Crítica | Killjoys – 1ª Temporada

Killjoys tem valores de produção de fan film, personagens arquetípicos rasos como um pires, atores de latitude dramática oscilante entre os níveis Blake Lively (traduzindo: ocasionalmente eficiente) e Stephen Amell (traduzindo: uma maçaneta atuaria melhor), roteiros na estrutura de “casos da semana” do tipo primeiro semestre de faculdade de Cinema e trabalhos de direção feitos pelos estagiários da produção. Mesmo com essa tempestade perfeita para ser uma série insuportavelmente ruim, de alguma maneira essa 1ª temporada consegue resultar em um conjunto agradável que quase consegue sair do apenas medíocre.

Com uma premissa clichê que conta as aventuras de caçadores de recompensa espaciais (ou Killjoys), a história tem como catalisador o aceite, por John Andras “Johnny” Jaqobis (Aaron Ashmore), sem que sua chefe e parceira Yalena “Dutch” Yardeenpor (Hannah John-Kamen) saiba, de um mandado de categoria 5, que significa captura vivo ou morto, de seu irmão, D’avin Jaqobis (Luke Macfarlane), com o objetivo de salvá-lo. Com isso, Dutch e Johnny, que formavam uma das melhores parcerias entre os caçadores de recompensa da RAC (Reclamation Apprehension Coalition), passam a ser uma trinca, com a óbvia adição de D’avin. Essa, porém, é a superfície clichê que esconde sub-tramas clichês que lidam com os passados misteriosos de Dutch, treinada desde criança para ser uma assassina e de D’avin, um soldado com transtorno de estresse pós-traumático que não se lembra de detalhes do maior trauma de sua vida e, também, com as intrigas entre as castas mais pobres do Quad (o quadrante de planetas onde a série se passa) e a casta superior, formada por nove famílias nobiliárquicas que fazem o que querem por intermédio da misteriosa Companhia.

Claro que os diversos mandados que a trinca aceita servem para que cada episódio lide com um tipo diferente de caçada, com o primeiro terço da temporada sendo desperdiçada com uma estrutura básica afeita à séries com mais episódios. Felizmente, depois que, vagarosamente, os protagonistas passam a deixar entrever detalhes de seus “segredos”, há uma costura maior dos capítulos em uma história razoavelmente unificada que, se ao final fica longe de responder qualquer pergunta feita de maneira definitiva, pelo menos estabelece intrigas e mistérios suficientes para prender a atenção do espectador que não estiver esperando muito.

Lançada no mesmo ano e pelo mesmo canal que The Expanse, Killjoys é como um “primo pobre” da série baseada na coleção de livros de James S. A. Corey. A ficção científica realista da primeira série dá lugar a um sci-fi sem qualquer pretensão nessa linha. Os efeitos especiais de The Expanse, todos de primeiro nível, abrem espaço para raros empregos de CGI que mais parecem sequências adquiridas no estoque de cenas não utilizadas de séries do gênero dos anos 90. Além disso, todos os figurinos e cenários de Killjoys parecem ser feitos com peças compradas em brechós e ferros-velhos (todos os cenários ou se parecem armazéns abandonados ou são desertos vazios…). Mas, claro, essa pegada semi-trash e de baixo orçamento é proposital e combina com o espírito da temporada e, também, com a relação de amor e ódio entre a trinca principal e deles com os demais personagens coadjuvantes, inclusive Lucy (a voz sexy de Tamsen McDonough), a inteligência artificial da nave de Dutch, que é apaixonada por Johnny.

Diria que é justamente essa química entre Dutch, Johnny e D’avin que faz a temporada funcionar de verdade. Por pior que Macfarlane seja em seu papel do bonitão cheio de “olhares 43” e por mais subutilizada que John-Kamen seja como a femme fatale invencível Dutch (impressionante como os roteiros confundem personagem feminina forte com personagem feminina porradeira), os dois e mais o Johnny do simpático e bem à vontade Ashmore, juntos, compõem uma equipe que diverte daquele jeito basicão de ser e que já vimos em um sem-número de séries por aí.

É perfeitamente possível perceber o potencial da série a partir dos acontecimentos do último terço, em que os passados de Dutch e D’avin ganham os holofotes e passam a ser mais interligados. Não o potencial para algo inesquecível como é o caso de The Expanse, mas sim para aquela diversão descompromissada e passageira entre uma série boa de verdade e outra. Killjoys, dentro de sua proposta modesta, até consegue entregar o que promete, mesmo que seja patente que não há um pingo de esforço para tirar a temporada do genérico.

Killjoys – 1ª Temporada (Idem, Canadá – 19 de junho a 21 de agosto de 2015)
Criação e showrunner: Michelle Lovretta
Direção: Chris Grismer, Michael Robison, Andy Mikita, Michael Nankin, Paolo Barzman, Peter Stebbings, Ken Girotti
Roteiro: Michelle Lovretta, Jeremy Boxen, Aaron Martin, Emily Andras, Adam Barken, Annmarie Morais
Elenco: Hannah John-Kamen, Aaron Ashmore, Luke Macfarlane, Thom Allison, Nora McLellan, Frank Moore, Sean Baek, Morgan Kelly, Tamsen McDonough, Rob Stewart, Sarah Power, Mayko Nguyen
Produtora: Syfy
Duração: 420 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.