Crítica | Kill Shakespeare – Vol. 2

estrelas 3,5

O volume 2 de Kill Shakespeare, apesar de deixar uma ponta narrativa solta propositalmente, efetivamente encerra o arco iniciado no volume 1, em que somos apresentados a Hamlet e a Ricardo III, com o segundo convencendo o primeiro a matar Shakespeare que, nesse universo, é o deus criador. Em outras palavras, Anthony Del Col e Conor McCreery, os roteiristas, tinham uma história finita em mente, em breves 12 números, o que é sempre uma boa notícia.

E o segundo volume começa com a aproximação amorosa de Hamlet e Julieta em ricamente ilustradas 20 páginas tendo com catalisador e, ao mesmo tempo, pano de fundo, a peça O Assassinato de Gonzago, justamente a peça que Hamlet famosamente pede para ser montada – com alterações – diante de seu tio assassino. O trabalho de Andy Belanger na arte é ousado e belíssimo, com um original uso de quadros, o que empresta grande fluidez ao trabalho. Ele faz uso, também, de cortinas e molduras de quadros, além de outros apetrechos, digamos, artísticos, para criar toda sua composição, construindo uma espécie de peça dentro da peça dentro dos quadrinhos. O único senão é o problema que já acometia Belanger no primeiro volume e que continua nesse até o fim: ao ousar, o artista acaba tropeçando na cadência de leitura dos quadros, tornando difícil ao leitor acompanhar a ordem exata em que o diálogo ou monólogo foi idealizado. Não é nada que afeta a compreensão da obra, mas certamente atrapalha.

Aliás, se o começo do segundo volume tem um problema realmente mais sério, ele está no roteiro de Del Col e McCreery, já que é carregado de texto expositivo que narra as histórias dos dois amantes. Era algo completamente desnecessário. Sorte que a arte de Belanger é tão deslumbrante que é fácil esquecer do texto.

Depois, a situação se inverte completamente. O roteiro ganha ritmo e a arte torna-se apenas eficiente, nada verdadeiramente especial. Del Col e McCreery mostram que realmente sabiam a direção que sua história iria tomar e eles não perdem muito tempo enrolando. Vão logo ao que interessa, que é o encontro de Hamlet com Shakespeare. E, nesse ponto, há um grande aprofundamento do paralelo nada discreto que os dois fazem com o cristianismo, ao tratar Shakespeare como um deus que não mais liga para sua criação, tornando a fé um instrumento de extrema relevância. É claro que, assim que Shakespeare entra na narrativa como personagem efetivo, interferindo no desfecho da trama, essa força comparativa diminui, mas ainda fica como um bom subtexto.

Aliás, na pressa em encerrar seu arco, os roteiristas, apesar de toda a boa intenção em fazer uma história redonda, acabam exagerando na movimentação dos personagens. Othello e Julieta ficam para lutar contra os exércitos combinados de Ricardo III e Lady McBeth, ao passo que Hamlet, Falstaff e Iago, além do recém-encontrado Romeu, vão em busca de Shakespeare, criando narrativas paralelas. O problema vem quando a ação de um lado “sangra” para o outro lado e vice-versa, parecendo que os grupos estão, na verdade, um muito perto do outro, o que não é absolutamente verdade. Se Kill Shakespeare fosse um filme, estaria reclamando da montagem, mas como é uma HQ, creio que o problema tenha se originado no roteiro, que precisava de uma distância que não fosse tão longe assim, e foi agravado pela arte de Belanger, que não soube transpor o dilema satisfatoriamente para suas páginas.

De toda maneira, a brincadeira que Kill Shakespeare faz com as obras do bardo inglês é simplesmente divertida demais para ser ignorada. Funciona bem melhor para quem já tem algum conhecimento das obras que são colocadas no liquidificador criativo de Del Col e McCreery, mas, mesmo os não-iniciados se divertirão com o milkshake resultante. Afinal, “tudo bem quando termina bem”, não é mesmo?

Kill Shakespeare – Vol. 1 (Idem, compilando # 7 a 12, EUA – 2010/2011)
Roteiro: Anthony Del Col, Conor McCreery
Arte: Andy Belanger
Cores: Ian Herring
Editora (nos EUA): IDW Publishing (novembro de 2010 a agosto de 2011)
Editora (no Brasil): ainda não publicado
Páginas: 165

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.