Crítica | Kill Shakespeare – Vol. 3: The Tide of Blood

estrelas 4

Kill Shakespeare é uma interessante e muito bem feita obra em quadrinhos. Diverte tanto quem conhece quanto quem não conhece as obras desse grande autor, ainda que, claro, aqueles mais íntimos a elas conseguem extrair bem mais do que as referências mais óbvias. A premissa, apesar de já batida em quadrinhos, é intrigante, pois estabelece que Shakespeare é um deus que criou um mundo em que todos os seus personagens coexistem e ele é venerado como tal.

No volume 1, somos apresentados a Hamlet, inconsolável príncipe dinamarquês expulso de seu país por seu tio que não só matou seu pai, como casou com sua mãe. Depois de um ataque de piratas, Hamlet é resgatado por Ricardo III que lhe conta que ele é o Rei das Sombras e que tem uma profecia para cumprir: matar Shakespeare. Sem entender muita coisa, Hamlet embarca nessa missão somente para deparar-se com Falstaff, Julieta e Othello (além de Romeu, que não sabia que Julieta estava viva e vice-versa e acaba entregando-a para Hamlet) que lhe dizem o oposto: que ele está lá para achar Shakespeare e salvar o mundo das garras de Ricardo III que tem como aliada a feiticeira Lady Macbeth. Fica claro o lado certo dessa história, não é mesmo? A narrativa continua no volume 2, com Hamlet achando Shakespeare e retornando com ele para uma decisiva batalha que vitima Falstaff e também Ricardo III. Lady Macbeth escapa, não sem uma cicatriz atravessando seu belo rosto.

kill shakespeare 3 capa finalCom isso, o volume 3 começa três meses depois dessa batalha, com as coisas mais ou menos voltando para a normalidade, ainda que Titus e seu exército estejam sempre ameaçando os heróis. Mas essa é uma ameaça distante, pois Romeu, depois de ser expulso da cidade pela general Julieta, que não aguenta mais seus ciúmes, já que ela agora está apaixonada por Hamlet, acaba se deparando com Miranda, filha de Próspero, em fuga das bestas de guerra de Titus. Ela traz consigo um poderoso livro e diz que Romeu e os demais têm que voltar com ela para a ilha de Próspero, que se tornou um poderosíssimo feiticeiro, para evitar que o mundo seja destruído.

Com isso, Anthony Del Col e Conor McCreery conseguem trabalhar um universo menor de personagens, além de tornar desnecessária a introdução dos conceitos segundo os quais o mundo que criaram funciona. Não demora muito e a expedição capitaneada por Julieta, Hamlet, Othello e Romeu chega na ilha junto com Miranda e muita coisa passa a acontecer, especialmente a redução mais radical ainda da função de muitos personagens. Othello e Hamlet são colocados de lado – organicamente, devo acrescentar – e o foco fica na questão do amor não resolvido entre Romeu e Julieta e suas consequências. E é interessante ver como os roteiristas mexem com a obra original, pervertendo completamente nossas expectativas. Sai o Romeu romântico e inocente e entra o Romeu vivido e obsessivo.

Do lado mágico da história, vemos o embate entre Próspero e Shakespeare (não é surpresa e sim algo obviamente inevitável) que chega a uma resolução muito interessante e original, que não trai os princípios de A Tempestade, além de trabalhar, também, a personalidade do próprio bardo. Com apenas cinco números para fechar o arco, Del Col e McCreery são significativamente mais econômicos e eficientes nos diálogos do que no primeiro arco de dois volumes. Não há tempo a perder e o senso de urgência é constante.

No lado da arte, Andy Belanger não tem grandes arroubos de criatividade em seus quadros como no magnífico volume 2, mas ele parece, por outro lado, estar mais à vontade com seus personagens. Vemos mais detalhamento nos rostos e um bom uso do espaço de páginas, com boa distribuição dos cenários e personagens. De nota mesmo fica a originalidade no desenho de Próspero e de Caliban, personagens-chave para a narrativa.

Apesar de deixar uma enorme ponta solta para uma continuação (que, quando da elaboração da presente crítica, ainda não havia sido lançada), The Tide of Blood é um arco auto-contido e bem resolvido, que consegue ser ainda melhor do que o trabalho anterior da trinca de artistas.

Kill Shakespeare – Vol. 3: The Tide of Blood (Idem, compilando # 1 a 5, EUA – 2013)
Roteiro: Anthony Del Col, Conor McCreery
Arte: Andy Belanger
Cores: Ian Herring
Editora (nos EUA): IDW Publishing (fevereiro a agosto de 2013)
Editora (no Brasil): ainda não publicado
Páginas: 146

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.