Crítica | Killer Joe – Matador de Aluguel

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estrelas 3,5

Devo ser honesto logo de cara e revelar meu primeiro pensamento depois que os créditos de Killer Joe começaram a subir na tela: “ei, peraí, não é que o tal do McConaughey sabe atuar?”. Pois é, Matthew McConaughey sempre esteve arquivado mentalmente em minha divisão dos “atores não-atores”, mas não porque ele é intragável, mas simplesmente porque nunca havia visto nenhum filme em que passasse da tênue linha do “minimamente razoável para não fazer feio”.

Em Killer Joe, McConaughey (ainda bem que inventaram o “copia e cola”, senão ia chamar o cara de “MM” mesmo…) revela-se alguém capaz de nuances, detalhes na expressão que fazem toda a diferença entre uma atuação sem graça e uma hipnotizante. É bem verdade que seu papel, um policial corrupto chamado Joe Cooper que faz bico como matador de aluguel, não é dos que mais exigem de um ator, pelo menos não em um primeiro momento. Mas William Friedkin (diretor do clássico O Exorcista) exige mais de McConaughey e vai transformando seu personagem, de um matador frio, na verdadeira encarnação do mal e da perversão. E o ator não titubeia, encarando o papel de frente e saindo vencedor.

Na história, em pleno Texas sem lei dos dias atuais, Chris Smith (Emile Hirsch) está com os dias contados, pois não tem dinheiro para pagar um traficante local. Ele busca a ajuda de seu pai, Ansel Smith (Thomas Haden Church), que mora com sua segunda esposa Sharla (a bela Gina Gershon) e com a irmã mais nova de Chris, Dottie (Juno Temple). O plano é simples: contratar Joe para matar sua mãe e recolher o seguro de vida de 50 mil dólares já que Chris é o único beneficiário.

Não é necessário muito para percebermos que a família Smith (não por acaso um dos sobrenomes mais comuns nos Estados Unidos) é clássica representante do chamado white trash, termo pejorativo para indicar aquela classe social americana normalmente sulista sem eira nem beira, que, de acordo com os filmes, venderia até a mãe para conseguir uns trocados. Aqui, no lugar de vender a mãe, a família Smith quer matá-la por um punhado de dólares. Como eles mesmos diriam: same difference.

Obviamente que Joe quer receber seus “honorários” adiantados, mas Chris e Ansel não têm um centavo no bolso. Joe, que já estava de olho em Dottie, de apenas 12 anos e com algum tipo de desequilíbrio mental, a pede como “garantia”, contra um pagamento futuro. A sordidez, claro, não para por aí e a trama vai se complicando, com muita violência e insinuações sexuais pesadas, notadamente uma longa e desconcertante cena de felação com uma coxinha de galinha empanada do Kentucky Fried Chicken.

A fragilidade da base da família é integral ao filme. Tudo está para desmoronar. Não há esperança no horizonte e a fotografia de Caleb Deschanel (diretor de fotografia de Os Eleitos, O Patriota e vários outros) deixa isso muito claro. Ou escuro, para ser mais preciso. Tudo é feito em sombras, com iluminação indireta, tornando o ambiente claustrofóbico e sufocante. Friedkin, por seu turno, esmera-se em mostra a sujeira literal da vida dos Smiths e de todos que os cercam, sem perdoar ninguém. É o microcosmo representativo da terra de ninguém, da falta de esperanças, do fim dos dias.

O roteiro, escrito por Tracy Letts (também autor da peça que deu base ao filme), é salpicada de diálogos típicos de obras de Tarantino, sem, porém, demonstrar a mesma capacidade de criar linhas memoráveis. São longos momentos expositivos da perturbada psiquê dos personagens que, porém, não fluem tão bem quanto os que Tarantino costuma escrever. Há tentativas de humor – ok, humor negro – que não passam disso, tentativas. Mesmo assim, em grande parte a estrutura narrativa funciona e passa a mensagem de desesperança e nihilismo. Afinal, o que os Smiths podem ter em seu horizonte se eles acham que 50 mil dólares de dinheiro vindo de sangue resolveria a vida da família inteira?

Friedkin mostra que ainda está em forma, apesar de várias obras menos do que memoráveis em tempos recentes, especialmente ao extrair de todo os atores (Haden-Church é quem menos é bem-sucedido aqui) atuações fortes, impressionantes mesmo. Mas fica um aviso: vocês nunca mais encararão uma coxinha de galinha da mesma maneira depois de Killer Joe.

Killer Joe – Matador de Aluguel (Killer Joe, Estados Unidos, 2011)
Direção: William Friedkin
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church, Gina Gershon, Scott A. Martin, Gralen Bryant Banks, Carol Sutton, Danny Epper, Jeff Galpin, Marc Macaualay, Gregory C. Bachaud, Charley Vance
Duração: 102 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.