Crítica | Kill Bill: Volume 1

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estrelas 5

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

Se existisse um glossário para cinéfilos geeks, provavelmente ele se chamaria Kill Bill: Volume. Quentin Tarantino abriu completamente as comportas de sua capacidade de reunir gêneros e fazer citações e homenagens e juntar tudo em um filme quase inclassificável.

Por cima de tudo, Kill Bill é um filme de vingança. Seu próprio título já deixa claro o que a Noiva (personagem vivido e co-criado por Uma Thurman) quer fazer. Mas Bill não aparece, a não ser pela voz e de relance duas vezes e o que a Noiva faz o filme inteiro é eliminar, metodicamente, toda a equipe DiVAS (Deadly Viper Assassination Squad) de Bill.

Mas é claro que Tarantino não deixa barato e transforma uma narrativa bastante simples e objetiva em um universo próprio, rico de detalhes e contada, claro, da maneira menos linear possível. A única diferença de Kill Bill para o que veio antes do diretor é que, dessa vez, ele abertamente faz um filme de um cinéfilo para cinéfilos.

Tarantino sempre fez referências a obras anteriores que admira, sendo ele mesmo colecionador de rolos de filmes raros que muitas vezes ele mesmo restaura. Essa é uma de suas marcas registradas, mas, aqui, ele realmente deixa vazar para a tela todo seu lado geek, sem dó nem piedade. Há referências, auto-referências e até reencenações de sequências de outros filmes aos borbotões, praticamente a cada nova sequência.

Assim, Kill Bill: Volume 1 (e o Volume 2 também, mas ele é objeto de crítica separada) é um presente para quem sabe, por exemplo, que o ator Sonny Chiba, que vive Hatori Hanzo, o lendário fabricante de espadas, era, na década de 70, um ícone dos filmes de luta orientais, tornado particularmente famoso pela série Street Fighter. E a coisa fica ainda mais interessante, se é feita a ligação dessa ótima escalação com o começo de Amor à Queima Roupa, filme de 1993 escrito por Tarantino e dirigido por Tony Scott, em que o personagem de Slater vai ao cinema para ver uma sessão tripla dos filmes de Chiba.

Eu poderia discorrer aqui sobre dezenas e dezenas de referências, como as óbvias de Besouro Verde e Jogo da Morte, passando pelas menos óbvias como Lady Snowblood e Yojimbo e Sanjuro e, mesmo assim, deixaria de fora outras dezenas que deixei passar por absolutamente desconhecê-las. No entanto, isso seria uma perda de tempo.

Afinal de contas, Kill Bill: Volume 1 não funciona só para cinéfilos malucos como Tarantino. Sim, certamente há camadas e camadas para eles, só que Tarantino sabe criar atrativos para tornar o filme universal e, literal e amorosamente, apropriar-se de obras e conceitos anteriores para, como de praxe, criar algo seu e só seu com enorme apelo para o público em geral que suportar a violência estilizada e exagerada.

E a técnica da fita é muito atraente. Reparem na cena, por exemplo, em que a Noiva, paramentada com o uniforme icônico de Bruce Lee e sua espada Hattori Hanzo, inicia sua vingança contra O-Ren Ishii (Lucy Liu) na House of Blue Leaves. A partir do momento em que o grupo 5.6.7.8’s começa a cantar Woo Hoo do The Rock-A-Teens até o final, a sequência é integralmente sem cortes, mas Tarantino eleva o conceito de “sem-cortes” até os limites da técnica. Vemos a Noiva ir ao banheiro com a câmera a acompanhando até que ela abre um dos reservados e passamos a vê-la via efeito especial (uma transparência, apenas). A câmera então volta e passa a seguir uma mulher qualquer que está saindo do banheiro e dá de cara com o casal dono do local reclamando e levando uma bandeja de cervejas para O-Ren e sua gangue. Passamos a seguir os dois, com a câmera em uma grua passando por cima dos cenários até que, na pista de dança novamente, vemos Sofie Fatale (Julie Dreyfus), a mão direita de O-Ren descendo as escadas para ir ao banheiro e, então, passamos a segui-la. Enquanto isso, Woo Hoo continua tocando e para no momento em que a cena é cortada finalmente e a Noiva chama O-Ren para o combate. Simplesmente irretocável.

As lutas da Noiva primeiro contra os capangas que cercam O-Ren e depois contra a tresloucada Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama) são coreagrafadas cada uma de uma maneira peculiar. Cortes rápidos para as primeiras, cortes longos para a luta final, mas cada uma delas tem seu próprio estilo e desfecho, sempre, claro, homenageando os filmes setentistas de kung-fu e de samurais.

E, então, vemos o longo combate contra os Crazy 88 (que, conforme aprendemos no Vol. 2, não são 88 nada). É uma seqüência caricata, lógico, mas extremamente dinâmica e uma espécie de junção de todas as técnicas possíveis de filmagem, mas sem o efeito cansativo, por exemplo, de Oliver Stone em Assassinos por Natureza. Vemos a transição para fotografia em preto-e-branco após a cena em que a Noiva arranca o olho de um de seus oponentes e o banho de sangue realmente começa, com câmera lenta, wire-fu (que já havia sido usado na luta contra Gogo) e, finalmente, o combate em que só vemos a silhueta negra dos lutadores com as telas japonesas iluminadas com um forte azul.

Mas, quando achamos que tudo acabou, vem o clímax diretamente contra O-Ren em cena retirada de Lady Snowblood, com o fundo musical de nada mais nada menos do que Don’t Let Me Be Misunderstood de Santa Emeralda. Um final emocionante para sequências quase surreais de lutas de espada.

E tudo o que mencionei acima acontece após diversas sequências que mostram, até certo ponto, a “origem” da sana vingativa da Noiva, passando por um despertar de um estado comatoso em um hospital somente para descobrir os atos nojentos de um pervertido enfermeiro e a primeira sequência de luta – visceral, rápida, realmente potente – entre a protagonista e sua primeira vítima do grupo de Bill, Vernita Green (Vivica A. Fox). Tarantino não dá sossego ao espectador minuto algum e nos coloca diretamente na ação e sempre ao lado da Noiva que, por mais que use extrema violência e não perdoe ninguém, não conseguimos deixar de torcer por ela.

Não há como ficar indiferente a Kill Bill: Volume 1, seja você um cinéfilo hardcore que listará todas as referências usadas por Tarantino (e há sites inteiros dedicados a isso!) ou uma “pessoa normal” que gosta de cinema apenas. Kill Bill é caricato e exagerado, mas nunca confuso e monótono. É uma ode a um tipo de cinema que não existe mais e um presente de Tarantino que, depois de Jackie Brown, volta às suas raízes, mas sem qualquer tipo de freio, criando uma catarse explosiva sem igual.

Kill Bill: Volume 1 (Kill Bill: Vol. 1, EUA – 2003)
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, David Carradine, Michael Madsen, Julie Dreyfus, Chiaki Kuriyama, Sonny Chiba, Chia-Hui Liu, Michael Parks, Michael Bowen, Jun Kunimura
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.