Crítica | King Kong (1933)

estrelas 5

Sou extremamente parcial quando trato de filmes usando a tecnologia do stop motion. Afinal de contas, movimentar bonecos articulados 24 vezes a cada segundo de filmagem é, por si só, um esforço hercúleo. Calculem rapidamente o que isso significa para a filmagem de um minuto apenas? Pensaram? Os bonecos têm que ser movimentados 1.440 vezes e olhem que, em 1933, não dava para aproveitar-se do computador para facilitar o trabalho.

Era, literalmente, apertar sucessivamente o play e o stop da câmera de filmar (ou o equivalente da época) e, entre uma coisa e outra, mexer os bonecos, as plantas, todo o cenário, dependendo do tipo de filme, um milésimo quase imperceptível. Muitos filmes em stop motion são ruins mesmo em termos de roteiro, direção e atuação mas a técnica em si é de cair o queixo e merece aplausos, especialmente quando é usada a serviço de obras realmente boas.

King Kong, o original de 1933, é um dos exemplos de filmes realmente bons. Não é perfeito – longe disso – e não envelheceu bem, mas o casamento da tecnologia cinematográfica com roteiro bem delineado e direção competente, fizeram da fita um divisor de águas.

A história é bem conhecida de nós todos, mesmo aqueles que não viram o original: um enorme macaco é achado em uma ilha misteriosa e levado para Nova Iorque, onde vira atração de circo.

Ao mesmo tempo em que é um eficiente filme de suspense e ação, podendo ser visto da sua forma mais primária, King Kong é um filme de várias camadas. Uma visão simplista vai apenas pensar nas aventuras de cinegrafistas e marinheiros contra perigos pré-históricos impensáveis para resgatar a dama em perigo (Ann Darrow, vivida por Fay Wray) das garras de um monstro. E é uma visão válida e que o filme consegue satisfazer muito bem. Temos todos os elementos de uma narrativa dessa natureza: tensão, ação frenética, mortes, brigas colossais, escaladas em arranha-céus e batalha aérea. Temos, também, uma bela loira em perigo e um vigoroso e corajoso cavalheiro que sai ao seu resgate (John Driscoll, vivido por Bruce Cabot), além de um manipulador e aproveitador com coração, Carl Denham, vivido por Robert Armstrong.

Some-se a isso os efeitos especiais que já mencionei e a fórmula do sucesso está pronta. Fechem os olhos por um momento e tentem transportar-se para o cinema em 1933 e imaginem a reação da platéia diante do fantástico trabalho de Willis H. O’Brien, que fora responsável por, dentre outros, O Mundo Perdido, de 1925. Nesse ponto, o filme fica quase insuperável no quesito assombro.

Mas, claro, não podemos apenas ver o filme com os olhos de 1933. Estamos em 2013. Filmes até mais antigos que King Kong passaram melhor pela prova do tempo que ele. É o que Intolerância e O Nascimento de Uma Nação comprovam. É o que quase toda a obra de Chaplin deixa evidente. Mesmo filmes recheados de efeitos especiais – tão revolucionários quanto os de King Kong – como 2001 – Uma Odisséia no Espaço eStar Wars, são basicamente atemporais, vistos e apreciados hoje da mesma maneira que o foram na época de suas respectivas criações. King Kong marca muito bem seu tempo, bem demais ao ponto de não conseguirmos nos desvencilhar de quando foi feito e sorrirmos, mas com respeito, muito respeito, pelo quão datados são os efeitos.

É aí que vem a necessidade de olharmos King Kong em suas outras camadas. A camada do homem contra a natureza. Da conquista do segundo pelo primeiro. Da corrupção do natural pelo artificial. King Kong nos faz sofrer pelo enorme e feioso macaco que mata sem dó nem piedade para achar seu mais novo amor.

E então damos de cara com outra camada: como assim amor? King Kong mostra sim o amor de um macaco por uma bela loira. Há uma cena em particular, em que Kong delicadamente despe Ann Darrow e fareja suas partes íntimas que é quase como se os dois estivessem transando em cena. São pensamentos perturbadores? Certamente. Mas vejam o filme novamente se vocês não repararam nisso e me digam se estou errado.

É, King Kong é muito mais que um filminho de ação cheio de efeitos especiais. Não se fazem mais macacos como antigamente.

RITTER FAN. . . .Sou um carioca rabugento que não faz questão nem de sol (muito quente) nem de praia (tem areia e água salgada). Prefiro o escurinho do cinema onde, sozinho ou acompanhado da família ou de amigos, me divirto - ou não, depende - por horas a fio.