prendendo ao álbum, só temos outra peça musical depois de uma hora de filme. The Chase de Alan Reeves apresenta Elle Driver indo ao encontro de Budd. Os acordes do baixo permeiam a pompa e confiança que Elle sente no momento. A certeza de que o encontro será positivo para ela. Além disso, a vibe setentista complemente todo cinismo da personagem.

Depois, durante a luta entre Elle e Beatrix, Tarantino encaixa novamente a ótima Silhoute of Doom. A música é tão forte que consegue denotar sentidos diferentes para cada uso. Agora ela se trata de uma preparação de expectativa, crescendo a tensão entre as duas para culminar na batalha. O terror é forte. O interessante é que a música não é aliada de Beatrix. Há uma inversão de vantagem psicológica entre as duas personagens.

No começo, Beatrix tem a vantagem ao apresentar a Hanzo de Budd à Elle, atônita. Depois, passa para a provocação ao perguntar o que ela falou a Pai Mei para que ele arrancasse o olho da loira. Então, na virada climática da música, quando a percussão bate mais forte, Elle revela que matou o mestre de Beatrix, desestabilizando a mulher. Então, quando o grito da música surge, as duas partem para a batalha. O grito persiste durante o breve confronto. Mas assim que Beatrix arranca o olho de Elle, o grito da composição some para dar lugar aos urros desesperados da, agora cega, Elle Driver.

Duas viradas para três estabelecimentos narrativos e também atmosféricos. Isso é épico. Não à toa esta é uma das minhas cenas favoritas do filme.

Então para aliviar um pouco o clima, Tarantino insere Tu Mira de Lole y Manuel, uma composição agradável de guitarras em ritmo latino com letras acaloradas, quando Beatrix parte ao México afim de descobrir onde Bill está escondido. Não há muito mais que isso aqui, mas é boa música.

Sabendo onde Bill está, Beatrix segue para finalizar sua vingança ao som de Summertime Killer de Luis Bacalov. A música, como a maioria, é introspectiva. Traz reflexões enquanto Beatrix segue até a casa. Até ali, ela é bem-comportada, cíclica como uma ideia fixa. Ainda server como motivação para ela seguir seu caminho, porém assim que ela chega a seu destino, as guitarras ficam mais ativas, a música acorda, assim como a personagem tomada pela ansiedade em completar sua vingança. Porém, toda a estrutura da música e desmontada assim como a personagem ao encontrar sua filha pela primeira vez. Novamente, é um bom uso de trilha, mas não é um momento tão poderoso quanto a maioria do uso das músicas no Volume 1.

Quando Beatrix põe sua filha para dormir, Tarantino usa mais uma vez uma canção, só que esta é muito mais significante que o uso de TU Mira. Se trata da ótima About Her de Malcolm McLaren que simboliza o sentimento de carinho e culpa que Beatrix sente pela filha cuja existência ela desconhecia até então, afinal ninguém havia falado sobre ela. A música é muito boa, uma baladinha pop dos anos setenta inspirada em She’s Not There de The Zombies. Também simboliza uma reminiscência de sentimento que a protagonista sente por Bill.

Para fechar o filme em ótimo astral, Tarantino agita as coisas novamente com o ritmo latino/huapango da clássica Malagueña Salerosa interpretada por Chingon. A canção é alegre. Reflete o estado de espírito da protagonista. Ela finalmente cumpriu sua vingança e ainda por cima, uniu sua família pela primeira vez. O estado é de profunda alegria. Nada mais conveniente do que o uso da canção.

Mesmo que o álbum não possua a maioria das músicas do filme, ele possui canções que não estão presentes no longa. Logo, é um atrativo separado. Na tracklist temos mais composições de Morricone, mas nenhuma aos pés de Silhoute of Doom. Também há Johnny Cash com Satisfied Mind e outra de Charlie Feathers, considerado o mestre do rockabillyCan’t Hardly Stand It.

No geral, o saldo é positivo. É uma coletânea muito boa, mas passa longe da excelência apresentada no primeiro álbum que analisamos ontem. Diversas composições importantes ficaram de fora e o uso delas no filme é exemplar ao trazer momentos poderosos e cativantes. Uma pena que resultado desse álbum não tenha se equiparado ao anterior, pois música para preenche-lo era o que não faltava.

Kill Bill Vol. 2 (Original Soundtrack)
Compositor:
Various Artists
Gravadora: Maverick Records
Ano: 2004
Estilo: Rock, Latino, Pop, Country, Oriental, Folk, Soundtrack

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.